Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, agosto 18, 2005

CLÓVIS ROSSI Crise de salão

FOLHA DE S PAULO

  SÃO PAULO - Se, no momento mais crítico do governo Lula, todos os que se dispõem a ir a rua para defendê-lo são aqueles 10 mil de Brasília, então a direita, supostamente interessada em derrubá-lo, conforme o delírio de esquerdistas descerebrados, pode sentir-se estimulada a ir em frente.
Já se o impeachment, segundo setores da oposição, virá da rua para o Congresso, então é conveniente a quem deseja o afastamento de Lula comprar uma bela espreguiçadeira, porque tampouco acontecerá tão cedo, se é que vai acontecer.
Vamos combinar o seguinte, em homenagem aos fatos: brasileiro é geralmente espectador de sua própria história, muito raramente ator. Portanto é tolice imaginar uma disputa políticas nas ruas.
O máximo que pode haver é uma revolução de sofá ou de e-mail. Não muito mais que isso.
Portanto, quem imagina uma Venezuela nas ruas de Brasília, São Paulo ou Rio, e quem acha que haja candidato a Chávez por aqui, está perdendo seu tempo com ficções de baixa qualidade.
Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, armou de fato um conflito com as chamadas elites e comprou a boa vontade de uma parte importante do andar de baixo graças às receitas do petróleo, nesta fase de imensa bonança de preços.
Aqui, Lula entregou-se às elites gostosamente, oferecendo a elas uma política econômica que a parte organizada do andar de baixo (que é, de resto, minúscula) quer mudar, como se viu da manifestação de ontem e das declarações de seus líderes.
Trata-se, portanto, de uma combinação impossível de reproduzir por aqui. O que há no Brasil é um governo zumbi, elites satisfeitíssimas com a política econômica e uma maioria da população que apóia, mas passivamente, ou o presidente ou a oposição. Nada, portanto, de muito ameaçador. Mas bem Brasil.

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