Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, agosto 12, 2005

Editorial de A Folha de S Paulo A DERROCADA

Pesquisa Datafolha publicada hoje por este jornal revela que a avaliação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva piorou de maneira insofismável. A percepção negativa do escândalo do "mensalão" disseminou-se pela sociedade, e a derrocada do primeiro mandatário parece irreversível. Pela primeira vez, uma sondagem sobre intenção de votos para o pleito de 2006 indica que o presidente seria derrotado em segundo turno.
Para tornar o quadro ainda mais difícil, novos desdobramentos trazem a corrupção para muito perto do Palácio do Planalto. Ontem, diante da CPI dos Correios, o publicitário Duda Mendonça afirmou que parte do "pacote" de marketing político que negociou com o PT, do qual constava a campanha para a Presidência de 2002, foi pago com dinheiro de caixa dois em depósitos realizados numa empresa criada nas Bahamas -um conhecido paraíso fiscal.
A confirmar-se a versão, o presidente Lula perde o pouco de autoridade que lhe restava: como pode o governo exigir dos cidadãos e das empresas o cumprimento de obrigações fiscais se o mais alto magistrado da República chegou ao poder valendo-se de operações fraudulentas? Conhecesse ou não os fatos, trata-se de algo de extrema gravidade.
Não foi esse o único pagamento nebuloso a envolver o presidente. Também a liquidação de um empréstimo contraído com o PT, assinalado em prestação de contas da legenda, desperta inquietações. No dia 17 de julho, antes de publicar reportagem acerca da operação, esta Folha solicitou um pronunciamento do governo -mas não recebeu nenhuma resposta. Posteriormente, uma nota emitida pelo Palácio do Planalto transferiu a questão para o PT.
Agora, o presidente do Sebrae, Paulo Okamotto, apresenta-se como o responsável pela quitação. Tesoureiro da campanha de Lula em 1989, Okamotto disse que retirou de sua conta pessoal os recursos para saldar o compromisso de cerca de R$ 29 mil. O generoso companheiro do presidente declarou ter "providenciado" recursos em espécie e tê-los transferido ao partido, sem dispor de meios, porém, de comprovar a operação. Okamotto afirmou, ainda, que preferiu não avisar Lula sobre seu magnânimo gesto. Seria, pois, mais um caso acerca do qual o presidente nada saberia.
Questões a respeito do empréstimo surgiram na CPI dos Correios, onde se aventou a hipótese de o pagamento ter sido realizado com dinheiro de caixa dois do esquema PT-Marcos Valério. Okamotto veio a público no intuito de dirimir as dúvidas, mas o tempo decorrido, sua participação na comitiva presidencial que viajou a Garanhuns no início do mês e a história que contou terminaram por alimentar as desconfianças.
Até aqui, o presidente tem se esquivado de pronunciamentos à sociedade brasileira para oferecer sua visão sobre o escândalo. Prefere manifestar-se, de maneira exaltada e emotiva, diante de audiências previamente selecionadas, numa linha de atuação já chamada de "chavista", em referência ao presidente venezuelano, Hugo Chávez -recebido ontem, aliás, em inesperada visita a Brasília.
Vendo seu prestígio deteriorar-se, Lula vinha procurando respaldo na população menos informada. Agora, diante dos novos fatos e dos resultados trazidos pelo Datafolha, suas perspectivas se tornaram sombrias.
O presidente da República poderá considerar-se favorecido pela sorte se conseguir terminar seu mandato, pois a hipótese de impeachment, remota até poucos dias atrás, se afigura hoje como possibilidade palpável.

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