Ao assumir a cadeira de deputado, uma pequena frustração toma conta de todos os eleitos. Eles descobrem que não foram escolhidos sozinhos. Há no Congresso Nacional outras centenas de ungidos, tão legítimos quanto você. As lides parlamentares são massacrantes. Não há espaço para vontades individuais. Tudo é decidido pelo conjunto. Naquele que é um dos mais importantes documentos de toda a Antiguidade - a Oração Fúnebre de Péricles -, o estadista grego, em raro momento de inspiração, codificou todo o maravilhoso sentido da democracia, ao afirmar que o segredo da felicidade é a liberdade, o segredo da liberdade é a coragem e que valia a pena dar a vida pela sobrevivência das suas instituições: "A virtude da democracia é não estar nas mãos de poucos, e sim de muitos." No Parlamento é assim. Demanda algum tempo para que deixemos de lado as nossas veleidades pessoais e entendamos que a excelência do regime democrático repousa justamente no fato de que a ninguém, individualmente, é concedido o poder de decidir tudo sozinho. O Congresso é um processo de elaboração coletiva. Nossa vaidade repousa no simples fato de estarmos lá, podermos participar do jogo, dar a nossa contribuição, por ínfima que seja, ao aperfeiçoamento de nossa sociedade. A felicidade não está no fim do caminho, mas sim no ato de caminhar.
Quem detém um mandato eletivo, por natureza, não tem outros senhores que não o povo. E o povo deseja que seu mandatário seja altivo e independente. Sendo assim, confesso que não consigo entender como é que parlamentares se dispõem a mercadejar as suas convicções, alienar as suas vontades, deixar-se escravizar, curvar-se de modo vil, tudo isso a troco de míseros 30 dinheiros.
Porventura se olvidaram de quão difícil foi chegar até lá? Hão de dejetar, como fezes, os milhares de votos que amealharam? Há pecúnia que pague o privilégio de ter sido um eleito? Se há uma verdade na política, esta é a de que aqueles que se vendem não merecem sequer ser comprados...
Tendo em mente tudo isso, eu entendo que toda essa crise que estamos vivenciando é extremamente positiva e salutar. Da traição se aproveita a delação e se descarta o delator. Bem-aventurado seja, por enquanto, o deputado Roberto Jefferson, que trouxe à luz toda a imundície das cavalariças de Áugias. Como um câncer que se espraia em metástase, esses tumores hão de ser extirpados até as suas mais profundas raízes. Cassem-se mandatos, demitam-se funcionários, destruam-se falsas reputações, punam-se todos até que o sarcoma seja, por fim, debelado. O arremate final dessa curetagem será o merecido expurgo do próprio traidor. Mas isso, na verdade, é só um detalhe.
Uma vez iniciado o procedimento cirúrgico, não nos esqueçamos de remover, também, o agente cancerígeno. Ele está logo ali, no outro vértice da praça central.
Refestelado em seu trono, repousa um reizinho. Ele se faz de rei de baralho. Jura que de nada sabe. Protesta inocência e até mesmo ingenuidade. Afirma-se traído pelos seus valetes. Alguns até mesmo se solidarizam em sua comiseração. Mereceria ele a nossa indulgência?
Eu entendo que não. Ele reina, mas também governa. A coroa não lhe chegou à cabeça por acaso. Desta corte ele é o rei, por mais que se diga apenas o bobo. Dos ministros até os pajens, não há ninguém, no Palácio, que lá esteja à sua revelia. Se "há algo de podre no reino da Dinamarca", não cabe a este Hamlet questionar-se entre ser ou não ser. Ele é. E não pode evadir-se da responsabilidade de ser.
É impossível conceber que ele nada soubesse. Há nas cortes os áulicos, mas abundam também os Rigolettos. Seja por lealdade, seja por intriga, estes, com certeza, tudo confidenciaram aos ouvidos do rei. E este, sem a menor dúvida, estava a par de tudo o que se fazia. Mormente porque era ele, o rei, o principal beneficiário de toda essa caftinagem parlamentar.
Havemos de decepar-lhe a cabeça? Será o sangue real o melhor detergente para toda essa cloaca?
Talvez sim, talvez não. Tudo depende do que for desvendado de ora em diante.
Haja o que houver, o fato irreversível é que o rei perdeu a majestade. Não lidera, não ordena, nem sequer mandar ele pode mais. Está condenado a terminar o seu reinado impotente e emasculado.
A autoridade de um rei provém do exemplo que ele produz. Sem exemplo não há reis. A não ser os de copas, ouros, espadas ou paus.
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