Entrevista:O Estado inteligente
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sábado, abril 16, 2005
Miriam Leitão:Ventos do mercado
Nos últimos dias, o medo de uma crise externa passou sobre os mercados. Do jeito de sempre: de repente, o humor muda, as bolsas caem, os analistas passam a empilhar as más notícias e começam as especulações sobre o que virá se todos os piores cenários se confirmarem. Nesses momentos, é preciso separar o nervosismo imediatista do mercado da análise mais substancial do que está acontecendo na economia mundial e de como isso poderá nos atingir.
Uma incerteza ronda o mundo. Não é de agora, nem é pra já. A principal turbina do planeta, os Estados Unidos, vive um equilíbrio insustentável a longo prazo, com seus enormes e crescentes déficits. Isso é que se reflete na onda de desvalorização do dólar em relação à maioria das moedas do mundo.
O professor Dionísio Carneiro me mandou um e-mail discordando do adjetivo “desconcertante” que usei aqui ao falar sobre a queda constante do dólar. “Para os economistas que acreditam no papel corretivo que os preços relativos exercem sobre os desequilíbrios, não há nada mais concertante do que a queda do dólar diante dos desequilíbrios”, disse ele. Concordo; na economia, mais cedo ou mais tarde, déficits fiscal e externo cobram a conta. O espantoso é ver a maior economia do mundo com tanto descontrole, tanto endividamento e tanta dependência em relação a outros países menores e a moeda de referência cada vez mais fraca.
Dionísio lembra que já houve isso: “Há momentos assim, o abandono da paridade do dólar frente ao ouro por Nixon em 71 foi dramático. Acabou de vez com o acordo de Bretton Woods, segundo o qual os bancos centrais podiam guardar ouro ou dólar e os Estados Unidos garantiriam a conversão de um no outro ao preço de US$ 35 a onça troy. Flutuou e foi a US$ 400.”
A França estava na ponta certa, porque, anos antes dessa crise, De Gaulle havia comprado preventivamente muito ouro para as reservas. Nas suas memórias, ele explicou que fez isso porque os americanos estavam vivendo além dos seus meios e tentavam forçar seus ajustes nos aliados. Trinta anos depois, os americanos estão de novo consumindo mais do que podem pagar.
Há dúvidas sobre se o dólar continuará caindo e sobre o horizonte dos riscos para a economia mundial. Dionísio acha que há o risco de a transferência de recursos para a economia americana parar de repente. A freada brusca pode levar todos a bater no pára-brisa. Ele acha que é bom ter ainda mais reservas, que não salvam ninguém da crise, “mas podem servir de airbag.”
A crise não está na porta. É um risco futuro. Outros fatores mais imediatos causaram a queda das bolsas: há sinais de inflação mais alta no atacado do que se esperava, dúvidas sobre saúde de grandes empresas, como General Motors, e medo de queda do crescimento mundial a curto prazo.
Aqui no Brasil, somaram-se algumas dúvidas. O resultado da Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE mostrou um varejo pior do que se imaginava. Os bancos tinham feito previsões bem mais otimistas para este indicador. Segundo os cálculos feitos por outros institutos, houve queda do varejo em fevereiro em relação ao mês anterior. O número confirma o diagnóstico de que a economia brasileira está em desaceleração. Nada brusco, mas apenas reduzindo o ritmo nos últimos meses. No caso do indicador de comércio, ele vem mostrando redução nos últimos meses.
Outra dúvida é em relação aos dois dos setores que mais puxaram a Bovespa nos últimos meses: mineração e metalurgia. As siderúrgicas estão em guerra com a Vale do Rio Doce, acusando a empresa de controle excessivo de mercado. Ela tem um controle excessivo sobre o transporte ferroviário e sobre a produção de minério de ferro, mas o setor siderúrgico brasileiro também é concentrado. É uma briga de cachorro grande na qual, quando o assunto é defesa da concorrência, ninguém é santo. Além disso, eles brigam numa mesa e se entendem em outra, porque são sócios em outros empreendimentos.
A briga das siderúrgicas contra a Vale do Rio Doce, e a divulgação de processos na SDE e no Cade, levaram os investidores a um movimento de realização da grande alta das ações nos últimos meses. Outro fator de baixa é a conclusão de que, se a economia mundial vai crescer menos, as commodities não continuarão em alta. A ação da Vale subiu 48% nos últimos doze meses, mas caiu 10% em dois dias. Em abril, a queda foi de 14%. A Usiminas subiu 45% em 12 meses e depois caiu 17% em abril.
O que é realmente preocupante não são as oscilações das ações, mas o desequilíbrio da economia americana. É neste cenário que o Copom vai se reunir esta semana. Deve pesar mais o fato de que a economia brasileira está em desaceleração e que, no horizonte de 12 meses, a inflação está convergindo para a meta. Ou seja, essas nuvens da semana passada no horizonte econômico não justificam outro aumento de juros. O Copom deve decidir pela permanência da taxa no altíssimo nível de 19,25%.
O Globo -
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