terça-feira, fevereiro 26, 2008

Míriam Leitão - Arco de fogo


PANORAMA ECONÔMICO
O Globo
26/2/2008

A estranha entrevista da governadora Ana Julia Carepa é o retrato da ambigüidade comum no Brasil e que tem incentivado a destruição da Floresta Amazônica. "A atividade madeireira ilegal representa R$2 bilhões ao ano, 7% do PIB do Pará", disse ela; para depois acrescentar: "Não posso perder R$2 bilhões." E mais adiante: "Não queremos destruir a economia do estado."

Ana Julia contabiliza como parte do PIB um crime e diz que não pode abrir mão dessa receita e desta "atividade econômica". Um estado não pode viver de uma atividade criminosa. Depois, garante que combaterá o crime e que retirará a madeira protegida pela sublevação incentivada pelas madeireiras em Tailândia, nem que leve "20, 30, 50 dias", disse ela ao GLOBO.

Ou bem a governadora acha que o desmatamento é criminoso e ela, como representante maior do Estado do Pará, quer combatê-lo a qualquer preço; ou acha que é uma "atividade econômica" que representa 7% do PIB do estado e cuja extinção provocará perdas.

Essa dubiedade com que o ato criminoso é aceito não é apenas paraense. Se a ação que começou ontem no Pará e seguirá para Mato Grosso e Rondônia for para valer, outros setores irão reclamar com os mesmos argumentos: perda de PIB, atividade econômica, emprego, arrecadação, porque legalidade e ilegalidade se misturam. O desmatamento é apenas o crime em que isso fica mais explícito. O presidente Lula também tem sido ambíguo em suas declarações, como agora, quando praticamente absolveu o desmatamento dos assentamentos. O governador Blairo Maggi, que salta na frente dos seus colegas de ofício para absolver a todos e acusar a ministra Marina Silva e o Inpe, também tem sido ambíguo. O prefeito de Marcelândia, Adalberto Diamante, é madeireiro e é prefeito na cidade campeã da motosserra. Começou sua atividade política no PPS e foi para o PR, a mesma trajetória do governador Blairo Maggi.

No Rio, o carnaval é tratado como grande atividade econômica, e tem sido financiado desde sempre por um estranho consórcio que liga recursos públicos a dinheiro de atividades ilegais, como jogo do bicho e tráfico de drogas. A Mangueira, que um dia se apresentou como um oásis, hoje canta música de Tuchinha e o esconde através de saídas furtivas. O carro do Corpo de Bombeiros, pago com o seu, o meu, o nosso, carrega o campeão Aniz Abrahão David. Quando se quer mostrar que o país tem apego à moralidade, pune-se um descolado tapa-sexo.

A Operação Arco de Fogo foi avisada com antecedência aos criminosos. A ampla divulgação, de um mês, foi tempo suficiente para que eles tomassem a dianteira e escondessem o ilícito, mas, mesmo assim, nas vésperas da chegada das forças federais, a fiscalização do Ibama apreendeu em Sinop, como mostrou o repórter Evandro Éboli, do GLOBO, caminhão com madeira retirada de um assentamento. A declaração do fiscal ouvido pelo repórter diz tudo: "O crime ambiental compensa." Se não compensasse a tantos, não seria uma atividade com tantos defensores dentro de todos os governos, de todos os partidos e de todas as representações empresariais. Não haveria tantas liminares na Justiça garantindo os "direitos" dos criminosos. Os jornais exibiram, nos últimos dias, a "atividade econômica" do desmatamento em pleno funcionamento, mesmo com o aviso prévio do governo, numa demonstração de que eles têm certeza da impunidade.

Por tudo o que representa, a Operação Arco de Fogo é demarcatória. Se for feita a sério, se houver persistência, se realmente quebrar os elos da cadeia que liga a atividade criminosa à atividade legalizada do Brasil, se os financiamentos forem suspensos e os assentados forem impedidos de desmatar, haverá esperança.

A governadora Ana Julia Carepa tem razão de querer que o governo federal participe da construção de alternativas econômicas à atividade madeireira, que invista no combate ao crime, que trabalhe em consórcio com as autoridades policiais do estado. O que ela não pode é apresentar seu pedido desta forma tão esdrúxula, lamentando o fim da "atividade econômica" que gera os tais 7% do PIB. A maneira de apresentar o problema revela a ambigüidade que o Brasil tem que combater.

A governadora já chegou a defender "garantia de matéria-prima para as siderúrgicas" do Pará, na época em que a Vale ainda ameaçava suspender o fornecimento de minério de ferro para as que tinham práticas criminosas. Depois acertou o passo ao se juntar a quem combate a ilegalidade na área. A maior siderúrgica do pólo de ferro-gusa do Pará está operando com liminar. A Cosipar está lá há 25 anos. Foi autuada inúmeras vezes por carvão ilegal e por outros crimes ambientais, como no tratamento de afluentes ou na limpeza dos fornos. E isso vem ocorrendo há vários governos. O estado decidiu embargar o trabalho da siderúrgica porque ela estava claramente usando carvão ilegal proveniente de desmatamento. Ela recorreu e conseguiu liminar.

Só que a Vale também suspendeu o fornecimento de minério. Ela está operando com estoque que tinha e comprando de pequenas mineradoras. A Cosipar produz 70% do que o Pará produz de gusa e o destina à exportação para os Estados Unidos. Dos 2 milhões de toneladas de ferro-gusa, 1,5 milhão é produzido pela Cosipar.

A Operação Arco de Fogo pode ser o começo de uma grande notícia.

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