Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, agosto 19, 2005

CLÓVIS ROSSI O Projac de Lula

FOLHA DE S PAULO

 SÃO PAULO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou de líder de massas ao confinamento a uma espécie de Projac, cidades cenográficas montadas para que ele possa sentir-se no meio do "povo".
Pena que o "povo", na verdade, seja constituído, essencialmente, pelo que os mexicanos chamam de "acarreados", a gente arrebanhada pelos manda-chuvas locais para fazer de conta que é um ato de massas, método levado à perfeição nos 70 anos de domínio do PRI (Partido Revolucionário Institucional).
O Projac para Lula é armado assim: escolhe-se uma cidade média ou pequena, de preferências nos arrabaldes. Nessas áreas, autoridades de grosso calibre são sempre atração, até turística, tão raras as chances de a população local vê-las ao vivo.
Acrescente-se o ponto facultativo, para liberar os funcionários públicos e as crianças das escolas estaduais e/ ou municipais. Ponha-se ônibus a disposição do "povo" (em Vitória da Conquista, anteontem, foram 36). Pronto: o Projac parece um banho de multidões.
Será que o presidente se arriscaria a deixar os Projacs que lhe oferecem para caminhar pela praça da Sé, em São Paulo, pela Candelária, no Rio, pelas chamadas "bocas malditas" de Curitiba, Florianópolis e Belo Horizonte? Ou, para ficar no Nordeste, a área em que sua popularidade ainda é comparativamente maior, será que se animaria a descer as ladeiras do Pelourinho? Não dá nem para pensar em fazer esse teste, porque o risco de um vexame descomunal é explosivamente elevado.
Na prática, o presidente está exilado em seu próprio país, além de isolado de sua própria história de vida, na medida em que os amigos desinteressados debandaram ou foram afastados (Frei Betto, José Graziano, Ricardo Kotscho, Oded Grajew, mesmo Guido Mantega, ainda presidente do BNDES, mas em outra cidade).
Sempre se pode voltar do exílio, mas nunca se é o mesmo.

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