Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, agosto 18, 2005

DEMÉTRIO MAGNOLI Front e fronteira

FOLHA DE S PAULO

  O primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, alcunhou a retirada da faixa de Gaza de "desengajamento". A expressão inscreve-se na linguagem militar: a devolução do território palestino é uma operação de guerra, não um passo rumo à paz. A lógica à qual se subordina é a da consolidação de um front, não a da delimitação de uma fronteira.
O ato unilateral israelense representa uma ruptura com as perspectivas mais luminosas que se abriram no momento dos Acordos de Oslo, em 1993. Naquela hora, e por um breve período, o então ministro do Exterior, Shimon Peres, formulou a idéia de um mercado comum integrando Israel ao futuro Estado da Palestina, e, mais tarde, os negociadores dos dois lados chegaram a vislumbrar a hipótese da convivência sem muros de duas capitais na cidade de Jerusalém. A senda da paz entre povos que a história fez compartilhar o mesmo território impunha a invenção de regras de relativização da soberania e a produção criativa de fronteiras políticas porosas.
Hoje, os líderes dos colonos e a direita israelense tacham Sharon de traidor, e num certo sentido eles têm razão. Depois de 1977, com a chegada do Likud ao poder, o Estado judeu orientou-se oficialmente pelo projeto do Grande Israel, isto é, pela anexação definitiva dos territórios palestinos ocupados em 1967. A solução de "um Estado", com a identificação das fronteiras de Israel às da Palestina histórica, exigia não só a colonização extensiva da Cisjordânia, de Gaza e de Jerusalém Leste como ainda a integração dos palestinos como mão-de-obra barata e população com direitos políticos limitados. As revoltas palestinas e as grandes tendências demográficas explodiram esse projeto.
A demografia, em particular, mudou a perspectiva de Sharon. O Grande Israel dependia de ondas contínuas de imigração dos judeus da Diáspora, mas o grande influxo de judeus russos, no início da década de 90, parece ter encerrado o ciclo histórico do "aliya" (o "retorno" à terra de Israel). Na Palestina histórica, vivem atualmente pouco mais de 5 milhões de judeus e quase o mesmo número de árabes, incluindo aí o 1,26 milhão de árabes com cidadania israelense. O descompasso radical entre as taxas de crescimento vegetativo projeta o cenário de uma ampla maioria árabe no horizonte de poucas décadas.
A solução de "dois Estados" derivou desse cenário, que convenceu os trabalhistas a negociar a paz. Mas a adesão de Sharon a esse princípio não representa uma renúncia ao Grande Israel. No seu plano de operações, o "desengajamento" de Gaza será seguido por uma consolidação dos blocos de assentamentos judaicos na Cisjordânia e a delimitação unilateral das fronteiras de Israel. Essas fronteiras constituem um front militar: o "muro de segurança" na Cisjordânia e as barreiras, cercas e check-points em torno de Gaza.
Os colonos em retirada profetizam que a faixa de Gaza se tornará um "Estado do Hamas". É mais do que isso: o Plano Sharon tende a fabricar vários "Estados do Hamas" também na Cisjordânia, pois lacra os palestinos em blocos semi-descontínuos de terras e desliga a Palestina de Jerusalém. A vitória do front sobre a fronteira representa uma trágica opção pela guerra permanente e um serviço que Israel, com o beneplácito de Washington, presta ao exército do terror de Osama Bin Laden.

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