quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Míriam Leitão - O veio da mina




PANORAMA ECONÔMICO
O Globo
27/2/2008

Pode uma atividade naturalmente agressiva ao meio ambiente, como a mineração, ser sustentável? As empresas de mineração fazem enormes buracos para a extração do que lhes interessa e, freqüentemente, são envolvidas em casos de contaminação. O australiano Paul Mitchell tem trabalhado para mudar essa idéia. Em rápida passagem pelo Brasil, eu conversei com ele, no Rio.

Mitchell é presidente do International Council on Mining & Metals, uma instituição internacional que se propõe a defender as boas práticas na área da mineração. Até hoje, só 16 empresas fazem parte do ICMM, mas, juntas, companhias como Alcoa, AngloAmerican, BHP, Mitsubishi, Vale, Xstrata, entre outras, representam 90% de todo o minério de ferro e têm posições de liderança na produção de vários outros minerais. São as maiores empresas de mineração do mundo.

"Sim e não", ele me respondeu, quando perguntei se as empresas de mineração não eram naturalmente destruidoras do meio ambiente.

- Obviamente sim, a ação das empresas mineradoras afeta dramaticamente o meio ambiente onde ocorre a mineração, mas a área afetada é, em geral, pequena. Veja-se o caso da Austrália, que tem um longo histórico de produção mineral e onde quase tudo é produzido: petróleo, gás, diamante, ouro, níquel, minério de ferro. A área atingida é bem menor que 1% do território; muito menos do que a área impactada pela agricultura e produção de madeira - disse.

Na opinião do executivo, as empresas estão se envolvendo em boas práticas porque é do interesse delas. Se não fosse, as políticas não seriam mantidas. Mitchell, que veio ao Brasil visitar a Vale, uma das sócias, depois de passar pelo Chile, onde a Codelco pode vir a se associar, defende a tese de que as empresas de mineração são as que mais investem em países em desenvolvimento, gerando emprego e renda para as comunidades locais.

- O setor de mineração investe principalmente em países em desenvolvimento e tem impacto na redução da pobreza. No Chile, o percentual de pessoas abaixo da linha da pobreza caiu à metade e, em parte, pelos investimentos em mineração; em Botswana, a queda do percentual dos pobres foi de 20%.

Lembrei que as mineradoras investem em países mais pobres e costumam deixar apenas buracos e pobreza depois que vão embora. Ele respondeu que é exatamente contra esse histórico que foi criada a organização que dirige.

- A indústria de mineração tem hoje uma alta tecnologia, não há razão para que ela não possa administrar o dano causado pela atividade econômica. Não há razão para que certos casos aconteçam. Em alguns casos, é inevitável; em outros, pode-se facilmente mitigar os danos.

Para ser membro do ICMM, é preciso se comprometer com boas práticas na área da relação com a comunidade e o meio ambiente, é preciso dar transparência às suas ações e, principalmente, submeter as informações das empresas a auditoria independente, que segue critérios internacionalmente aceitos de sustentabilidade. Hoje é fácil falar a palavra sustentável, mas o assunto está se profissionalizando: existem formas objetivas de verificação das políticas da empresa. A ICMM desenvolveu indicadores junto com a GRI, Global Reporting Initiative, que testa as políticas para evitar as fraudes tão comuns no meio empresarial.

Não há empresas chinesas no grupo. Segundo Mitchell, elas não estão sendo impedidas, mas não acham que vale a pena o esforço e o risco de abrir e dar transparência às suas ações. Ele lembra que hoje comparar a qualidade das políticas das empresas de mineração é difícil, porque quem não faz parte do ICMM tem muito menos obrigações de transparência que as outras.

- Você pode me perguntar: por que vocês decidiram fazer isso? Porque acreditamos nestes objetivos.

De acordo com a tese de Mitchell, a empresa mineradora pode ser protetora do meio ambiente.

- Veja-se o caso da Rio Tinto em Madagascar, exemplo de país pobre, onde a população local tinha apenas a opção do desmatamento. O investimento da empresa em mineração ajudou a proteger o meio ambiente por fornecer alternativa de trabalho e oportunidades econômicas.

Quis saber que decisão tomariam se as atividades de uma empresa criassem emprego, ou seja, ajudassem a comunidade, mas, ao mesmo tempo, fossem danosas ao meio ambiente e precipitassem a mudança climática.

Ele acha que é possível conciliar. Citou o caso da Newmont, na Indonésia, que foi acusada de poluir a Buyat Bay, em Sulawesi. Segundo Mitchell, a empresa investigou e provou que não existia, de fato, o dano do qual era acusada. Admitiu, porém, que eles têm produzido mais estudos e projetos tendo em vista o desenvolvimento econômico das comunidades envolvidas que os impactos da mudança climática.

Em comparações internacionais com setores que estão submetidos a auditagem, o setor de mineração tem algumas empresas com bons indicadores, mas, em geral, está na média das boas práticas. Mitchell tem razão em dizer que é difícil comparar empresas que se submetem a verificação com outras que não têm transparência. O importante na conversa foi entrar em contato com esse mundo novo que surge. Não se fala mais de sustentabilidade apenas como uma palavra bonita, mas como uma moldura de práticas e princípios específicos e auditáveis. Uma parte do mundo passou a falar a sério sobre isso. É assim que o mundo dos negócios começa a separar joio de trigo.

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