sábado, fevereiro 23, 2008

Dora Kramer

Artes e manhas


O poeta fingidor de Fernando Pessoa "finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente", mas talvez não seja assim tão completo se comparado, em sua arte da simulação, a determinadas performances da central de produções da política brasileira.

No momento, há duas em cartaz que deixam tonto o observador: o vaivém de governo e oposição no episódio da CPI dos Cartões e o aviso aos navegantes dado pelos senadores José Sarney e Roseana Sarney de que pretendem, em breve, tirar uma licença temporária de seus respectivos mandatos.

Ele, o mais influente parlamentar do Legislativo, alega desejo de se dedicar à literatura. Ela, líder do governo, alude à necessidade de cuidar da saúde. Nenhum dos dois anuncia oficialmente a decisão e o fato de a disseminarem por enquanto como versão levanta a suspeita entre seus pares - os aliados - de que podem ter outras intenções.

Sarney nunca precisou se afastar formalmente na política para escrever seus livros; Roseana sempre que necessitou se ausentar para tratar da saúde, o fez sem alarde nem avisos antecipados.

Resta, então, a desconfiança forte de que tenham um plano. Qual seria, ninguém se arrisca a supor. Uma altíssima autoridade petista aconselha a observar a conduta dos suplentes de ambos, caso as licenças venham mesmo a se concretizar.

Jorge Nova da Costa substituiria José Sarney. Foi governador do Amapá, nomeado pelo então presidente da República na década de 80. Como reza a regra da suplência, o substituto deve seu mandato a um único eleitor, o titular da vaga, e só a ele presta satisfações.

Mauro Fecury substituiria Roseana. Foi deputado federal pelo Maranhão, já assumiu o mandato no lugar dela em outras ocasiões, nas quais mal se notou sua presença. Agora, porém, a conselho da estrelada cabeça petista, valeria observar se manterá a discrição ou se, junto com o suplente de Sarney, terá uma relação animosa com o governo.

Se os suplentes exibirem uma conduta que aos titulares não convém assumir, estará esclarecido o enigma da licença: a família terá conseguido demonstrar sua insatisfação com a resistência do governo em preencher os cargos pretendidos no setor elétrico.

No tocante à CPI dos Cartões, o governo já fez seu jogo de cena ao tomar a iniciativa de propor a CPI a partir da liderança no Senado e resistir a ela com a tropa da Câmara. Agora é a vez de a oposição produzir efeitos especiais.

Principalmente o PSDB foi de um extremo ao outro: saiu do afã de fazer CPI de qualquer maneira, conforme o registrado nos autos do acordo entre o deputado Carlos Sampaio e o senador Romero Jucá, para a intransigência absoluta, ameaçando boicotar a CPI se o presidente e o relator forem mesmo da base governista.

Como o governo tem maioria, direito regimental de controlar os principais postos e de outras vezes - a CPI dos Correios, por exemplo - esse "controle" não controlou coisa nenhuma nem determinou "abafas", está parecendo pretexto.

A impressão que dá é que o PSDB desistiu da CPI e anda até gostando que o presidente Lula se mantenha intransigente na indicação de relator e presidente, fazendo de conta que contraria os apelos de seus líderes no Senado.

Se ninguém cede, a coisa não anda. E se a coisa não anda porque ninguém cede é porque não interessa a ninguém fazer a coisa andar.

"Ética das prioridades"

O artigo de ontem registrava duas cobranças ao senador Cristovam Buarque. Uma, por ter emprestado sua credibilidade para ressaltar as qualidades de Thimothy Mulholland como reitor da UnB, ressalvado o "equívoco de prioridades" no caso do apartamento de decoração luxuosa financiada pela universidade.

Outra, por apoiar a permanência do ministro Carlos Lupi na pasta do Trabalho e na presidência do PDT, partido do senador. Sobre isso, Cristovam não faz menção na mensagem que enviou agradecendo a cobrança e esclarecendo sua posição em relação ao reitor.

"Quero pedir desculpas por não ter sido compreendido quando fiz minha clara (eu pensava) declaração de que a decisão do reitor de ter apartamento funcional, e ainda pior, mobiliá-lo com produtos de luxo, era um crime contra as prioridades, mesmo que seja, do ponto de vista jurídico, legal.

"Quando digo que foi um equívoco de prioridades, estou dizendo que ele cometeu o pior dos crimes como administrador de uma entidade pública, porque o dinheiro deveria ter sido usado todo para as atividades-fins.

"Como, aliás, fiz ao leiloar o apartamento funcional a que tinha direito quando fui eleito reitor, 20 anos atrás, e coloquei todos os recursos dentro da UnB. Jamais defendi o reitor nessa sua decisão.

"Se não me fiz entender, a culpa é minha. Este é um grave defeito para um professor", diz o senador, que reafirma sua intenção, não de "defender a ilegalidade", mas de apontar o crime contra a ética das prioridades, "o que no Brasil não é considerado ilegal".

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