O GLOBO
A situação do governo é tão instável que todos os seus maiores suportes políticos, sem exceção, inclusive o próprio presidente Lula, tentam se equilibrar entre tendências opostas, reduzindo espaços de manobra e evidenciando fragilidades dificilmente superáveis. A começar pelos chamados "movimentos sociais", que ameaçam ostensivamente com uma suposta capacidade de mobilização para defender o mandato do presidente, que estaria ameaçado não pelas graves irregularidades cometidas, mas por um imaginário golpe elitista. Tese, aliás, já desmontada pelo próprio presidente quando admitiu, embora a contragosto, que sérias irregularidades foram cometidas pelo PT e, apenas em parte, pelo próprio governo que comanda.
Pois essas forças sociais, sustentadas a financiamentos estatais e desencadeadas artificialmente a custa de mobilizações oficialistas, mostraram-se insuficientes para mobilizar a opinião pública na primeira grande manifestação que promoveram. Desmoralizadas pela pecha de serem organizações chapa-branca, UNE, CUT, MST e demais organizações envolvidas na passeata "contra a corrupção e a favor do governo Lula" perderam-se na própria incongruência do mote da mobilização.
Não há maneira de ser contra a corrupção e a favor de quem a promove; não existe força política que consiga motivar um manifestante não pago a ser contra o mensalão e a favor do governo que é beneficiado por ele. O presidente da CUT, João Felício, ameaçou botar as massas na rua em defesa "do nosso símbolo", como se ainda fosse possível mobilizar multidões para defender o símbolo das lutas operárias que só existe quando a crise aperta, depois que um Lula construído pela grife Duda Mendonça subiu a rampa do Planalto.
Essa mesma CUT e outras centrais sindicais avançaram contra o Congresso quando, a pedido do Planalto, foram aprovadas leis que cortaram privilégios dos servidores públicos, que são hoje a base do petismo. Os manifestantes do protesto a favor do governo atacaram também a política econômica, o único ponto que garante ao presidente Lula a possibilidade de manter-se no governo diante da crise generalizada. Essa mesma incoerência tirou do discurso do senador José Sarney a força de seu repúdio ao "monstruoso" crime que se cometeu ao comprar votos no Congresso, desmoralizando um dos suportes institucionais da democracia brasileira.
Não é possível denunciar a "monstruosidade" e livrar quem se beneficiou dela, por omissão ou desconhecimento; não é aceitável apagar os crimes do presente a golpes de biografia, como ensaiou o senador Sarney ao se referir a um líder operário e a um PT que ficaram na história e de lá não sairão, mas que no presente ainda têm muito a explicar à opinião pública. Por isso, mesmo defendendo Lula, Sarney propôs uma mudança de regime que retira poderes do presidente da República. Sugestão que se fosse feita pela oposição seria vista como golpista.
Chega a ser patética a tentativa permanente do presidente Lula de usar sua biografia como escudo protetor de eventuais erros que tenha cometido, ou tenha deixado de cometer, como patético é o também permanente esforço do ex-guerrilheiro José Dirceu em trazer para o presente seus feitos na luta contra a ditadura, como se sua história passada — que, de resto, não é gloriosa na visão de boa parte da opinião pública — desse-lhe uma anistia pelos malfeitos presentes.
Dentro desse quadro de contradições em que se revolvem os principais atores desse nosso drama político que ainda está longe de terminar, situação peculiar é a do Partido dos Trabalhadores, mais do que nunca dividido entre suas muitas facções e engolfado em uma renhida luta pelo poder cujo final feliz aparentemente não existe. O presidente interino Tarso Genro, nomeado pessoalmente pelo Palácio do Planalto em uma intervenção direta de Lula na tentativa de reorganizar o partido que fundou e que é a principal sustentação política de seu governo, tenta uma mágica que parece impossível: desfazer o Campo Majoritário, do qual faz parte e cujo líder principal sempre foi o presidente Lula, para reorganizar uma nova maioria que possa sustentar o governo no Congresso.
Essa manobra, aparentemente apoiada por Lula, esbarra em mais uma contradição: o partido teria que partir para a esquerda, voltar a se ligar mais aos tais "movimentos sociais", o que o poria fora do campo de ação do governo, que se baseia fundamentalmente nos bons resultados da política econômica conservadora. O maior adversário dessa estratégia é justamente o ex-ministro José Dirceu, que, nos últimos quinze anos, tem dominado com mão de ferro a máquina partidária com o objetivo de chegar ao poder central. Seus métodos nada ortodoxos de fazer política sempre beneficiaram o Campo Majoritário e seu principal líder, o atual presidente Lula, que agora se diz traído por esses mesmos métodos.
Lula e Genro articulam para isolar o grupo de Dirceu sem machucá-lo muito, o que é só mais outra incoerência. Se o grupo de Dirceu continuar dominando o partido, como parece provável, como Lula permanecerá nele depois de se dizer traído? Se o novo Campo Majoritário for dominado pela esquerda, como manter a política econômica e ter apoio para uma eventual reeleição?
Entrevista:O Estado inteligente
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