Entrevista:O Estado inteligente

domingo, abril 17, 2005

Merval Pereira:UE x EUA



ISTAMBUL, Turquia. Num momento em que a Turquia se vê diante de variadas pressões políticas no processo de entrar na Comunidade Européia, três dos mais influentes intelectuais franceses da atualidade expressaram seu apoio na sessão de ontem do simpósio sobre o Islã promovido aqui na Turquia pela Academia da Latinidade, cujo secretário-geral é o filósofo brasileiro Candido Mendes.

O filósofo Jean Baudrillard e os sociólogos Alain Touraine e Edgar Morin defenderam a participação da Turquia na Comunidade Européia com argumentos históricos e culturais, mas, sobretudo, políticos.

Todos enfatizaram a necessidade de a Comunidade Européia ser vista menos como um projeto econômico ou geográfico, e mais “civilizador”, na definição de Morin. Nessa definição, está implícita também a necessidade de que a Europa se diferencie dos Estados Unidos e possa, assim, ser uma alternativa política à hegemonia americana no mundo atual.

Já Alain Touraine avalia que raramente há projetos políticos como esse da entrada da Turquia na Comunidade européia, que colocam em jogo valores fundamentais da civilização.

Segundo ele, essa ação conjunta de países que se comprometem a respeitar a pluralidade de culturas “é a única maneira de evitar o que chamamos de choque de civilizações e uma propagação da guerra de religiões”.

Touraine ressalta que a idéia de Europa que se desenvolve é a de tornar homogênea a região, reduzindo as zonas de pobreza num sistema de mútua ajuda, o que dá uma dimensão política maior ao projeto e à entrada da Turquia nele.

Também a socióloga Nilüfer Gole, diretora da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Istambul, considera que “orientalizar, islamizar, barbarizar” a Turquia para negar sua entrada na Comunidade Européia reduz a Europa a apenas uma identidade, deixando de ser um projeto.

Ela lembra que a candidatura da Turquia só foi possível através da renúncia a uma identidade pura, seja em termos nacionalistas ou religiosos. Ao mesmo tempo, exige que a Europa se redefina e obrigue-se a uma separação cultural e religiosa.

Para se ter uma idéia da dimensão dessa questão religiosa, é bom lembrar que países como Portugal, Espanha, Itália e Polônia querem que a constituição européia tenha uma definição pelo cristianismo. O governo francês de Jacques Chirac, que é favorável à entrada da Turquia, embora a maioria dos franceses seja contrária, opõe-se a essa proposição.

Edgar Morin lembrou que vários partidos democrata-cristãos da Europa, juntamente com o Vaticano, rejeitam a Turquia para manter o mito que liga a Europa ao cristianismo. O esforço turco para separar a religião do Estado foi citado por todos os palestrantes como sinal de amadurecimento democrático que merece ser premiado com a entrada na Comunidade Européia.

Alain Touraine chega a dizer que a importância da Turquia para a Europa é que, mesmo enfrentando conflitos graves, ela conseguiu combinar a laicidade e as crenças religiosas, que encontraram expressões políticas fortes, a começar pelo partido majoritário, o da Justiça e do Desenvolvimento.

Edgar Morin lembrou que a democratização da Turquia é um processo em andamento, e que as falhas que ainda existem devem ser reparadas, mas sem que signifiquem sua desclassificação.

A questão dos curdos, que são reprimidos e não são reconhecidos como povo pela Turquia, é apontada por Morin como um ponto pendente no processo democrático turco. Mas ele lembra que países democráticos como a Espanha têm questões como a dos bascos, assim como a França praticou a tortura na Argélia. Morin citou ainda os Estados Unidos no Iraque e a violência da repressão inglesa na questão irlandesa como exemplos de falhas do sistema democrático que não transformaram aqueles países em párias.

A professora Nilüfer Gole destacou a movimentação de associações de direitos humanos que acabou com a pena de morte no país, um passo para adequar as leis da Turquia às dos demais países europeus.

A começar pela afirmação do título de sua palestra —“A Turquia é européia”— Edgar Morin ressaltou a forte presença européia no Império Otomano desde o século XIV, até o nascimento da Turquia moderna, logo após a Primeira Guerra Mundial. O interessante é que, na análise de Morin, o império europeu deixou sua marca “principalmente através da tolerância religiosa”. Ele remarca que vários ministros do Império Otomano tinham origem cristã e às vezes judia.

Ontem mesmo, no entanto, o jornal “New Anatolian”, um dos dois em língua inglesa da Turquia, publicava um artigo do historiador inglês da Universidade de Oxford, Timothy Garton Ash, em que ele culpa o antigo Império Otomano pela maioria dos problemas europeus da atualidade, causados por “uma intrincada rede de etnias, políticas e religiões deixada para trás”.

Com o humor característico dos ingleses, Garton Ash afirma que “se a Europa continua a se alargar, pode acabar terminando como o Império Otomano”. Ele diz que a proposta de aceitar a Turquia é “fazer com que o império europeu pós-moderno ou neo-medieval absorva os restos do império de Suleiman (sultão conhecido como o Magnífico, que no século XVI expandiu o Império Otomano)”.

O historiador inglês de Oxford faz uma relação dos países que hoje existem no território do antigo império, e diz que eles estão ligados sempre a problemas políticos graves: a região dos Bálcãs, Iraque, Síria, Líbano, Palestina e Israel. E termina dizendo: “Pelos problemas causados pela presença de Israel no Oriente Médio, só podemos culpar nós mesmos e Hitler. Mas o resto é graças a Suleiman”.

A idéia de que a União Européia ampliada, com a entrada da Turquia, poderá se transformar em um bloco que se contraponha aos Estados Unidos em termos políticos, defendida por intelectuais europeus, especialmente franceses, durante o seminário sobre o Islã da Academia da Latinidade, não é consensual nem mesmo dentro da Comunidade Européia.

Na recente reunião em Bruxelas da Comissão Européia, ficou clara a divisão entre os países que compõem a comunidade. São duas visões distintas do que ela poderá vir a ser. Há uma visão, que por enquanto prevalece, de que o orçamento da União Européia (UE) tem que ser suficientemente forte para financiar a homogeneização de seus componentes, como definiu o sociólogo Alain Touraine. Significaria pôr dinheiro nos novos membros do Leste Europeu, e mais adiante na Turquia, para que todos os países venham a ter condições de criar um mercado forte, sem barreiras, em que a economia de escala permitirá que a Europa compita em termos econômicos com os demais blocos formados na Ásia e nos Estados Unidos.

Há também a idéia de que grande parte da verba orçamentária deve ser investida em desenvolvimento de tecnologia, para aumentar a capacidade de competição e produtividade do bloco europeu. Há, porém, resistência da parte dos grandes países europeus, notadamente França, Alemanha e Inglaterra, que querem preservar suas características próprias.

Grande parte da resistência da opinião pública francesa à entrada da Turquia, como lembrou o sociólogo Alain Touraine, está ligada ao temor de que, com a adoção de critérios liberais na economia, não haja mais capacidade de financiar o estado de bem-estar social que está montado. Há também os que, como a Inglaterra, acham que a Comunidade Européia deve se restringir a um grande mercado comercial aberto.

Especialista em ciências políticas, o professor Nelson Franco Jobim acha que a idéia de que a adesão da Turquia servirá para que a Europa se contraponha aos Estados Unidos é fantasiosa, pois ela é aliada dos Estados Unidos na OTAN e os americanos são os maiores defensores de seu ingresso na União Européia como forma de mostrar que a UE não é um clube cristão. Também nessa visão, a Turquia seria a ponte entre Ocidente e Oriente que derrubaria a tese do choque de civilizações.

Para ele, imaginar que a Europa precisa da Turquia para contrabalançar o poderio americano “implica supor que o resto da Europa estará unido por uma política externa comum”, o que não é plausível. Um teste decisivo será o plebiscito francês sobre a Constituição da Europa, em maio próximo. O filósofo Jean Baudrillard, defendendo a inclusão da Turquia na União Européia, fez uma blague em sua palestra: “Enquanto a Turquia se prepara para entrar na União Européia, a França parece se preparar para sair”, disse ele, ironizando a tendência da opinião pública francesa de se pronunciar a favor do não no referendo de maio.

Se a França disser não à Europa, será um alívio para Tony Blair, lembra o professor Nelson Franco Jobim, porque a Grã-Bretanha fará seu plebiscito no próximo ano. Se os britânicos, que ainda não integram a União Européia, reafirmarem o não, tudo continuará como hoje. Mas sem a França, não haverá Constituição da Europa.

Na sua análise, a Europa é muito desunida para ser uma superpotência capaz de equilibrar o poderio americano, a não ser na área econômica. Nos debates aqui na Turquia, porém, ficou claro que os intelectuais europeus não se contentam com esse papel meramente econômico da Europa ampliada, e criticam o que Baudrillard classificou de falta de imaginação política. Eles temem que a Europa não possa competir com os Estados Unidos nesse campo, e acham que deveria ter uma visão política mais ampla. Além do mais, os Estados Unidos têm grande influência na Europa, especialmente no Leste Europeu.

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A propósito da coluna sobre a cúpula Países Árabes-América do Sul, que o governo brasileiro promove no próximo mês, Osias Wurman, presidente da Federação Israelita do Rio, relata que participou de um encontro em São Paulo, no clube A Hebraica, para debater como evitar a importação do conflito no Oriente Médio para o Brasil.

Representando o governo federal estavam os membros da comunidade mais próximos do presidente Lula : o ministro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, Jaques Wagner, o porta-voz André Singer e a assessora especial Clara Ant.

Segundo Wurman, na exposição inicial dos três, ficou clara a intenção do governo brasileiro de marcar o encontro como meramente comercial, mas “algumas dúvidas angustiantes surgiram no decorrer da conversa”. Questionados sobre qual interesse comercial justificaria a presença do presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, os três declararam ignorar totalmente a presença do representante da ANP.

Osias Wurman acha que o governo estará “incorrendo no grave erro de abandonar o tradicional relacionamento com o Estado de Israel, já evitado nas viagens presidenciais, para andar pelas areias movediças do Oriente Médio”. Lembra “que a nossa diplomacia que arquitetou o encontro acima mencionado é a mesma que se encontra atolada, há mais de dois meses, na negociação para libertação do engenheiro Vasconcellos”, e classifica como “capítulo patético” o apelo à Síria para interceder junto aos seqüestradores.


O Globo

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