domingo, fevereiro 24, 2008

Miriam Leitão

Lições do acerto

Tancredo Neves disse emocionado: “Não pagaremos a dívida com o sangue do povo.” Negociadores brasileiros foram humilhados, como se fossem de um país caloteiro. Pedro Malan, antes de ser ministro, passou anos com paciência chinesa oferecendo aos credores um “menu de opções”. O ex-ministro Bresser Pereira foi enxotado de Washington quando fez uma proposta sensata

Pensei na minha geração de jornalistas de assuntos econômicos quando vi a notícia de que a dívida, afinal, era menor que os nossos ativos. Nos momentos de aflição e em todos os assuntos que acompanhamos em anos dos nossos “constrangimentos externos”.

Quando o Brasil quebrou em 82, quando quebrou de novo em 87, as maxidesvalorizações, os acordos seguidos com o Fundo Monetário Internacional, os jornalistas esperando no frio de Washington o que diriam as autoridades do Tesouro e do Fundo a mais um pedido de waiver: licença para não cumprir o acordo. Foi por isso que escrevi no blog: a minha geração viu quando a dívida engoliu o Brasil. Nada aconteceu de repente, há anos a dívida externa tinha deixado de ser o problema, mas o marco desta última semana não foi menos emocionante.

Foi longo o tempo desta história que nos levou da bola-de-neve da dívida no começo dos anos 80 à última quinta-feira, quando a dívida externa, pública e privada, representava um montante menor que os nossos ativos.

Isso não é tudo. A dívida interna cresceu muito, há outros passivos. Mas olhemos para trás para ver o que acertamos. As lições dos acertos são mais difíceis de tirar que as dos erros. Os acertos têm proprietários e eles preferem as explicações que privatizam o que é coletivo.

A dívida externa feita pelos militares era inevitável. Dinheiro barato, necessidade de investimento no país, Brasil em crescimento. Importamos poupança em forma de dívida. Ela estourou ainda no governo Figueiredo pelo peso dos juros americanos, que chegaram, no final dos anos 70, a níveis nunca vistos antes. Em setembro de 1982, o México declarou moratória; depois, nós. A quebradeira dos países latinos fez da região uma área de estagnação econômica.

Começou assim a era de cartas com o FMI, nunca cumpridas, desvalorizações cambiais, políticas recessivas para que, com os saldos, fosse possível pagar os juros da dívida. Só os juros, porque a bola-de-neve da dívida parecia cada vez mais impagável. Em 1987, fevereiro, o então ministro Dilson Funaro decretou nova moratória, que o governo José Sarney apresentou como ato de soberania. Era nada. Não pagávamos porque não tínhamos dinheiro.

O ministro Bresser Pereira assumiu o ministério três meses depois num país quebrado.

Desenhou uma engenharia de pagamento que embutia uma idéia nova: os credores aceitariam receber menos pela dívida e retomaríamos o pagamento.

Bresser ouviu do secretário do Tesouro James Baker que sua proposta era non star ter, ou seja, não dava nem para o começo de conversa.

Falso. Logo depois a mesma idéia foi apresentada pelo secretário que lhe sucedeu, Nicholas Brady. Virou a proposta Brady.

Foi isto que Pedro Malan foi negociar: a transformação dos papéis da dívida, tantas vezes caloteados, nos novos papéis, os Brady Bonds. Foi oferecido aos credores o tal “menu de opções”: papéis diversos pelos quais se podia trocar a dívida velha caloteada.

Antes disso, negociadores brasileiros amargavam um tratamento de quinta quando iam a Washington negociar a dívida. Funcionários do Banco Central administravam reservas, sempre insuficientes.

A luta contra a inflação teve que lançar mão do dólar como ponto fixo a partir do qual se construía uma nova mentalidade e se apagava a memória inflacionária.

Dólar barato levou a uma segunda onda de endividamento.

Essa nova dívida e os déficits em transações correntes levaram às crises cambiais do final dos anos 90. O Brasil teve que ir de novo a Washington, pedindo para ser “resgatado”, em 1998. Os novos empréstimos não evitaram a flutuação do câmbio em 1999. A velha dívida continuava no mercado e os C.Bonds eram fantasmas, lembrança dos velhos calotes; enquanto a nova dívida virava uma enorme onda sobre o Brasil.

A normalização da economia brasileira após o choque cambial, a flutuação do câmbio, o choque de produtividade que a economia nacional tinha passado nos anos 90 levaram aos saldos comerciais crescentes.

O Brasil, no final do governo Fernando Henrique, começou a recomprar sorrateiramente a dívida velha. Sendo assim, discretamente, o país se aproveitava do deságio: comprava ainda barato o que estava começando a se valorizar.

O governo Lula persistiu neste caminho: recompra de dívida, acumulação de reservas, aproveitando bem a nova onda de liquidez do mundo. Fez mais: pagou antecipadamente as dívidas com FMI, Banco Mundial, Clube de Paris. O PT, que durante toda a sua travessia pregara versões diferentes, algumas incendiárias, de não pagamento da dívida, acabou sendo o governo que pagou várias parcelas da dívida externa antes do vencimento.

Foi uma longa caminhada, com tropeços, humilhações, paciência, persistência, esta que nos leva de um devedor alquebrado no começo da década de 1980 a um país com dívida externa praticamente nula neste 2008. A grande lição que fica é que os acertos são como uma corrida de revezamento na qual cada governo, cada grupo no poder, faz uma parte do trajeto. Há outras missões, aparentemente impossíveis no Brasil, esperando que o país dê os primeiros passos da nova corrida.

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