É sabido, por exemplo, que as "elites" de que o presidente se queixa quando acometido de surtos populistas são as primeiras a desejar que ele fique no Planalto, com plena legitimidade, até o fim do seu atual mandato, para que não desmorone depois o que o governo tem de melhor: a política econômica do rigor fiscal (descontados os juros altos e a voracidade tributária). Mas a quase unanimidade sobre a inconveniência da destituição legal de Lula é alimentada ainda por outra consideração. Menos o receio de uma convulsão social - de resto, improvável - do que o de passar vergonha pela humilhação que recairia sobre o País.
Esse sentimento seria comensurável com o orgulho que a vitória de Lula despertou também entre os seus não-eleitores, embora não tivessem ilusões sobre o seu preparo para a função, porque ela simbolizou, mais do que qualquer outro evento que se possa citar, a singularidade da condição brasileira no cenário político latino-americano. Em contraste gritante com os vizinhos latino-americanos, para não ir além - e desmentindo de forma cabal a visão do próprio PT sobre o País -, a ascensão de Lula coroou um processo iniciado com a morte de Vargas, em que o poder político, econômico e social foi mudando de mãos a partir do Sul do País, irradiando-se para todo o território nacional.
Naturalmente, o seu triunfo nas urnas atestou a robustez adquirida pela democracia política brasileira em menos de 20 anos. Mais importante do que isso, a sua trajetória pessoal só foi possível porque, apesar dos níveis vexaminosos de pobreza e desigualdade, o Brasil é uma democracia social comparável com a norte-americana no que diz respeito ao processo de mobilidade vertical de suas populações. Se cair em desgraça o brasileiro que mais encarna as imensas possibilidades de ascensão social existentes no País, a imagem do Brasil sofrerá um retrocesso acabrunhante.
Em outro plano ainda é benéfico o descarte - ou ao menos o congelamento - da idéia de remover o presidente. Pois ao mesmo tempo se remove um inegável, ainda que não ostensivo, inibidor do esclarecimento cabal das denúncias em cena há 3 meses. Sobretudo as que pegam no nervo do problema - a corrupção no setor público federal, de onde procede grande parte dos valores cuja ordem de grandeza deixa aturdidos até os brasileiros habituados a distinguir entre milhares e milhões. A necessária ênfase na ponta final dos escândalos - com a identificação e punição dos políticos que receberam, em qualquer época, somas de Marcos Valério - não pode fazer com que se perca de vista o essencial: a origem da dinheirama espúria.
Uma linha de investigação não pode travar outra. Por exemplo, a apuração da verdade com certeza sonegada pelo publicitário Duda Mendonça à CPI dos Correios - não é crível que o ex-marqueteiro de Paulo Maluf, beneficiário da Operação Pau-Brasil, só tivesse aberto conta no exterior para receber o que o PT lhe devia - e a auditagem das contas de campanha do partido em 2002 devem coexistir com o aprofundamento dos inquéritos sobre todas as formas de uso ilícito de recursos públicos na administração direta e indireta. Ainda ontem, noticiou-se que maracutaias já destrinchadas custaram aos Correios R$ 54,6 milhões; que o Banco do Brasil acabou de lançar como "de difícil liquidação" os seus mais de R$ 21 milhões em créditos com o PT; que o Refer, o fundo de pensão da Rede Ferroviária Federal, pode ter perdido pelo menos R$ 4 milhões em operações conduzidas por um gerente de confiança do ex-secretário de comunicação do PT Marcelo Sereno.
Ainda há muito a desvendar antes de se mover, se for o caso, uma ação contra Lula.
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