Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, agosto 11, 2005

Editorial do JB Encruzilhada Fatal



A reunião do diretório nacional do PT, no último domingo, deve ficar marcada na história do partido como um divisor de águas. O encontro era produtivo e caminhava para uma deliberação de consenso, de acordo com o testemunho do deputado Antonio Carlos Biscaia. A partir da chegada de José Dirceu, o panorama mudou. O ex-ministro conseguiu aprovar quase tudo o que desejava. O Campo Majoritário, grupo dominante, seguiu a orientação do mandachuva e votou em bloco resoluções como a que garante a legenda, nas próximas eleições, para quem renunciar, temendo a cassação. Com isso, feriu de morte a autoridade do presidente interino do partido, Tarso Genro, que, com razão, considerava antiético dar a legenda para quem renunciasse.

O episódio evidencia que Dirceu não renunciou a controlar com mão de ferro o PT, usando os mesmos métodos que levaram o partido à situação atual. É um sistema centralizador, autoritário, que, a partir da chegada do partido ao poder, incluiu a poderosa máquina federal no processo para garantir a fidelidade e a obediência da base governista. Até a eclosão do escândalo do mensalão, o esquema também centralizava no Palácio do Planalto toda a propaganda oficial e gerou fortes suspeitas de manipulação de recursos das estatais e dos fundos de pensão.

O núcleo de operadores da direção do PT - todos de confiança de Dirceu - era formado por quadros inexpressivos e inconsistentes ideologicamente - como o presidente Lula chegou a reconhecer -, isso num partido que se notabilizou por ter como militantes acadêmicos e intelectuais de reconhecida competência e inegável prestígio. E eram esses operadores - sob o comando de Dirceu - que se reuniam nas ante-salas do Palácio do Planalto para deliberar como seriam repartidas as fatias do poder entre o PT e os polêmicos aliados. As investigações em torno do mensalão demonstraram os métodos escandalosos de administrar esse conluio e hoje pouca gente dentro do partido acredita que o ex-ministro se mantivesse alheio a essa máquina ilegal.

Agraciados com o domínio de cargos com os quais nunca haviam sonhado, antes da eleição de Lula, parlamentares de confiança do núcleo dirigente souberam retribuir, mantendo irrestrita obediência às ordens de quem mandava. Quem ousasse discordar de algum método ou orientação era contemplado com o desprezo ou a punição. E isso não valia apenas para os radicais que foram expulsos. Deputados ou senadores independentes, muitos deles moderados, eram sistematicamente segregados se insistissem em questionar certas deliberações. Muitos deles procuravam o consenso, tentando aproximar idéias e posições inicialmente divergentes. A resposta eram as decisões impostas pelo Campo Majoritário, que passavam como um trator sobre as vozes discordantes.

Desde os primeiros dias do governo Lula, parlamentares alertavam o Planalto sobre o perigo político representado por alguns nomes de partidos aliados, com os quais o governo insistia em fazer acordos de loteamento da máquina. De nada adiantaram os avisos. Além de ir em frente na condução heterodoxa dos acordos com outras agremiações, que depois se mostraram desastrosos, Dirceu e seus comandados reservaram atenção especial a um histórico grupo de sustentação do partido: os sindicalistas. Em estatais, fundos de pensão e outros postos importantes nos ministérios, antigos companheiros de greves no ABC foram aquinhoados com cargos-chave, todos muito bem pagos, para os quais muitas vezes estavam despreparados. Anestesiados, hoje são utilizados para dar apoio à tese de que as maldosas ''elites'' só pensam em derrubar o presidente.

Mesmo no Campo Majoritário se ouvem hoje vozes críticas em relação ao mandonismo e ao aparelhamento, encarnados na figura de Dirceu. Os meios escancararam os fins. O partido está hoje cindido e muitos falam abertamente em debandar. Tarso Genro só acredita na revitalização da legenda, se for ''refundada''. Cabe aos dirigentes e militantes decidir se o PT, que era saudado como esperança de renovação política, escolherá o caminho da mudança, ou se transformará em massa falida e desmoralizada, gerida por José Dirceu.

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