O GLOBO
Um cenário bom é o que está desenhado para os próximos meses. A inflação continuará caindo e deve fechar o ano muito perto da meta; no ano que vem, as tarifas terão aumentos bem menores, derrubando mais ainda a inflação. Nos últimos 12 meses, o superávit primário acumulado está em 5,1%. Permanecer neste nível não será difícil e é isso que o Ipea está propondo ao governo. A queda do dólar permitiu o aumento do investimento e o país continuará crescendo; de forma moderada, mas crescendo.
Normalmente os meses de junho e julho são de inflação alta. Este ano, junho teve uma ligeira deflação de -0,02% e julho ficou em 0,25% no IPCA. No ano passado, os números foram 0,71% e 0,91%. Assim, a inflação em 12 meses caiu de 8% para 6,5% nos últimos dois meses e ninguém tem dúvidas de que continuará caindo até o fim do ano, mesmo que haja aumento dos combustíveis. Ficará um pouco acima do centro, mas cumprirá a meta este ano.
O IPCA divulgado ontem teve preço administrado muito baixo. Todo mês de julho a taxa sobe muito por causa da energia de São Paulo que, este ano, teve queda. Preços livres e núcleo de inflação estão em queda. Alimentos em queda, núcleo também em queda. Um julho tão bom assim só ocorreu em 2003.
O ano que vem já tem pelo menos um bom motivo para a manutenção do otimismo. Os IGPs estão baixíssimos, isso permite prever baixos reajustes de tarifas em 2006. Desde que foi adotado o sistema de metas de inflação, o grande vilão tem sido os preços administrados, que são corrigidos pelos IGPs. No ano que vem, já se pode prever que não serão o vilão. A previsão é de 3,4% para o IGP-M, mas há até quem preveja um IGP-M de 3%.
O BC deve começar a reduzir os juros na semana que vem sem levantar qualquer suspeita de que esteja obedecendo a algum calendário político. Se de alguma coisa o Banco Central pode ser acusado, é de ser excessivamente cauteloso e conservador.
Com a inflação dominada este ano e os IGPs favorecendo a taxa em 2006, os juros devem baixar paulatinamente até o fim do ano e o início do próximo, mesmo com a alta dos combustíveis. O economista Luís Otávio Leal calcula que, mesmo se houver um reajuste de combustível de 10% este ano, o país terá ainda inflação dentro na meta, na pior das hipóteses 0,7 ponto percentual acima dela.
O diretor de Estudos Macroeconômicos do Ipea, Paulo Levy, acredita que este é o cenário: inflação caindo em direção à meta este ano e caindo mais no ano que vem, o que abre espaço para queda dos juros. Na reunião que fará amanhã em Brasília com a participação dos ministros da área econômica para discutir a proposta do deputado Delfim Netto de déficit nominal zero, o Ipea deve reiterar a proposta que vem fazendo de que o superávit primário seja mantido no nível em que efetivamente chegou nos últimos 12 meses:
— Não será preciso fazer esforço extra e isso ajudaria a manter em queda a relação dívida/PIB. Pelos cálculos que estão sendo feitos aqui pelo Fábio (Giambiagi) e por mim, se for mantido para este ano e o próximo este nível de superávit primário, o país pode vir a ter déficit nominal zero em 2008 — diz Levy.
Se o governo não quiser manter o superávit conseguido nos últimos 12 meses, terá de aumentar os gastos, já que não se prevê queda de arrecadação. Teria de gastar R$ 20 bilhões a mais neste segundo semestre, injetando tudo isso na economia.
— A produção industrial foi maior que o esperado no segundo trimestre e há um dado interessante: com a queda do dólar, empresas que estavam pensando em investir aceleraram as compras de máquinas e equipamentos do exterior. Isso significa aumento do investimento — comenta Levy.
O lado externo continuará muito bom, ninguém duvida, ainda que as análises da Funcex mostrem que, em alguns casos, o que produz aumento das exportações é apenas o valor dos produtos, porque a quantidade exportada está voltando aos níveis de 2004. Mesmo assim, o valor do superávit comercial indica que o dólar continuará baixo e as contas externas, superavitárias.
— Não há muito risco de alta do dólar com o quadro internacional com esse excesso de liquidez — diz Levy.
O lado ruim da conjuntura é que o governo, que vinha devagar antes da crise, parou completamente. Há poucas chances de retomar o ritmo de normalidade, por mais que os empresários proponham agenda mínima. O cenário poderia ser ótimo se não fosse a conjuntura política e os velhos problemas de gestão do governo Lula.
— Vamos crescer este ano um pouco mais do que a última projeção. O crescimento vai superar 3% (a previsão era de 2,8%). O Brasil tem chance de crescer de 3% a 4% ao ano, mas se quiser crescer a taxas de 5% ou mais tem que fazer reformas, marcos regulatórios e mudanças que estão paradas — diz.
Um quadro econômico bom ajuda ou não a conjuntura política? Depende de como for entendido pelo governo. Ele pode cometer um de três erros: o presidente se sentir confiante para continuar em campanha eleitoral elevando a radicalização política; o governo achar que está tudo garantido e que pode, portanto, iniciar mudanças na política econômica para atrair a esquerda do PT; o governo elevar os gastos, aproveitando que está com alto superávit, para assim construir a boa vontade política dos aliados. O ideal é que aproveite a tranqüilidade econômica para construir a saída política da crise.
Entrevista:O Estado inteligente
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