sábado, fevereiro 23, 2008

VEJA Entrevista: Alice Braga

"Tudo é novidade"

Com um papel em Eu Sou a Lenda e outras quatro produções
estrangeiras por estrear, Alice Braga, de 24 anos, já construiu
a mais sólida carreira internacional de um intérprete brasileiro


Isabela Boscov

Jeff Vespa/Wireimage/Getty Images

"Não me preocupa virar uma ‘atriz latina’. Isso não é tipificação. É o que eu sou mesmo: latina e sul-americana"

Há um ano, Alice Braga não pára em casa: revelada por Fernando Meirelles em Cidade de Deus, no papel de uma garota da Zona Sul que é objeto de desejo de um rapaz da favela, essa paulistana "da gema", como se descreve, engatou uma carreira internacional que já é mais prolífica que a de qualquer outro ator brasileiro até aqui. Além de Eu Sou a Lenda, a superprodução em que interage com Will Smith, Alice rodou recentemente quatro outras produções estrangeiras, nas quais divide a cena com Harrison Ford, Sean Penn, Jude Law e Forest Whitaker. Num desses filmes, Redbelt, uma história passada no mundo do jiu-jítsu, foi dirigida pelo dramaturgo David Mamet, um ícone do meio cinematográfico. Voltou a se reunir com Meirelles em Blindness, adaptação de Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. Aos 24 anos, faladora e "muito família", Alice ainda não prova do efeito colateral desse tipo de estouro: a celebridade. Está num momento em que a indústria já acompanha seu percurso com interesse, mas o público ainda não a reconhece. Ela conversou com VEJA em duas ocasiões nas últimas semanas – de Nova York e numa visita à família, em São Paulo.

Veja – Você tem apenas 24 anos e já montou um currículo internacional sem precedentes para um ator brasileiro. Ele é fruto de planejamento ou de acaso?
Alice – Eu sempre quis trabalhar com cinema, desde pequena, tanto faz se aqui ou lá fora. Cinema e ponto, esse era meu único plano. A partir do momento em que as portas começaram a se abrir, fui tocando de ouvido. Já fiz vários filmes no Brasil, começando por Cidade de Deus e depois Cidade Baixa, A Via Láctea e Só Deus Sabe, que é meio brasileiro e meio mexicano. E dei a sorte de engrenar também uma carreira fora do país. Digo sorte porque eu quero papéis que me desafiem, que me obriguem a crescer. Quanto mais oportunidades, portanto, melhor.

Veja – A fama mudou algo na sua relação com seus amigos?
Alice – É engraçado, mas tudo continua igual. Acho que é porque eu mesma não mudei. Chego ao Brasil e ligo para todos os meus amigos, procuro vê-los e estar perto deles. A verdade é que ainda não provei do que é a celebridade. Outra noite, uma moça me reconheceu no supermercado. Ela acenou para mim, eu acenei para ela, e continuei escolhendo minhas frutas. Isso aconteceu uma vez, em dez dias em São Paulo. O mais comum é as pessoas olharem para mim com aquela cara de que me conhecem mas não sabem de onde. O resultado é que eu também fico em dúvida se conheço a pessoa ou não. Minha irmã me manda parar de sorrir, diz que é claro que não é ninguém que eu tenha visto antes. Mas e se for? Sei lá, posso ter esquecido.

Veja – Você tem medo de se tornar uma celebridade?
Alice – Por enquanto, tenho mais curiosidade. É lógico que essa coisa dos paparazzi dá medo, por causa da invasão de sua privacidade e da de sua família. Mas não vivi nada disso, só sei pelas histórias dos outros. Cheguei aqui, por exemplo, e fiquei impressionada com o tamanho do Waguinho (Wagner) Moura hoje em dia. Acho que ele se assustou. Mas duvido que ele vá mudar ou deixar de ir ao supermercado e ao cinema. Você só passa a escolher melhor os horários em que vai sair por aí. Shopping center na sexta-feira às 6 da tarde, por exemplo, não dá.

Veja – Seus pais se preocupam?
Alice – Não, porque sempre tive o pé no chão, desde a adolescência. Os meus amigos ficavam doidos e eu tomava uma cerveja, pronto. Nunca fui baladeira. Adoro ir a festas na casa dos outros, mas não sou de boate. Se saio para dançar com as minhas amigas, é para dançar com elas, não para ficar aí pela noite.

Veja – Mas nesse meio a balada está lá, à disposição?
Alice – Sem dúvida – como em qualquer lugar do mundo e em qualquer meio. Se você quiser sair de segunda a segunda em São Paulo, não vai faltar aonde ir. Mas sou muito batalhadora para entrar nessa.

Veja – Você se preocupa com a idéia de ser tipificada como uma atriz latina?
Alice – Não mesmo. Uma atriz é uma atriz. Sou tão nova e tenho tanto a aprender que tudo o que vejo quero fazer, porque tudo é novo para mim. De mais a mais, sou latina e sul-americana mesmo. Isso não é uma tipificação, é o que eu sou.

Veja – Você imagina chegar a um ponto em que venha a inverter sua situação – ou seja, em que se mudará para os Estados Unidos e apenas visitará o Brasil?
Alice – Não. Primeiro porque os filmes americanos hoje são feitos em todo lugar, não só nos Estados Unidos. Agora, por exemplo, acabei de filmar Repossession Mambo em locação no Canadá, onde foi rodada também parte de Blindness, de Fernando Meirelles. Logo depois de concluir Eu Sou a Lenda, no ano passado, passei três semanas em Santa Catarina trabalhando num curta-metragem – daí fui para os Estados Unidos fazer Redbelt, com David Mamet. No segundo semestre, volto para fazer Cabeça a Prêmio, em que Marco Ricca vai me dirigir, e que temos de rodar antes que comece a estação das chuvas em Mato Grosso. Moro onde o filme está. Mas o Brasil é a minha casa, e não penso mudar isso.

Veja – Por que não?
Alice – Fico com muita saudade de casa. Sempre que posso, volto correndo.

Veja – Tem algum namorado nessa história?
Alice – Pulo tanto de lá para cá que acho que ninguém quer me namorar. Mas tenho muita vontade de ter uma família. Fui criada muito junto com meu pai, minha mãe e minha irmã, sou ligadíssima neles. Eles são supercorujas, carinhosos, sempre me deram a maior força. Nem vou começar a falar neles porque senão não paro. Minha família é, para mim, a base de tudo: quem eu sou, para onde eu volto.

Veja – Você usa o sobrenome da sua mãe, Braga, mas fala o mínimo possível sobre o fato de ser sobrinha de Sonia Braga. Vocês não são próximas ou é pudor de capitalizar a fama de sua tia?
Alice – Na verdade, passei a usar Braga em vez de Moraes, que é o sobrenome do meu pai, porque em pequena eu ia aos sets de filmagem de comerciais com a minha mãe e, como falo pelos cotovelos e sou muito extrovertida, começaram a me convidar para fazer comerciais também. O pessoal dizia: "Vamos chamar a Lili, a filha da Aninha Braga". E acabei virando Lili Braga. Mais tarde troquei o Lili por Alice porque depois de certa idade apelido não dá, né? Mas sou fã do trabalho da minha tia. Não a menciono muito porque nunca passamos grandes períodos perto uma da outra. Quando eu nasci, ela morava fora. Agora ela voltou e eu é que não paro aqui.

Veja – Quando um ator começa a despontar com força no cinema americano, como é o seu caso agora, habitualmente o agente dele o pressiona a aceitar trabalhos que rendam o máximo de exposição e de cachê, mas que nem sempre são os que o ator gostaria de fazer. Essa é também a sua experiência?
Alice – Desde 2003 sou representada nos Estados Unidos pela Endeavor, uma agência até bem grande. Mas me entendo às mil maravilhas com a minha agente. Ela sempre apoiou a minha decisão de continuar a filmar também no Brasil e jamais me pressionou a mudar de vez para Los Angeles. Também nunca tentou me empurrar projetos. Ela procura não necessariamente coisas em que eu apareça muito, mas sim em que eu apareça bem.

Veja – O cinema americano paga cachês tremendamente maiores que o brasileiro. O dinheiro é uma tentação na hora de escolher um projeto?
Alice – Dinheiro paga as contas, e não se deve fazer pouco da independência e da estabilidade que ele proporciona. Neste momento, por exemplo, estou passando umas semanas no Brasil, com a minha família, sem me angustiar por não estar recebendo neste mês. Mas estou tão no começo! O prazer de fazer uma coisa diferente, pela qual se tenha entusiasmo, é inestimável. Além disso, esse tipo de cachê que pode constituir uma tentação está bem fora da minha categoria. É coisa para gente muito maior do que eu.

Veja – À parte alguns flashbacks, em Eu Sou a Lenda você é a única pessoa que contracena com Will Smith. Como surgiu essa oportunidade?
Alice – Quando eu estava lançando Cidade Baixa no Festival de Sundance, minha agente me avisou do teste para Eu Sou a Lenda. Fiz a audição com a produtora de elenco e voltei para o Brasil. Nem pensei mais no assunto. Nesse meio-tempo, o diretor Francis Lawrence, o roteirista Akiva Goldsman e Smith viram o videotape, gostaram e me convidaram para fazer uma leitura. Não basta que o ator pareça bem no teste; é preciso se certificar de que existe uma química interessante entre ele e o protagonista. Então fiz a leitura com Will Smith e aí... rolou.

Veja – Você é naturalmente mignone, mas está magérrima em Eu Sou a Lenda. Os produtores exigiram que você perdesse peso?
Alice – Fiz oito meses de dieta puxada – eu e Will Smith. Num mundo pós-apocalíptico, certamente esses personagens não estariam indo à pizzaria toda semana. Fiquei um mês sem comer nada de carboidrato, só proteínas e vegetais, sem sal e sem temperos. Depois introduzimos um pouco de fruta na dieta – mas só um pouco. E todos os dias eu corria 8 quilômetros de manhã e, à tarde, malhava. Minha mãe ficou toda preocupada. Mas se sentir faminta e no limite do seu físico ajuda você a entender o que o personagem estaria passando.

Veja – Em Eu Sou a Lenda, seu inglês chama atenção não só pela fluência, mas também pela pronúncia e entonação precisas. Você já falava bem inglês antes de começar sua carreira estrangeira?
Alice – Estudei inglês desde pequenininha. Hoje em dia agradeço a meu pai por sempre ter me obrigado a seguir as aulas, mesmo quando eu ficava com preguiça e inventava desculpas para parar. Mas, até trabalhar fora do Brasil, eu não falava com a fluência e a naturalidade de alguém que tivesse morado fora. Quando começaram a pintar essas oportunidades, voltei então a me dedicar à língua. Para Eu Sou a Lenda, tive um dialect coach, um profissional que ajuda não só a limpar o sotaque, mas, nesse caso, a melhorar a dicção e aprimorar a entonação. Quando uma pessoa fala uma língua estrangeira, ela tende a transferir sua entonação nativa para o segundo idioma – o que não só muda o sentido do que é dito como desvia a atenção do conteúdo para a forma, por assim dizer. A preocupação, então, era que minhas falas soassem claras e também naturais. Para isso, é preciso treinar até que todas essas regras se tornem inconscientes. Senão, na hora de fazer a cena, você só pensa no que está dizendo, e não na atuação, como deveria.

Veja – Em abril estréia nos Estados Unidos Redbelt, que você e Rodrigo Santoro fizeram com o cineasta e dramaturgo David Mamet, um dos nomes mais celebrados do meio. O que você aprendeu com ele?
Alice – Trabalhar com Mamet foi maravilhoso. Sempre admirei não só as peças e os roteiros dele, mas também os livros de cinema que ele escreve, que são ótimos. Ele é um ícone, e me senti tremendamente honrada – além de apavorada. Mas ele me guiou o tempo todo. Apesar da fama de bravo, ele é um homem carinhoso, doce, que pega você pela mão. Esse foi um ano especial porque aprendi coisas diferentes com cada uma das pessoas com que trabalhei. Com Mamet, aprendi a mergulhar nas nuances do texto, a pesar as palavras e entender a maneira como elas devem ser ditas para atingir o efeito que se pretende. O roteiro dele é algo que nunca vi: vem com todas as palavras em que a ênfase deve recair sublinhadas. É quase uma partitura.– e ninguém ousa improvisar ou mudar uma letra do que ele determinou.

Veja – Redbelt é uma história passada no mundo do jiu-jítsu. Como algo tão brasileiro foi parar na mão de David Mamet?
Alice – Ele faz jiu-jítsu há seis anos com um professor brasileiro e é louco pelo esporte. Daí esse enredo sobre um clã ligado ao jiu-jítsu. Eu faço a princesinha da família, casada com um lutador, interpretado pelo inglês Chiwetel Ejiofor, que acha que os campeonatos são um desvirtuamento da filosofia da luta. O engraçado é que não tenho nenhuma cena no filme com Santoro, que faz um empresário do meio.

Veja – Que outros trabalhos internacionais você já completou?
Alice – Acabei de filmar Repossession Mambo, uma ficção sobre o comércio de órgãos com Jude Law e Forest Whitaker. Esse deve ser lançado só em 2009. Em Crossing Over, que tem estréia prevista para junho nos Estados Unidos, faço o papel de uma imigrante ilegal detida na fronteira mexicana. O roteiro trata da imigração de um ângulo que tem sido pouco abordado: não só o das pessoas que estão cruzando a fronteira, como é o caso da minha personagem, mas principalmente do ponto de vista de gente que está nos Estados Unidos há vinte anos, construiu lá uma vida, e cai na malha da fiscalização.

Veja – Seu papel em Crossing Over é pequeno, mas os atores com os quais você contracena são do primeiríssimo time.
Alice – Pois é, a maioria das minhas cenas é com Harrison Ford, que faz um agente federal do Departamento de Imigração, e com Sean Penn, que interpreta um patrulheiro de fronteira – aqueles policiais que ficam dentro do carro, no deserto, à espera de observar alguma movimentação suspeita. Ele é o patrulheiro que me apreende.

Veja – Você é daqueles atores que só enxergam defeitos quando se vêem em cena?
Alice – Sempre penso que poderia ter feito isso ou aquilo de um jeito diferente, o que é uma reação absolutamente comum. Mas vejo os trabalhos que fiz um, dois ou três anos atrás quase como se fossem de outra pessoa. Tento não me julgar demais pelo que já ficou para trás. A gente nunca se banha no mesmo rio duas vezes, certo? Ele está sempre passando.

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