O GLOBO
Um terremoto sacudiu o Brasil nos últimos dois meses. No dia 6 de junho, o deputado Roberto Jefferson iniciou seu ataque ao governo dando a primeira de uma série de entrevistas. Ainda não se sabe como a crise terminará, mas dá para contar as baixas: nestes 60 dias, o governo Lula se desestruturou, não há mais grupo palaciano, não há mais campo majoritário no PT, as demissões no governo e afastamentos no partido superam 40. O presidente Lula ainda não fez um bom movimento de contra-ataque; oscila entre erros diferentes.
Estes dois meses são históricos e serão estudados no futuro. Será difícil explicar aos vindouros que Roberto Jefferson, que explodiu a bomba atômica sobre o PT e o governo Lula, não era oposição. Pelo contrário, foi chamado de parceiro pelo presidente que, de público, afiançou que lhe entregaria um cheque em branco. Jefferson descontou o cheque. Tem sido, durante toda a crise, o grande e incansável algoz do governo Lula.
Na primeira reunião no seu gabinete após a entrevista, o presidente Lula admitiu que Roberto Jefferson lhe dissera a respeito da existência de um sistema de pagamento de propinas aos deputados da base parlamentar, mas o presidente acrescentou, segundo um dos participantes da reunião: "Não dá para mandar investigar, sem ter indício ou prova, todas as futricas que as pessoas vêm aqui me contar." O presidente teve muito tempo desde então para se arrepender da decisão.
José Dirceu não estava nessa reunião. Viajava para a Espanha. Antes de ir, tinha sido advertido pelo próprio Roberto Jefferson de que aquela "era uma péssima hora para viajar". Foi a última viagem dele como o mais poderoso ministro do governo Lula e o mais poderoso chefe da Casa Civil do período democrático. Saiu do governo 50 horas depois de ouvir a ordem pública dada por Roberto Jefferson: "Sai, Zé."
O governo se engasgou logo no primeiro momento. Disse que não apurara a denúncia de mensalão porque era "boato" e depois disse que fora investigado pela Câmara, que arquivou tudo por falta de provas. Até hoje, não houve prova alguma de que tivesse havido qualquer investigação com um mínimo de rigor na Câmara.
No começo desta crise, o PT tinha muitos pré-candidatos ao governo de São Paulo em 2006. Agora já há pelo menos três baixas: o deputado João Paulo Cunha, que passou da condição de estrela ascendente para investigado; José Genoino, que afundou diante do escândalo do PT e da cueca do assessor do irmão; além de José Dirceu, que perdeu o cargo, a pose e corre o risco de perder o mandato.
A história que o Brasil viveu nos últimos dois meses — e continuará vivendo nos próximos — tem alguns personagens com nomes que derrotam ficcionistas. Se um novelista fosse inventar uma história, não teria uma idéia tão inteligente quanto pôr o nome de um tesoureiro partidário de Jacinto Lamas.
O presidente seguiu, durante todo este período, um roteiro de erros de comunicação. Na única e desastrada entrevista, sustentou uma tese que parecia combinada com o publicitário e com o tesoureiro que são o centro do caso de corrupção e justificou o caixa dois do PT dizendo que ele é repetido "sistematicamente" no país. Tem fingido que nada atinge o governo; que esta é uma crise do PT, sem qualquer vinculação com seu governo. Nas últimas duas semanas, fez uma série de comícios fora de época em que atacou um inimigo imaginário, criticou a imprensa, ameaçou a elite brasileira com a relação direta com as massas, anunciou-se como candidato à reeleição, coroou-se o rei da ética, repetiu um refrão zagalino, chorou e usou uma palavra que jamais deve estar na boca de um presidente da República: ódio. Num dos encontros populistas, o dos aposentados, falou entre quatro paredes o que deveria dizer a todos os brasileiros. O que Lula fez nas últimas semanas merece estar num manual de erros de comunicação. É caso para estudo.
Seus movimentos na reestruturação do governo também foram erráticos. Havia momentos em que parecia que obedecia ao comando do deputado Roberto Jefferson, como quando demitiu a diretoria de Furnas tão logo o deputado apresentou sua denúncia. Em outros, demorou demais a agir alegando que não poderia prejulgar. Mais lento que ele só mesmo o PT, cuja cozinha está assando uma boa pizza. O secretário-geral que recebeu como mimo de empreiteira um Land Rover só saiu do partido porque pediu, o tesoureiro que encalacrou financeiramente o partido e aspergiu sobre ele um volume considerável de lama foi depor a bordo de advogados pagos pelo partido, ainda recebe salários, e só hoje pode receber a punição: uma licença de dois meses. Há muita pressão a favor do "companheiro" Delúbio. Isso prova que ele, de fato, não agiu sozinho. Nem poderia, porque, como sempre proclamou por 25 anos, o PT é o partido das decisões coletivas.
Outro fenômeno desta crise é o apagão da memória. Ninguém lembra de nada. Mulher dedicada esquece número de telefone do marido. Dona-de-casa gasta R$ 9 milhões sem perceber. Diretora financeira não sabe o faturamento da empresa. Dono de agência esquece todos os números de seu negócio. Ministro esquece quem esteve em seu gabinete. A única pessoa que se lembra de tudo teve um instantâneo sucesso que lhe subiu à cabeça e, agora, não sabe se vira deputada, tira a roupa ou ambos. É um tempo estranho este; em que tudo pode acontecer.
Entrevista:O Estado inteligente
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