O GLOBO
A inflação está dominada e o Banco Central pode, sim, baixar a taxa básica de juros. O que prende é apenas o quadro político. Os índices do atacado estão em deflação pelo quarto mês consecutivo e já derrubam a previsão da inflação do ano que vem. A economia está segurando a barra no colapso da política, mesmo assim a passeata governista de ontem e a oposicionista de hoje têm algo em comum: são contra a política econômica.
A maioria dos analistas está apostando na manutenção da taxa de juros, ainda que o cenário econômico esteja excelente. Para se ter uma idéia, o IGP-M e o IGP-DI estão com inflação acumulada de 1,4% e 1,1%. A previsão do mercado é que terminarão o ano em 2,96% e 2,99%, mas há quem preveja ainda menos: o economista Octávio de Barros, do Bradesco, calcula que o IGP-M ficará em 2,53%. Para se ter uma idéia: no ano passado, o índice fechou em 12,42%; em abril deste ano, a previsão do IGP-M para 2005 era de 6,73% e o acumulado em 12 meses está agora em 5,38%. Há outras boas notícias:
— A nossa coleta indica que o IPCA de agosto pode ficar bem baixo, em torno de 0,10%. Há chance de que o IPCA este ano fique na meta, na mosca mesmo e eu nem descarto a possibilidade de que fique até abaixo da meta. A queda do IGP dá uma boa colher de chá para o ano que vem. É por isso que nossa curva de juros mostra queda mais rápida que a média do mercado — comenta Octávio de Barros.
Mesmo com todo esse otimismo, o Bradesco mudou sua projeção para a reunião de hoje do Copom de queda dos juros para manutenção.
— O livro texto indica que, em momentos de muita volatilidade, o Banco Central deve ficar parado — explica.
Mas, na área econômica, garante-se que o governo não vai tomar decisões populistas para mudar o ambiente político a favor de si próprio. Ontem, o governo liberou R$ 1 bilhão de gasto a mais, porém, segundo o ministro Paulo Bernardo, isto não é, nem de longe, gastança:
— Só em julho, o país teve R$ 1,3 bilhão de arrecadação além do previsto. Por isso, foram liberados R$ 500 milhões para alguns investimentos já previstos e cancelamos outros R$ 500 milhões de empenhos para restos a pagar que não foram executados. Assim, pudemos liberar novos gastos mantendo tudo igual em termos orçamentários — diz o ministro do Planejamento.
A maior parte do dinheiro foi para a Infraero: obras nos aeroportos de Congonhas, Santos Dumont, Brasília e Vitória. Mas houve liberação de recursos, já previstos no orçamento, para vários ministérios. Para cada um, um pouco. Defesa, por exemplo, recebeu R$ 10 milhões para a operação no Pará; o que é fácil defender. Difícil é aceitar a liberação de R$ 44 milhões para anistiados políticos. Essa conta que tem representado tanta transferência de dinheiro para a elite brasileira parece não ter fim.
O governo tem mantido o compromisso com o superávit primário, mas não garante sua elevação para 5,1%. Isso significa aumento do gasto neste segundo semestre já que, no começo do ano, o país ficou além da meta.
Isso é parte da estabilidade econômica neste momento de crise. Os excelentes números de inflação são resultado, segundo Octávio de Barros, da queda do câmbio, da política monetária e do "ganho de reputação do Banco Central". Ou seja, ao elevar os juros a despeito das pressões políticas, o BC convenceu de que tem liberdade para a atuação técnica. A inflação despencou, o Banco Central tem tido independência de fato e os juros estão altíssimos. Um quadro assim recomenda queda dos juros. Mas o que o BC pode argumentar é que, em ambientes de muita incerteza, é melhor ficar tudo como está.
A pulga que continua atrás da orelha é que a política econômica, que conseguiu esse e outros bons resultados, continua sendo o principal inimigo dos petistas e de muitos não petistas. Tanto os que foram ontem às ruas, quanto os que vão hoje. Tanto os políticos dissidentes, quanto os que estão atualmente no comando do PT pedem a mesma coisa: mudança na política econômica. O partido do governo não consegue explicar nem combater seu principal erro, mas ataca, com vigor renovado, a cada dia, seu principal mérito.
Entrevista:O Estado inteligente
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