O GLOBO
O senador Aloizio Mercadante diz que Delúbio Soares será expulso do partido e informa que se os deputados investigados não tiverem uma "defesa consistente e fundamentada; ainda não vi essa defesa" serão cassados e, se forem, estarão compulsória e automaticamente desligados do PT. Ele disse que, pelo visto até agora, "Marcos Valério era o verdadeiro tesoureiro do PT e Delúbio, seu assessor".
Como é possível que ninguém no PT tenha visto nada? Essa dúvida permanece sem resposta. Todos acusam Delúbio, e com razão, mas ninguém se perguntou por que o financiamento estava tão farto e a propaganda tão cara.
Mercadante me disse, na entrevista de ontem, na Globonews, que ele não estranhou o aumento dos recursos porque as contribuições empresariais para o partido aumentaram em 2002 com a perspectiva da vitória:
— A minha campanha foi superavitária. Como havia a possibilidade de que eu fosse para a área econômica, houve um aumento de contribuição e eu até pedi que as empresas contribuíssem para a campanha estadual.
Se sobrou dinheiro, o mistério passa a ser como foi possível, num momento de afluência, o partido entrar em colapso financeiro.
— O PT tinha uma administração financeiro-orçamentária de botequim, mas cresceu e se tornou uma grande rede nacional de supermercado — analisou.
O senador e economista acha que o partido deveria ter feito superávit para pagar as dívidas em vez de elevar gastos perdulários como o leasing de computadores, aluguel de sede luxuosa em Brasília. Ele disse que isso só prosperou porque foram decisões ocultas.
Mas Mercadante afirmou que Delúbio não agiu sozinho. Não quis dizer quem participou, mas admitiu que o ex-ministro José Dirceu, pelas funções que exercia na campanha, devia saber:
— Ele era coordenador da campanha e presidente do partido, seguramente tinha conhecimento das decisões político-administrativas, o contrato (publicitário) tinha a assinatura dele.
Na opinião do senador que recebeu o maior volume de votos da história da República — mais de dez milhões de votos —, o Brasil precisa de mudanças radicais na forma de fazer a propaganda política. Quer ver o fim dos showmícios e de outros dispendiosos atos de campanha. A propósito, cresce o número de pessoas que prefere ver no Brasil uma comunicação mais clara e simples entre candidato e eleitor. Ontem mesmo, o presidente do TSE, ministro Carlos Velloso, voltou a defender sua tese de que "candidato não é sabonete". Como Duda Mendonça disse na CPI, aquele filme das mulheres grávidas foi o mais caro da campanha. E o que foi aquele filme? Uma grosseira manipulação dos sentimentos dos eleitores usando um símbolo que atrai, naturalmente, simpatias: mulher grávida. Claro que não há solução simples para os problemas que surgiram e, antes de tudo, é preciso esclarecer o que houve no governo, no PT e na base parlamentar.
Mercadante acha que o governo errou gravemente, mas diz que é preciso reconhecer que alguns grupos estão vendo na crise oportunidades político-eleitorais. Na opinião dele, o principal responsável pela crise é o PT, mas não se pode esquecer que caixa dois existe em outros partidos; que existem empresas que preferem fazer doações sem registro; que há outras campanhas que deixaram enormes dívidas, como a de José Serra à Presidência da República. Por tudo isso, acredita que é preciso também discutir uma reforma política. O senador indicou que não defende o financiamento público exclusivo. Acha que é preciso "descriminalizar" o financiamento privado.
Ontem o PT pediu oficialmente desculpas ao país e o presidente Lula garantiu que não há nada que o atinja. A ofensiva do governo e do PT tem falhas: o presidente continua em campanha fora de época e o PT não explica como fala tanto em punição e age tão lentamente num processo que lembra a preparação de pizzas, como mostrou a chegada do ex-tesoureiro ao partido, conduzido por funcionário do próprio partido, num carro que costumava servir à presidência do PT. Em vez de tirar as tantas dúvidas que pairam sobre essa história, como por exemplo por que a executiva do PT não percebeu nada do que fazia a diretoria, o partido prefere, de novo, bater na política econômica. Até que ontem era mesmo um bom dia, quando o Banco Central, de novo, manteve as taxas de juros apesar da queda impressionante das taxas de inflação nos últimos tempos. Em vez de dizer o que está fazendo para esclarecer as dúvidas, convoca mais uma manifestação a favor do governo. Não há ninguém ameaçando o governo, a não ser ele mesmo e seu partido. Portanto, o trabalho a ser feito é de arrumação da casa e não de enfeitar a rua.
O presidente Lula fez ontem mais um dos seus monólogos. Desta vez, no assentamento de Amaralina, na inauguração do Luz para Todos. O programa de ampliar o acesso à energia é bom e qualquer presidente tem o direito — e até o dever — de viajar pelo país, mas o que está acontecendo não engana ninguém: o presidente que ficará na história como o que menos prestou contas à população através de entrevistas à imprensa mostrou novamente que gosta mesmo é das alegorias de palanques. Lá, de novo, quis jogar a culpa nos outros: "Não são poucos os que querem jogar para dentro do Palácio algum erro, algum processo de corrupção." Ninguém precisa se dar ao trabalho de fazer isso. Já foi feito.
Entrevista:O Estado inteligente
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