Entrevista:O Estado inteligente

domingo, abril 17, 2005

ALÉM DAS EXPORTAÇÕES




As exportações brasileiras continuam a quebrar, mês após mês, recordes sucessivos. Sem dúvida se trata de um fenômeno auspicioso tendo em vista a necessidade de recuperar as contas externas do país, depauperadas por anos de excessiva apreciação cambial e de desmobilização da política industrial.
O grande superávit alcançado no comércio exterior se apresenta como o maior fiador da perspectiva de que a economia possa se manter em crescimento nos próximos anos. Desde que não se incorra novamente em exageros no recurso à valorização do real como instrumento para moderar a inflação, é ponderável a possibilidade de que seja superada a frustrante tendência, que se repete há duas décadas, ao chamado "vôo de galinha" -isto é, aos surtos de crescimento que logo são abortados pela debilidade das contas externas.
Mesmo admitindo-se essa hipótese otimista de que a economia tenha se habilitado a crescer de modo mais contínuo, cabe indagar a respeito do ritmo e do perfil desse crescimento.
Incomoda constatar que a taxa de expansão do PIB brasileiro em 2004 foi inferior à taxa média observada nas economias latino-americanas e que as projeções para 2005 indicam a possibilidade de que esse contraste desfavorável ao país se repita.
Esse fenômeno parece associado, em medida relevante, ao fato de que o peso do setor exportador é menor na economia brasileira do que nas economias vizinhas -pois as exportações, estimuladas pela forte expansão da economia mundial e pela marcante recuperação dos preços das commodities, vêm se constituindo no principal fator de crescimento em todo o continente.
Ressalte-se que o peso das exportações na economia brasileira vem aumentando com velocidade, tendo chegado em 2004 a 18%, o percentual mais elevado desde 1947, quando a estatística passou a ser feita no país.
Essa elevação, contudo, tende logo a encontrar limites. O salto das exportações brasileiras observado nos últimos anos, além de refletir uma evolução favorável dos preços de produtos que exportamos, decorreu do estímulo propiciado pela desvalorização da moeda, que produziu um forte rebaixamento de custos -em particular salariais- quando medidos em dólares.
Tais fatores de estímulo ao setor exportador, no entanto, não tendem a se renovar. A perspectiva seria outra se o salto exportador resultasse de fortes mudanças na estrutura produtiva que tivessem viabilizado um enobrecimento da pauta de exportações, conforme se verificou em diversos países da Ásia nas últimas décadas. Não é o caso. O salto exportador brasileiro é, até o presente, claramente menos promissor, pois não é fruto essencialmente da exportação de produtos de maior valor agregado.
Acresce que o fôlego de um crescimento liderado pelas exportações tende a ser menor em economias de porte continental, como a brasileira.
Esses aspectos sugerem que, a fim de propiciar crescimento mais expressivo, será preciso contar com vetores de expansão para além das exportações. O mercado interno terá um papel fundamental a desempenhar e, na dinamização desse mercado, uma desconcentração da renda seria importante. São aspectos que vêm sendo descurados pela política econômica. A euforia exportadora, embora bem-vinda, não deveria turvar a percepção de que a economia brasileira continua a carecer de um modelo de crescimento articulado.
Folha de S.Paulo - Editoriais:

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