Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, agosto 16, 2005

Zuenir Ventura Descendo a ladeira


Não sei se está acontecendo o mesmo do Oiapoque ao Chuí, mas nas sete cidades mineiras que percorri nos últimos dez dias – Juiz de Fora, Tiradentes, Ouro Preto, Sete Lagoas, Itaúna, Divinópolis e Arcos – o interesse pelos trabalhos da CPI e pela situação política em geral me pareceu fora do comum. Quando passava pelos bares à tarde, tinha a impressão de que as pessoas estavam diante da TV vendo Olimpíada ou Copa do Mundo. Ou novela. A crise produziu pelo menos um efeito colateral: não deixar o povo insensível a ela.

Na sexta-feira em que Lula fez o pronunciamento em que, supostamente, pedia desculpas à nação, eu me encontrava na pequena Arcos (40 mil habitantes), num restaurante a quilo. Os freqüentadores, gente simples, pararam de beber e comer para ver a fala presidencial e, no final, manifestaram insatisfação e até irritação com o que ouviram. "Ele nem olha pra gente, sô!", comentou um senhor de pé, ao meu lado, chamando a atenção para o que eu não tinha reparado: quando tirava os olhos do papel, o presidente olhava para cima. Ou havia no alto alguma câmera pendurada ou não queria mesmo nos olhar nos olhos.

Experimentei naquele recanto profundo onde Minas é mais mineira, a sensação de que chegava ali o que as pesquisas acabavam de apontar pela primeira vez: queda de popularidade, crescimento de José Serra, desconfiança, enfraquecimento político, em suma: Lula começava a descer a ladeira. Com aquele discurso pífio, ele perdia a oportunidade de interromper a queda, de dar a volta por cima e para cima.

Curioso é que os que assistiam ao espetáculo no bar-restaurante não eram por certo pessoas politizadas, que estão acostumadas a ler os comentaristas ou ver programas políticos. No entanto, pareciam perceber até as sutilezas da fala ambígua e sinuosa de Lula, o faz-que-diz-mas-não-diz. Pelos muxoxos, pelos "essa não", acho que a platéia ali não engoliu os macetes que o presidente usou, como, por exemplo, falar na primeira pessoa como vítima – "eu me sinto traído", "estou indignado" – e empregar o plural na hora de não assumir sozinho a culpa: "Temos que pedir desculpas". Não disse "peço desculpas", mas "temos que pedir desculpas" – não um gesto no presente, mas uma providência, quem sabe, a ser tomada mais para a frente.

Na ânsia de descobrir o que irá acontecer, as pessoas dessas cidades recorriam naturalmente a quem, por morar numa cidade grande, deveria deter presumivelmente mais informação. Decepção. Se eu não sabia nem explicar como e por que Duda Mendonça fora tão elogiado depois de confessar algumas operações milionárias e criminosas, quanto mais prever o futuro. Mente-se tanto que até revelar meias verdades faz sucesso.

Em matéria de previsão, só consigo prever o passado. Aliás, me lembrei de duas músicas de Morais Moreira que fizeram muito sucesso lá pelos anos 70/80. Uma, para cima, se chamava "Acabou chorare"; a outra, o título já dizia tudo: "Descendo a ladeira". O refrão da primeira anunciava "Acabou chorare/ficou tudo lindo". O da segunda repetia "Lá vem o Brasil descendo a ladeira". Ganha uma off-shore nas Bahamas quem adivinhar qual das duas ainda não esgotou o prazo de validade.

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