O GLOBO
O pronunciamento que o presidente Lula fez ontem é o que ele deveria ter feito há dois meses. A melhor parte foi a final, quando fugiu do texto e olhou diretamente para a câmera, tentando reviver o magnetismo que o liga aos eleitores. O resto do tempo Lula desperdiçou com mais alguns dos elogios com que brinda o próprio governo, repetindo números já conhecidos; alguns deles, discutíveis.
O mais aflitivo foi o olhar na parte do texto lido. Ele alternava o olhar entre o texto e um olhar que lançava para algum ponto no teto. Do ponto de vista da linguagem corporal, aquele olhar informava que o presidente tentava não encarar de frente os fatos. Essa impressão foi desfeita no momento final do pronunciamento, quando ele fez o improviso em que passou sinceridade. Mesmo assim, foi insuficiente porque ontem de manhã a crise voltara a ser alimentada pela entrevista do ex-deputado Valdemar Costa Neto, dando as circunstâncias do acerto de contas entre o PT e o PL: uma conversa entre Costa Neto, Delúbio e José Dirceu, estando na sala ao lado Lula e José Alencar.
Se, ao fim daquele acerto financeiro dentro da coalizão que disputou a Presidência em 2002, todo o repasse fosse feito "por dentro", não haveria maiores problemas. Portanto, a conversa relatada por Costa Neto à "Época", em si, não era inconveniente. Mas, sim, o que se passou depois. O crime ocorreu na operacionalização do acerto negociado. Desse ponto de vista, o mais comprometedor continua sendo o depoimento do publicitário Duda Mendonça contando que o dinheiro que cobriu gastos das campanhas do PT transitou por vias ilegais.
O dia de ontem repercutiu no mercado financeiro porque está acontecendo o que ele mais temia: a crise está se aproximando do gabinete presidencial. A Bolsa de Valores ficou fortemente negativa; depois se recuperou. O investidor externo é que tem sustentado o mercado: 32,4% do R$ 1,5 bilhão negociado diariamente na Bovespa são capital estrangeiro.
A bolsa é só um termômetro. A grande questão é: a economia agüentará? Tem agüentado porque está colhendo hoje o que foi plantado durante dois anos e meio. Mas o Brasil está perdendo uma oportunidade.
O economista Luis Fernando Lopes, do Banco Pátria, lembra que, pelas previsões do FMI, no World Economic Outlook, o mundo crescerá este ano cerca de 4,3%; os emergentes 6,3% e a previsão para o Brasil é de algo entre 3% e 3,5%. Estamos marcando passo. O crescimento do mundo se dá por ondas, e esse é o momento da onda boa. Quando há, como agora, excesso de liquidez, a aversão ao risco cai. O risco-país de todos os emergentes caiu nos últimos tempos, mas o nosso caiu menos. Hoje o Brasil e a Argentina estão com níveis de risco muito próximos (402 e 411) e ambos acima da média dos emergentes. A hora era de aproveitar para acelerar o passo e estamos perdendo tempo e chances.
Um agravante da crise é como o governo lida com ela. Na quinta-feira à noite, ao fim do explosivo depoimento de Duda Mendonça, o presidente Lula deveria ter se recolhido para pensar com calma no que dizer à nação. Poderia ter se reunido com seus assessores, poderia ter ouvido conselheiros de fora do governo. Ele preferiu um encontro estapafúrdio com o presidente Hugo Chávez. O governo afundando, as dúvidas arrombando a porta do gabinete presidencial e o presidente Lula discutindo financiamento ao metrô de Caracas ou a suposta conspiração da direita brasileira. A Venezuela é um país dividido, de forma dramática e dolorosa para os venezuelanos. Hugo Chávez só pode ser ouvido se for para dar o receituário do que não se deve fazer ao presidir um país.
O pedido de desculpas do presidente foi meio lateral. "Não tenho vergonha de dizer que nós temos que pedir desculpas. O PT tem que pedir desculpas." Primeiro, a frase "não tenho vergonha" é infeliz; segundo, fica-se sem saber se ele está pedindo desculpas, ou se acha que o PT deve fazê-lo. A idéia de que só o partido errou — ou foi o principal culpado — não se sustenta diante da pergunta mais elementar feita na investigação de qualquer crise: a quem o crime beneficiou? Ele foi cometido pela direção do PT e por pelo menos um integrante do grupo palaciano para sustentar o governo no Congresso e para pagar as dívidas de campanha que elegeram candidatos do PT. A simbiose entre governo e partido, que foi levada ao extremo no atual governo, não permite que o presidente permaneça nessa visão distante da realidade.
O presidente do PT, Tarso Genro, anuncia que comandará manifestações na semana que vem. Contra quem serão as manifestações convocadas pelo PT? Contra o próprio partido? Essa guerra não será ganha nem no grito, nem nas ruas. O campo de batalha está dentro do PT e dentro do governo.
Entrevista:O Estado inteligente
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