| J.P. Engelbrecht |
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Naquelas paragens habitadas por 200 mil brasileiros, cujos sotaques atestam a prevalência de migrantes nordestinos, é comum alguém tropeçar em cadáveres esquecidos em vielas de terra e trilhas no mato. A ossada do hospital não causa medo. Só aflição - a aflição incomparável vivida por brasileiros expostos à ameaça de sucumbir a doenças de baixo risco, por falta de assistência médica decente.
Desde a suspensão das obras, passaram pelo Planalto o jornalista Fernando Collor, o engenheiro Itamar Franco, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso (por oito anos) e, desde 2002, o ex-operário metalúrgico Lula da Silva. Nenhum deles foi a Queimados. Nenhum visitou o hospital fantasma.
Como nem chegaram a vê-lo, nenhum se animou a dar vida ao grande esqueleto. O Brasil não vai a Queimados. Queimados é que foi ao Brasil, içado ao noticiário da imprensa pela inverossímil Chacina da Baixada, consumada por policiais assassinos. Os exterminadores decidiram que a cidade comporia com a vizinha Nova Iguaçu o cenário ideal para o massacre. Foram executados 30 inocentes.
Deslocados para os campos de extermínio, os repórteres colheram informações adicionais que acentuam o horror desenhado pelo avanço das investigações. Ricardo Albuquerque, do JB, dedicou-se também à prospecção do sistema de saúde de Queimados. Logo descobriu o hospital fantasma. Vasculhou a história e descobriu muito mais.
Constatou, por exemplo, que até esqueletos se prestam a gastanças suspeitas. A suspensão das obras não paralisou a farra: pelo menos R$ 9 milhões haviam decolado de Brasília rumo à Prefeitura de Queimados, herdeira do problema. O aparente abacaxi adoçou a vida de figurões ainda por identificar. As autoridades locais não encontraram explicações convincentes para o destino de tanto dinheiro.
O projeto previa a instalação de 276 leitos numa área edificada de 16 mil metros quadrados. Não há vestígios visíveis de um único leito. Cerca de 3 mil metros quadrados foram ocupados pelo ambulatório e pelo prédio da Secretaria de Saúde municipal. No ambulatório, médicos recém-formados e enfermeiros despreparados lidam com multidões de pacientes. A cada mês, cerca de 25 mil órfãos da sorte recorrem ao ambulatório. Poucos conseguem alcançar algum jaleco. Doença grave? Melhor incorporar-se às filas no Rio, 53 quilômetros distante.
Os domínios do secretário de Saúde, Reinaldo Gripp, abrangem um ''posto de saúde 24 horas'' escondido nos confins de Queimados. O atendimento esbarra em carências desconcertantes. Na semana passada, faltavam medicamentos prosaicos, esparadrapos e filmes para raios X. Muitos portadores de doenças sem gravidade morrem por falta de equipamentos elementares. As poucas clínicas particulares são inacessíveis aos bolsos da maioria.
O Estado tem de proteger Queimados contra bandidos de qualquer espécie. Simultaneamente, precisa acabar com a rotina do descaso homicida.
Vozes d'África: o Retorno

Viajante compulsiva, a primeiradama Marisa Letícia é também mulher sensata. Preferiu ficar no Brasil enquanto o marido voltava à Africa, para visitar cinco países. Em todos mereceu ovações e elogios. Mas a passagem da comitiva pelo continente negro lembrou o desfile de um bloco carnavalesco mal ensaiado.
As confusões começaram já na Nigéria, primeira etapa da viagem. Desprovido de informações tradicionalmente colhidas por comissões de frente que blocos não têm, o ministro do Desenvolvimento, Luiz Antônio Furlan, trocou a partitura. Só descobriu na mesa de negociações que os parceiros nigerianos nada tinham a negociar. Deixou a reunião muito irritado: “Ficamos no blablablá”, queixou-se.
Como Furlan passou a subir o tom das recriminações, o porta- estandarte Celso Amorim reassumiu o papel de chanceler conciliador. “Os comentários do Furlan estão ligados a uma situação específica”, explicou em diplomatês.
“São decorrências de irritações causadas pelo protocolo”, continuou Amorim. “Isso acontece”. Dificilmente acontece quando o dono do bloco conhece o enredo e decorou a letra do samba. Mas Lula estava concentrado em miudezas.
Em Gana, esbanjou contentamento ao vestir um traje nativo que deslumbraria qualquer platéia dos antigos concursos carnavalescos do Hotel Glória. Luxuosa, original, a fantasia causou impacto. Lula gostou. “Vocês estão pensando que sou rei?”, perguntou? Não ouviu respostas.
Informado das confusões a bordo do Aerolula, pediu paciência aos apressados. “As pessoas no Brasil ficam inquietas, querendo saber o que vendemos ou o que compramos, mas essas coisas demoram”, ensinou. No Senegal, pediu perdão pela mancha da escravidão. Antes, fez a ressalva: “Não tenho nenhuma responsabilidade pelo que aconteceu nos séculos 16, 17 e 18”. Só teria se acreditasse em vidas passadas e descobrisse ter sido o capitão de algum navio negreiro.
O Cabôco leu com atenção e respeito o artigo no JB em que o ex-presidente José Sarney conta a estréia como passageiro do Aerolula. Revela que os assentos são estreitos, faltam espaços que sobravam no velho ''Sucatão''. ''O tal avião nababesco é igual ao Airbus-319 da TAM em que sempre viajamos para o Maranhão'', comparou. O Cabôco pergunta: por que Lula pagou tão caro por um avião assim?
Amante é parente?

Colérico com o avanço do projeto que proíbe a prática do nepotismo no Legislativo, o deputado Jair Bolsonaro berrou o seguinte argumento:
''Só defende o fim do nepotismo quem tem mulher jumenta. Vão proibir também a contratação de amantes?''
Amante pode, deputado. O perigo é a patroa ficar sabendo.
Magistrados querem ser muito felizes
A Associação Nacional de Magistrados divulgou há pouco as reivindicações da toga. Os doutores querem 60 dias de férias anuais (remuneradas), licença (remunerada) de 120 dias para quem adotar uma criança, 90 dias de descanso (remunerado) a cada cinco anos, afastamento (remunerado) para cursos ou seminários, ressarcimento de despesas com moradia ou mudança de domicílio, diárias suficientes para gastos com transporte, alimentação ou hospedagem, e afastamento (remunerado) por 180 dias, prorrogáveis por outros 180, caso um parente próximo adoeça. Em troca, farão o que sempre fizeram.
A vergonha foi cassada Magistrados
Diferentemente da jabuticaba, a corrupção não é uma exclusividade brasileira. Existe em todos os países, mesmo nos mais civilizados. Pesadas patifarias têm sido protagonizadas por reis, príncipes, presidentes ou primeiros-ministros. No Brasil, contudo, esse fenômeno universal registra duas agravantes. Primeira: o índice de corrupção alcança cifras intoleráveis. Segunda: corruptos raramente são punidos.
Prova disso é o malogro da tentativa de cassar o mandato do deputado Alessandro Calazans. Para não perder o colega, a maioria da Assembléia do Rio perdeu a vergonha.
Cada vez mais abusados

Cidadãos obedientes à lei, com os impostos em dia e atentos a normas protocolares não entram facilmente no Ministério da Fazenda. Mesmo gente importante enfrenta sucessivos obstáculos até chegar ao gabinete do ministro Antonio Palocci. O calvário burocrático não se aplica ao MST e suas ramificações. Na quinta-feira, 500 militantes invadiram o prédio e, esparramados por salas ou corredores, ali ficaram durante seis horas. De novo, violaram a lei impunemente. E desmoralizaram o ministro.
Cúmplices indignados
O Brasil inteiro tem, mais que o direito, o dever de indignar-se com a permanência de Romero Jucá no Ministério da Previdência Social. Menos o PT e o PSDB. A indicação de Jucá para o posto foi alegremente encampada por petistas decididos a afagar o senador Renan Calheiros, padrinho do escolhido. Para endossar a nomeação, Lula dispensou cautelas usadas até na triagem dos contínuos.
Também os tucanos estão convidados a calar-se. Na Era FH, filiado ao PSDB, Jucá já construíra um notável prontuário. Mas foi líder do governo no Senado. Nenhum dos liderados se queixou. Cúmplices comprovados, agora não têm direito a voz.
Renunciar ao passado dói bem menos
A acreana Marina Silva elegeu-se senadora pelo PT do seu Estado graças aos combates travados contra predadores da Amazônia e delinqüentes ecológicos. Nomeada ministra do Meio Ambiente, tem perdido todas as batalhas: companheiros de governo tratam as idéias de Marina como pura poesia.
A gaúcha Dilma Rousseff, ministra de Minas e Energia, é mais beligerante que Marina. Perde aqui, ganha ali e vai em frente. Nos últimos dias, amargou derrotas que também atingiram Marina. As duas nem sequer examinam a hipótese de deixar o cargo: melhor renunciar a princípios que à vida boa de ministro.
JB

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