Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, agosto 09, 2005

Editorial de O Estado de S Paulo Pizza no diretório do PT


Tiveram vida breve as promessas de moralização do Partido dos Trabalhadores (PT), repetidas pelo seu novo presidente, Tarso Genro. A "refundação" do partido, de que ele falava, ou ficou para as calendas ou se fará, como tudo indica, sobre as mesmas bases apodrecidas de onde emanou o maior escândalo de corrupção de que se tem notícia no País.

O que aconteceu e deixou de acontecer na reunião do diretório nacional do partido, no último fim de semana, mostra que a força hegemônica na agremiação, o Campo Majoritário, não tem a mais remota intenção de assumir as suas culpas pelos delitos cometidos, inequivocamente sob inspiração e proteção superior, pelo então tesoureiro Delúbio Soares. Nem tampouco pretende punir os 15 companheiros – entre eles, 7 deputados federais – já identificados como envolvidos no esquema operado pelo publicitário Marcos Valério.

Representando a maioria do partido, daí o seu nome e o seu poder, o campo que controla o diretório e a executiva petista abriu a sua pizzaria, acendeu seu forno e passou a servir as criações do pizzaiolo José Dirceu. A cúpula do PT não decidiu nada à sua revelia, muito menos contra a sua vontade. A rigor, ninguém influiu mais do que ele para que as decisões saíssem como saíram.

Tarso Genro ou foi abertamente batido pelo ex-ministro ou concordou com ele. Disso resultou uma coleção de enormidades, a começar da resolução aprovada por 29 em 56 votos que se empenha muito mais em louvar as "realizações importantes" do governo Lula e em denunciar supostas "estratégias oportunistas da direita para abreviar o mandato popular, legal e legítimo, do presidente" do que em esmiuçar os malfeitos petistas. O máximo a que chegou foi admitir que "o PT não pode deixar de assumir seus erros".

Um exemplo irrefutável da supremacia de Dirceu, cuja cassação estava para ser pedida pela presidência do Conselho de Ética da Câmara, foi o esfarinhamento da anunciada intenção de Tarso de levar o partido a negar legenda para as próximas eleições aos seus parlamentares que renunciassem aos mandatos, como seria o caso do ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha, a fim de não serem cassados, conservando assim o direito de pleitear o voto popular no ano que vem – uma ignomínia que a Justiça Eleitoral já pensa em erradicar.

Quando um deputado da ala esquerda do PT, que se opõe ao Campo Majoritário, argumentou que a proposta de punir as renúncias se inspirara na declaração do próprio Dirceu de que em hipótese alguma desistiria do seu mandato, ele retrucou, cinicamente: "Então eu tenho autoridade moral para ser contra."

Em dupla com o senador Aloizio Mercadante, Dirceu também trabalhou para evitar que os petistas suspeitos de se beneficiar das operações valerianas fossem julgados desde logo pela executiva nacional, sem passar pelas executivas estaduais, embora o estatuto do partido preveja esse procedimento quando a repercussão ou a gravidade do fato atingir o interesse partidário – circunstância invocada para expulsar sem delongas a senadora Heloísa Helena e três deputados dissidentes.

Mas a pizza gigante saída sábado dos fornos supervisionados por Dirceu foi o acordo com o ex-tesoureiro Delúbio. Em vez de ter a sua filiação suspensa por tempo indeterminado pelo diretório nacional, a instância permitiu que ele tomasse a iniciativa de se afastar enquanto estiver sob julgamento da comissão interna de ética. Com isso ele deixou de depor, como previsto, e preservou os seus direitos partidários.

O Campo Majoritário, em geral, e Dirceu, em especial, querem deixar confortável – e quieto – o parceiro de falcatruas de Valério. Quanto menos fatos, nomes e números novos aparecerem, melhor para todo o Centrão petista, parece ser o persuasivo argumento do ex-ministro. A nova direção do PT não tem nem quer ter a chave da caixa-preta dos negócios escabrosos que o professor Delúbio em hipótese alguma faria por sua conta e risco. "Não será o PT que buscará a sujeira sob o tapete", disse ao Globo um dirigente que pediu anonimato.

"Ninguém é louco de peitar Dirceu." A esta altura, as correntes de esquerda que, à parte tudo mais, encarnam o último reduto da ética no partido decerto já se convenceram da própria impotência diante do rolo compressor dos majoritários. Para serem coerentes, só lhes resta migrar para o PSOL da senadora Heloísa Helena, que os espera "de braços abertos".

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