Entrevista:O Estado inteligente
- Índice atual:www.indicedeartigosetc.blogspot.com.br/
- INDICE ANTERIOR a Setembro 28, 2008
domingo, abril 17, 2005
Rubens Ricupero: 20 anos sem Tancredo
No próximo dia 21, completam-se 20 anos sem Tancredo. A prolongada agonia do papa me fez lembrar dos momentos que vivemos durante os 45 dias da paixão e morte de Tancredo: entradas e saídas da UTI, boletins otimistas, tentativas de fazer crer que o paciente não estava morrendo. Tudo para culminar no inexorável: a explosão de dor que acompanhou a morte.
Não sabe o tempo ter firmeza em nada, dizia Camões, e esse nada inclui o luto e a festa. Veio Sarney e, com ele, o Plano Cruzado, a moratória, a Constituição de 1988. Ruiu o Muro de Berlim, desintegraram-se a União Soviética e o "socialismo real". Collor riscou o céu como cometa em chamas. O Iraque invadiu o Kuait e deu-se mal. O genocídio, ao qual se colara a etiqueta "nunca mais", foi reprisado em Ruanda. No Brasil, as chacinas da Candelária e de Vigário Geral anunciaram que havíamos dado um salto qualitativo em barbárie. Itamar trouxe o Real, que quebrou a espinha da hiperinflação. Fernando Henrique foi eleito e reeleito. Morreu Ulysses e também Mitterrand. Clinton apareceu. O apartheid acabou, igualmente chegando ao fim o sandinismo na Nicarágua, a guerrilha na Guatemala e El Salvador. Presidentes vieram e se foram. Os terroristas atacaram o coração dos EUA. Lula ganhou na quarta tentativa. O Afeganistão desmoronou, o Iraque foi invadido. Os muros voltaram à moda em Israel e outros lugares. Milhares de vidas foram varridas pelo tsunami. Sobrevivendo a tudo e a todos, o reino de João Paulo 2º só se extinguiu após consumir o último pavio da última vela.
Se Tancredo não tivesse morrido, essa história dos últimos 20 anos teria sido diferente? Para o Brasil, certamente, mas de que forma? Como seria preparada e conduzida a Constituinte por alguém de autoridade sobre o PMDB comparável à de Ulysses? A Constituição aprovada sob tais auspícios facilitaria o combate à inflação? Ou seria indispensável passar pela experiência do Cruzado a fim de perceber que a inflação era inercial? Pode-se conceber moratória com Tancredo?
A essas perguntas só é possível dar respostas probabilísticas. A única certeza que temos é das virtudes que descobrimos no presidente eleito. A fina argúcia, o senso de proporção e equilíbrio, o gosto da simplicidade, o humor tingido de ironia benevolente, a sabedoria nascida de longa experiência do poder e dos homens. A algumas dessas qualidades, de Risoleta agregava outras, as da mulher forte das Escrituras, conforme mostrou ao consolar a multidão aflita. Uma vez passei algumas horas no solar dos Neves, em São João Del Rey (MG), e compreendi de onde brotava tanta elegância singela em ser e parecer: das raízes profundas do Brasil e de Minas, da fonte de que jorra a água mais pura e cristalina.
Minas não há mais, adverte-me Drummond. Tanta coisa não há mais desse passado e, entre elas, Tancredo e Risoleta, o melhor do Brasil que um dia fomos! A Presidência tão ansiada de Tancredo não houve. Ou melhor, só existiu na imaginação e na aspiração coletivas. Foi talvez melhor assim. Não só porque, como diz Pasolini no fim de "Decameron", a obra de arte sonhada é sempre mais bela do que a realizada. É que, ao permanecer "una Cosa mentale", ela não morre nunca, ela continua a alimentar o Brasil que o hino chama de "um sonho intenso". Quem nos assegura de que o melhor dos anos recentes -a busca da estabilidade, o padrão de tolerância democrática, a crescente consciência de que é preciso agir contra a injustiça e a desigualdade- não venha um pouco da esperança que Tancredo despertou com a Nova República, do seu exemplo esboçado e que ficou inacabado?
Quem garante que só a história "real" é que conta? Creio que foi Milton quem escreveu: "He also serves who only sits and waits" ("Também serve aqueles que apenas senta e espera"). De Maria, que sentou-se a seus pés para escutá-lo, disse Jesus que tinha escolhido a melhor parte. E se a melhor parte de nossas histórias tivesse sido aquele sonho intenso? Ao menos é o que hoje penso. E por isso estou seguro de que Tancredo foi o maior e o melhor de todos os presidentes que o Brasil nunca teve.
Folha de S.Paulo
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Arquivo do blog
-
▼
2005
(4606)
-
▼
abril
(386)
- VEJA Entrevista: Condoleezza Rice
- Diogo Mainardi:Vamos soltar os bandidos
- Tales Alvarenga:Espelho, espelho meu
- André Petry:Os corruptos de fé?
- Roberto Pompeu de Toledo:A jóia da coroa
- Baby, want you please come here - Shirley Horn, vo...
- O mapa da indústria GESNER OLIVEIRA-
- JANIO DE FREITAS:A fala do trono
- FERNANDO RODRIGUES:220 vezes "eu"
- CLÓVIS ROSSI :Distante e morno
- PRIMEIRA COLETIVA
- Dora Kramer:Lula reincorpora o candidato
- AUGUSTO NUNES :Entrevista antecipa tática do candi...
- Merval Pereira:Mãos de tesoura
- Miriam Leitão:Quase monólogo
- O dia em que o jornalismo político morreu
- Eles, que deram um pé no traseiro da teoria política
- Lucia Hippolito: O desejo de controlar as informações
- Goin way blues - McCoy Tyner, piano
- O novo ataque ao Copom - LUIZ CARLOS MENDONÇA DE B...
- JANIO DE FREITAS :Mensageira da crise
- FHC concedeu coletiva formal ao menos oito vezes
- CLÓVIS ROSSI :Todos são frágeis
- ELIANE CANTANHÊDE :Pelo mundo afora
- NELSON MOTTA:Coisas da política ou burrice mesmo?
- Dora Kramer: PFL quer espaço para Cesar
- Miriam Leitão:Dificuldade à vista
- Luiz Garcia :Tiros sem misericórdia?
- Merval Pereira:Barrando o terror
- Villas-Bôas Corrêa: A conversão de Severino
- Lucia Hippolito: A hora das explicações
- Let’s call this - Bruce Barth, piano
- CÂMBIO VALORIZADO
- CLÓVIS ROSSI :Quem manda na economia?
- ELIANE CANTANHÊDE :"Milhões desse tipo"
- DEMÉTRIO MAGNOLI:Preto no branco
- LUÍS NASSIF :As prestações sem juros
- Dora Kramer:À sombra dos bumerangues
- Miriam Leitão:Erro de identidade
- Merval Pereira:Sentimentos ambíguos
- Guilherme Fiuza:A culpa é do traseiro
- Georgia on my mind - Dave Brubeck, piano.
- Lucia Hippolito: Ele não sabe o que diz
- PALPITE INFELIZ
- TUDO POR UMA VAGA
- CLÓVIS ROSSI:Presidente também é 'comodista'
- FERNANDO RODRIGUES:Os traseiros de cada um
- "Liderança não se proclama", afirma FHC
- O dogma de são Copom- PAULO RABELLO DE CASTRO
- LUÍS NASSIF:Consumo e cidadania- ainda o "levantar...
- Dora Kramer:Borbulhas internacionais
- Zuenir Ventura:Minha pátria, minha língua
- ELIO GASPARI:Furlan e Bill Gates x Zé Dirceu
- Miriam Leitão: Nada trivial
- Merval Pereira:Palavras ao léu
- REFLEXOS DO BESTEIROL
- Villas-Bôas Corrêa: A greve das nádegas
- AUGUSTO NUNES:O Aerolula pousa no mundo da Lua
- VEJA:Jorge Gerdau Johannpeter
- XICO GRAZIANO:Paulada no agricultor
- Por que ele não levanta o traseiro da cadeira e fa...
- Lucia Hippolito: Eterno enquanto dure
- Luiz Garcia:Sandices em pleno vôo
- Arnaldo Jabor:Festival de Besteira que Assola o País
- Miriam Leitão:Economia esfria
- Merval Pereira:Liberou geral
- GUERRA PETISTA
- Clóvis Rossi:Apenas band-aid
- ELIANE CANTANHÊDE:De Brasília para o mundo
- JANIO DE FREITAS:Os co-irmãos
- Dora Kramer: Sai reforma, entra ‘mudança pontual’
- AUGUSTO NUNES O pêndulo que oscila sobre nós
- Resgate em Quito (filme de segunda)
- Round midnight - Emil Virklicky, piano; Juraf Bart...
- Reforma política, já- Lucia Hippolito
- INCERTEZA NOS EUA
- VINICIUS TORRES FREIRE :Bento, Bush e blogs
- FERNANDO RODRIGUES: Revisão constitucional
- Os trabalhos e os dias- MARCO ANTONIO VILLA
- Zelão / O Morro Não Tem Vez - Cláudia Telles
- Fora de propósito
- JOÃO UBALDO RIBEIRO:Viva o povo brasileiro
- Merval Pereira: O desafio das metrópoles
- Miriam Leitão:Música e trégua
- DEMOCRACIA INACABADA
- GOLPE E ASILO POLÍTICO
- CLÓVIS ROSSI:A corrida pela esperança
- ELIANE CANTANHÊDE:Asilo já!
- ANTÔNIO ERMÍRIO DE MORAES: Reforma tributária e ga...
- ELIO GASPARI:A boca-livre deve ir para Quito
- JANIO DE FREITAS:Sonho de potência
- LUÍS NASSIF Racismo esportivo
- Quando as cidades dão certo - JOSÉ ALEXANDRE SCHEI...
- AUGUSTO NUNES: O encontro que Lula evita há dois anos
- O depoimento de uma brasileira no Equador
- Sabiá - Elis Regina]
- Diogo Mainardi:A revolução geriátrica
- Tales Alvarenga:Assume mas não leva
- André Petry: Isso é que é racismo
- Roberto Pompeu de Toledo:Fato extraordinário:um pa...
- Slow Boat To China (live) - Charlie Parker
- IMBRÓGLIO DA DÍVIDA
- PÁSCOA EM ISRAEL
- OLHAR AS FAVELAS
- CLÓVIS ROSSI:Romance e capitalismo
- FERNANDO RODRIGUES:Índios, perdão e ação
- Dora Kramer:Serviço de proteção à família
- Fazenda é modelo de descaso do governo
- Augusto Nunes :Um embaixador esquizofrênico
- Lula, o colecionador de derrotas-Kennedy Alencar
- Merval Pereira: Terra em transe
- Miriam Leitão: As consumidoras
- Gesner Oliveira:UMA BOA E UMA MÁ NOTÍCIA
- Ricardo A. Setti : Só concurso público mata o nepo...
- Perdão por quê?
- POLÍTICA NA SAÚDE
- CONFLITO COMERCIAL
- CLÓVIS ROSSI:O Lula que foi Lula até o fim
- ELIANE CANTANHÊDE: Receita indigesta
- NELSON MOTTA: Boca-livre, paixão nacional
- LUÍS NASSIF: Monetaristas e metas inflacionárias
- LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS:O que está acontece...
- Lucia Hippolito:Com vento a favor, é fácil ser dem...
- Dora Kramer:Freio de arrumação
- Miriam Leitão: Voto latino
- Merval Pereira:Os republicanos
- Luiz Garcia;Pelos melhores motivos
- Paulo Nogueira Batista Jr.:Insistindo no êrro
-
▼
abril
(386)
- Blog do Lampreia
- Caio Blinder
- Adriano Pires
- Democracia Politica e novo reformismo
- Blog do VILLA
- Augusto Nunes
- Reinaldo Azevedo
- Conteudo Livre
- Indice anterior a 4 dezembro de 2005
- Google News
- INDICE ATUALIZADO
- INDICE ATE4 DEZEMBRO 2005
- Blog Noblat
- e-agora
- CLIPPING DE NOTICIAS
- truthout
- BLOG JOSIAS DE SOUZA
Nenhum comentário:
Postar um comentário