O ESTADO DE S PAULO
Nem o surto de exportações, nem a diversificação de mercados: nada disso é produto do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O grande aumento das vendas externas começou em meados de 2002 e a expansão do comércio com parceiros não tradicionais é uma herança do governo passado. A alteração mais importante na distribuição geográfica das exportações, com redução de 8 pontos porcentuais na fatia dos mercados tradicionais, ocorreu entre 1998 e 2002. Nos dois anos seguintes a diminuição foi de 1,8 ponto. As duas observações estão num estudo intitulado O Surto Exportador Recente, dos economistas Ricardo Markwald e Fernando Ribeiro, da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex). Markwald, um veterano e respeitado analista do comércio internacional, apresentou o trabalho no 2 Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, na terça-feira. Esses dois comentários, bem fundamentados, bastariam para mostrar que o atual governo, ao contrário do que repete o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não promoveu nenhuma revolução no comércio exterior brasileiro. Mas a demolição das pretensões oficiais é mais completa. A diversificação geográfica do comércio brasileiro pode ser importante, mas não tanto quanto se diz em Brasília: dois terços da demanda mundial ainda se concentram em mercados classificados como tradicionais, lembram os dois economistas. O atual surto exportador, segundo o estudo, é atribuível em boa parte à desvalorização cambial de 1999, à expansão do comércio mundial e à elevação dos preços internacionais das commodities. A evolução dos preços permite explicar cerca de 30% do aumento da receita comercial entre 2002 e 2004. Os autores também concluem que não houve mudança importante na composição da pauta de exportações nem no contingente de exportadores. O salto não teria ocorrido, no entanto, sem transformações estruturais ocorridas nos anos 90, como os ganhos de produtividade associados à abertura comercial, à desregulamentação de mercados e à incorporação de tecnologia. Também essas condições positivas, incluído o fortalecimento do agronegócio, amadureceram durante vários anos e acabaram afetando o comércio externo do País. Vale a pena realçar esses pontos, não por birra, mas para eliminar alguns mitos alimentados pelo governo, ou por alguns de seus membros, incluído o chefe. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua a dizer que suas viagens diversificaram as parcerias comerciais do Brasil. Ele insiste, além disso, em afirmar que o comércio exterior recebeu em seu governo uma atenção que não recebia no período anterior. Qualquer pessoa medianamente informada sabe que a aproximação com a China, a Índia, a Rússia, a África do Sul e outros parceiros não tradicionais começou há mais tempo. O comércio com esses países já estava em rápido crescimento quando o governo petista começou. Entre 1995 e 2002, as exportações brasileiras para a China, por exemplo, mais que duplicaram, passando de US$ 1,2 bilhão para US$ 2,5 bilhões. O impulso já estava dado. A diferença é de outra ordem. Até 2002, a busca de novos mercados era parte de uma política de comércio. A partir de 2003 o novo governo acrescentou a esse trabalho uma pitada de ilusão política. Era preciso concebê-lo como parte de um movimento redentor. Essa ilusão poderia ser apenas engraçada, se não dificultasse as negociações comerciais com os parceiros do mundo rico. A prioridade atribuída ao Mercosul e às parcerias com países de um Sul imaginário acabou funcionando como obstáculo ideológico. O governo brasileiro passou a aceitar, quase sem discutir, que o Mercosul fosse subordinado às conveniências da parte menos dinâmica do empresariado argentino. Isso equivaleu a punir os brasileiros que investiram e cuidaram de se tornar competitivos. Isso condicionou também as negociações com a União Européia, embora parte do fracasso seja atribuível a tolices brasileiras, como a ilusão de reservar as compras governamentais para a execução da política industrial. As negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) foram torpedeadas pelo Brasil em 2003 e nunca mais se recuperaram, apesar de algum esforço no final daquele ano. Enquanto isso, outros latino-americanos cuidaram de se aproximar tanto da União Européia quanto dos Estados Unidos. O governo brasileiro demorou a reconhecer as conseqüências desse fato. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a viagem à Guatemala, nesta semana, para tentar a aproximação com os centro-americanos e para aconselhar os empresários brasileiros a investir na região. De lá terão maior facilidade para exportar para os Estados Unidos. Mas isso os empresários já sabiam e alguns já estudavam investimentos noutros países. Não precisariam fazê-lo, ou poderiam fazê-lo por motivos melhores, se o governo brasileiro não houvesse criado todo tipo de obstáculo às negociações da Alca. Esta é a grande revolução: o Brasil volta as costas ao mundo rico e fica dependente da América Central.
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Entrevista:O Estado inteligente
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sexta-feira, setembro 16, 2005
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