sábado, fevereiro 23, 2008

Merval Pereira

Refrescância


A tentativa da senadora Hillary Clinton de transformar seu adversário Barack Obama em um político de belas palavras ocas, sem capacidade para torná-las um instrumento efetivo em favor do povo americano, parece não ser suficiente para quebrar seu encanto. Mesmo tendo conseguido encerrar o debate de quinta-feira no campus da Universidade do Texas, em Austin, com um auditório aplaudindoa de pé, e tendo sido mais objetiva que Obama durante praticamente todo o debate, especialmente em temas como a cobertura universal dos planos de saúde, a senadora Hillary Clinton não parece ter conseguido suplantar seu adversário com tamanha clareza que possibilite uma reviravolta a partir das primárias do início de março no Texas e em Ohio.

Nas pesquisas para as primárias do Texas, os dois aparecem empatados tecnicamente, com a vantagem de Hillary, que já foi enorme, sendo descontada a cada momento. A esta altura, o melhor que lhe pode acontecer é uma vitória apertada que a manteria na disputa.

No debate do Texas, voltou novamente à tona a polêmica sobre um suposto plágio que Obama teria feito das palavras de Deval Patrick, governador de Massachusetts.

Durante um discurso no dia 16 passado, em Wisconsin — cuja primária Obama venceu com folga —, teria proferido os mesmo conceitos utilizados por Patrick num discurso em 2006, sobre a importância das palavras na política.

Deval Patrick, que apóia Obama e disse que o uso foi deliberado e combinado entre as assessorias, esvaziou assim a denúncia do comitê de Hillary, que recebeu uma vaia quando tocou no assunto.

Obama tratou a acusação como “uma bobagem”. Mas a campanha democrata já havia acusado o adversário de ter plagiado seu programa econômico.

O que está em jogo, e Hillary não pode explicitar, é a tentativa de mostrar que Obama é apenas uma criação do marketing político, e não tem capacidade nem experiência para governar os Estados Unidos.

Quando a “Obamamania” começou a se espalhar pelos Estados Unidos, havia uma palavra que definia o candidato democrata, à falta de qualidades mais evidentes: refreshment. Diziase, e ainda se diz, que Obama trazia refreshment à política americana, no sentido de revigorá-la.

Curiosamente, a palavrinha mágica é muito usada na propaganda americana para vender desde refrigerantes até pasta de dente, quando não se tem muita coisa para dizer deles.

Aqui no Brasil, algum publicitário mais criativo arranjou uma tradução para a palavra: “refrescância”.

Embora usada há muito tempo na publicidade, a palavrinha nascida do gênio criativo não teve ainda sua inclusão nos dicionários da língua portuguesa.

Nem o Aurélio nem o Houaiss a registram, mas ela segue sendo usada.

O publicitário Lula Vieira, que além de exímio tradutor do inglês trabalha com o marketing político, sabe exatamente a diferença quando os publicitários se referem à “refrescância” em relação a uma pasta de dente ou a Barack Obama. E não vê como misturar os dois conceitos.

O que Hillary tenta fazer na campanha eleitoral, diante da onda a favor de seu adversário, é exatamente isso: misturar conceitos e desmistificar Obama, em busca de uma decisão mais sensata do eleitorado, menos emocional, que a beneficiaria.

Já começam a surgir questionamentos sobre a capacidade de Obama exercer com eficiência a Presidência da maior potência do mundo. É quase certo que seus dotes oratórios serão contestados com mais ênfase na segunda fase da campanha, quando terá que enfrentar o senador John McCain pelos republicanos.

E é isso que a campanha de Hillary vem discutindo com os “superdelegados” e também com alguns delegado seleitos que hoje apóiam Obama. Essa estratégia de cooptar delegados eleitos, embora permitida, não é bem vista, e oficialmente é negada pelo staff dos Clinton.

A revista inglesa “The Economist” pergunta na capa da edição da semana passada se Obama é capaz de entregar o que está prometendo, e ressalta que a possibilidade de ter que enfrentar McCain, cuja bravura e experiência em política internacional a revista destaca, é uma hipótese que deverá ser levada em conta pelos “superdelegados” na hora de definir a escolha do candidato democrata, caso a disputa chegue apertada à convenção.

Segundo a revista, a falta de experiência de Obama mostra que ele até o momento teve que saltar barreiras menos exigentes do que a de seus adversários, tanto Hillary Clinton quanto McCain: “Para salvação dos Estados Unidos (e do mundo), o obstáculo de Obama deve ser aumentado ou toda sorte de desapontamentos brutais podem vir a seguir”.

Também na “Newsweek”, o colunista Robert J. Samuelson escreve sobre o que classifica de “diferença entre sua retórica e a realidade de seus pontos de vista”.

Segundo Samuelson, o contraste entre “sua ampla retórica e sua estreita agenda” é claro, e a imprensa está tratando seu chamado por mudança como uma idéia séria e não apenas um slogan de campanha.

“Ele parece que hipnotizou a maior parte da mídia e do público com sua eloquência e o simbolismo de sua história de vida”, escreve o jornalista.

Mas aparentemente a senadora Hillary Clinton já não tem a força necessária, nem tempo, para convencer o eleitorado americano de que Obama não está preparado para governar, ou que não se governa apenas com palavras bonitas e idéias generosas.

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