Entrevista:O Estado inteligente

domingo, abril 17, 2005

Luis Fernando Verissimo:O destino dos brancos


Estou preocupado com a raça branca, talvez porque eu mesmo seja meio branco. A raça branca está desaparecendo. Não sei qual é a estatística exata, mas parece que os brancos do mundo estão produzindo uma média de 0,25 filhos por casal. Teoricamente, hoje seriam necessários quatro casais para fazer um filho branco inteiro. E é claro que uma fração de filho não garante neto a ninguém.


No Primeiro Mundo, que é onde existe a maior concentração de brancos, o problema preocupa as autoridades há algum tempo. Na Itália, não pára de aumentar o número de vagas nas escolas, os professores não sabem mais como lidar com classes tão vazias. Na França há programas de incentivo à procriação de franceses, com subsídios crescentes do governo para cada filho extra — ou seja, além da fração. E ouvi dizer que os governos escandinavos distribuem estufas entre os jovens casais, para o caso de a falta de filhos se dever ao frio no quarto. Não está dando certo.

Os brancos simplesmente não estão se multiplicando.

A culpa mais remota é da industrialização. Com o fim das sociedades agrícolas acabou a razão prática da família grande, em que filho era mão-de-obra. A culpa mais recente é de avanços — e recuos — econômicos, culturais e profiláticos: mulheres obrigadas a sair de casa para o mercado de trabalho, o declínio da família tradicional e da Igreja como referências de costumes, os novos métodos anticoncepcionais — enfim, tudo que evita filho. Mas isso aconteceu na parte próspera do mundo. A parte pobre continua se reproduzindo como antigamente.

Agora, o seguinte. O filhos brancos que não nascem seriam os que sustentariam os seus pais e pagariam suas pensões e seus remédios quando eles envelhecessem, se existissem e produzissem. O que traz um ângulo novo para a questão da lenta invasão em curso do Primeiro Mundo pelo outro. A migração do mundo fértil para o mundo próspero provoca choques e reações cada vez mais violentas, mas hoje um país de maioria branca que conseguisse se fechar por completo à imigração, para proteger sua homogeneidade racial ou sua melhor qualidade de vida, estaria condenado a desaparecer em pouco tempo, e bem feito. A idéia não deve ocorrer muito a guardas de fronteira ou propagadores da superioridade branca, mas cada escuro que entra, legal ou ilegalmente, no seu país é um contribuinte a mais para a sua aposentadoria.

O Globo

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