Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, abril 18, 2005

VINICIUS TORRES FREIRE:Grafite e 6B



SÃO PAULO - Grafite me faz lembrar de um colega do time de basquete do colégio, o 6B. O 6B era o que a expressão racista corriqueira chama de "um baita negão". 6B é o tipo mais macio dos grafites comuns para desenho, o que deixa o traço mais escuro.
Entre os colegas ruivos havia o Tocha, o Foguinho e o Andraus (do edifício que pegou fogo e matou gente na São Paulo de 72). Os muito pequenos eram o Formiga, o Feto e o Meiose.
"6B", assim como "Grafite", é melhor que Neguinho, Escurinho, Fumaça, Breu, Carvão, apelidos antigos de jogadores de futebol. Seria um progresso? Foi um progresso a prisão espetacular do argentino e o show politicamente correto que se seguiu?
Na Europa, o racismo no futebol parece ser o início de um movimento de agressão organizada contra escuros e/ou imigrantes. Nos Estado Unidos, a psicose do politicamente correto ajuda a criar e a preservar direitos de negros, de "latinos" e de mulheres. Mas o politicamente correto, o "pc" não deixa de ser uma polícia da mente e da expressão, objeto de ironia e cinismo. Congela universos de "iguais, mas separados", guetos morais, culturais, raciais.
No Brasil, o "pc" e ações afirmativas, como alertou o historiador Manolo Florentino na Folha de ontem, podem criar algo que inexiste aqui, um país de "duas cores". Isto é, adicionar ao racismo brasileiro ingredientes do racismo americano.
O "pc" é uma boa intenção da esquerda. Em tese, é progressista, humanista. Otimista. Acha que, se censurarmos racismo e sexismo, talvez percamos a memória da agressão, apaguemos da cultura e da educação das crianças a idéia do preconceito.
Gostamos da polêmica do Grafite porque rende fofoca, assim como gostamos de piadas preconceituosas? Ou a tolerância com o racismo diminui? Mas o que se diz e se faz sobre negros e mulheres ganharem menos que brancos e homens, por exemplo?
Metade do país é "parda, cor de papel de embrulho, na horrível classificação do IBGE. Essas pessoas são pobres e miseráveis, na maioria. Parte dos "grafites" é ainda mais pobre. Um pardo 75%, quase preto, teria menos direitos "afirmativos" que um negro 90%, quase pardo?
Folha de S.Paulo

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