Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, agosto 12, 2005

Villas-Bôas Corrêa Lula reassume o governo

JB

A reunião ministerial convocada para hoje e que deve ocupar a manhã e entrar pela tarde, com o intervalo para o almoço, é um ato exclusivamente político que não tem nada a ver com os problemas e gargalos que paralisam a administração, refletidos nos pífios resultados dos dois anos e sete meses de mais da metade do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Pelo menos três objetivos são transparentes no súbito e passageiro interesse presidencial pelo entrosamento da equipe, remendada há dois meses com a troca de três ou quatro ministros para quitar compromissos nos acertos da base aliada em pandarecos:

1) Armar o palanque que estava faltando na campanha pela reeleição, com ampla cobertura da mídia, para o discurso do orador principal e dono da festa, misturando a emoção do improviso com a leitura do texto preparado pela sua assessoria;

2) Criar outro foco para desviar a atenção da opinião pública, obsessivamente concentrada no show das CPIs dos Correios, do Mensalão e dos Bingos, com a cascata de denúncias que ampliam o escândalo a cada novo depoimento, enterrando o governo até o gogó e salpicando lama no Palácio do Planalto;

3) Mostrar ao país a imagem do presidente no comando do governo, senhor dos dados lidos ou decorados dos êxitos setoriais, ampliados ao limite do exagero e a renovação do compromisso com as promessas da campanha. No item, cabe a transposição das águas do Rio São Francisco para a irrigação de áreas do Nordeste castigadas pelo flagelo da seca e a repetição dos números sobre a distribuição da Cesta Básica, além de outras miuçalhas.

Não merece o registro de lançamento de novo produto a clássica exposição do ministro Antonio Palocci, da Fazenda, badalando os seus sucessos notórios na luta contra a inflação e para manter o equilíbrio orçamentário, na contramão dos históricos juramentos petistas de uma completa reviravolta na política econômica de recorte conservador.

O encanto do espetáculo pirotécnico, montado com capricho, não deve durar muito. Dispensa-se o tempero apimentado da malícia na especulação sobre o desconforto da ministra Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil da Presidência, substituta do deputado José Dirceu e, como o antecessor, a virtual presidenta em exercício.

A devolução do cargo ao titular, no cenário de uma encenação para uso externo, em nada atinge a autoridade da enérgica e, pelo menos até aqui, hábil eminência parda, discreta, longe dos refletores, mas com o controle do governo nas mãos. A única reunião dos ministros e assessores para debater assuntos administrativos foi por ela convocada e presidida. Na de hoje, mais para o gênero faz-de-conta para distrair e engambelar o distinto público, a ministra Dilma Rousseff ocupará a sua cadeira próxima do presidente, com todas as reservas de paciência para suportar horas ouvindo a lengalenga dos planos e projetos mirabolantes das três dezenas de ministros e secretários de mãos vazias, muitos, noves fora os incompetentes paralisados pela frouxidão omissa da liderança, o desentrosamento de funções superpostas e a falta de verbas, congeladas com percentuais vexatórios de liberação.

Os recursos para a cultura são o retrato do interesse oficial por um setor que está longe das suas prioridades.

Lula hesita em aceitar o conselho do presidente interino do que sobrou do PT, Tarso Genro, para aproveitar a oportunidade e resgatar a dívida com a população com o pedido de desculpas pela corrupção recordista e pelos erros cometidos pelo governo.

Nada mudará depois da maratona estafante. Com ou sem desculpas, o presidente mandou o seu recado nos improvisos da semana, proferidos nos comícios da campanha pela reeleição. No palanque montado na BR-153, próximo de Gurupi (TO), reafirmou que manterá a agenda das viagens ''para mostrar as suas realizações''.

Se o pretexto é discutível, a tática salta aos olhos: Lula dribla a crise, tira o corpo fora, afasta-se do PT do ''mensalão'' e do caixa 2.

E cuida de si.

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