sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Luiz Garcia - A temperatura da batata

O Globo
22/2/2008

Não há fato realmente novo em Cuba, por enquanto. 
O adeus de Fidel é apenas a concretização da passagem de comando, 19 meses atrás, quando o irmão mais velho e mais alto baixou hospital e entregou o poder ao caçula baixinho. Oficialmente, uma interinidade, era de fato o primeiro passo numa transição sem volta, na opinião doméstica e externa, de amigos e inimigos.

Se alguma dúvida existia, era sobre as credenciais de Raúl Castro para ser o sucessor definitivo. Até certo ponto, a incerteza permanece, e só desaparecerá quando Fidel partir de vez - desta para melhor, como se dizia antigamente. Mas desde já o mais moço tem de ir administrando a batata quentíssima que acaba de herdar. É como se pode definir a crise econômica que brotou na década de 90. Ela provocou mudanças importantes no país e suas marcas ainda não desapareceram.

Em 1993, a economia cubana caiu 14,9% e Fidel impôs ao país o que foi definido como um brutal programa de austeridade. Incluía um corte de 50% no consumo de energia, algo provavelmente impossível num regime democrático.

Escreveu na época um analista-torcedor: "A sociedade cubana quase que literalmente parara de se mover, até que o comandante teve a idéia salvadora de trazer de volta para o futuro as charretes e as bicicletas."

Não adiantou grande coisa. As tribulações chegaram ao ponto, até então impensável, de uma manifestação nas ruas de Havana, em agosto de 94, com jovens gritando "queremos liberdade" e "abaixo Fidel". A crise já o forçara a fazer concessões ideologicamente detestáveis para ele, como o esforço para captar dólares do turismo, e o fim, em 92, do monopólio estatal no comércio exterior. Mas as coisas realmente demoraram a melhorar: em maio de 99, um relatório da Cepal informava que cerca de um terço dos trabalhadores cubanos estava desempregado ou subempregado.


Nos anos mais recentes - entre outros motivos graças à ajuda financeira da Venezuela - a saúde da economia melhorou bastante. Mas a situação política ainda mostra sinais de fragilidade. Pouco tempo antes de adoecer, Fidel lançou o que batizou de "batalha de idéias": uma campanha para defender o regime de seus inimigos domésticos.

Foram mobilizados 30 mil jovens (número oficial), batizados de "trabalhadores sociais" e incumbidos de uma cruzada contra a corrupção. Segundo notícias oficiais, os jovens localizaram "furtos excessivos" em empresas estatais. Não se tem notícia de resultados mais concretos.

Seja como for, todos os sinais indicam que Raúl está mesmo herdando um tubérculo de alta temperatura. Não há notícias confiáveis sobre a sua capacidade pessoal de governar, nem sobre a lealdade que pode esperar do partido, da burocracia e dos militares. Sem falar do povo cubano.

A passagem do poder poderá ter toda a pompa e as circunstâncias de um gesto definitivo. Mas ninguém se engane: o cenário político será um enquanto Fidel viver, e outro - talvez muito diferente - depois de sua morte.

Sem falar em duas incógnitas no horizonte: o comportamento do até agora generoso Chávez e a política externa do novo presidente dos Estados Unidos, no ano que vem. O venezuelano assumirá de vezo manto de líder do "bolivarismo", passando a exigir de Havana lealdade e obediência em troca da ajuda econômica? O americano terá projeto novo e inteligente para as relações no hemisfério?

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