sábado, fevereiro 23, 2008

Convenioduto

Acordos entre Ministério do Trabalho e entidades ligadas ao PDT cercam de graves suspeitas atuação do ministro Carlos Lupi

"FALHAS administrativas", para empregar a suave terminologia do presidente Lula, custaram a Matilde Ribeiro o cargo de ministra da Igualdade Racial. Sua participação no caso dos cartões corporativos, amplamente noticiada, não requer rememoração.
Seria interessante saber, entretanto, quais os termos que Lula empregaria para qualificar as decisões de outro ministro seu, o pedetista Carlos Lupi.
Inicialmente, sua presença na pasta do Trabalho não despertou maiores atenções, do ponto de vista ético, a não ser por uma questão de relevância discutível. Lupi era presidente do PDT quando foi nomeado ministro do Trabalho.
Continuou presidente do partido, e continua ministro, polemizando abertamente com os membros da Comissão de Ética Pública -o anêmico organismo federal encarregado de pronunciar-se, em suas reuniões mensais, sobre dilemas desse tipo.
Comentário recente nesta seção assinalava que, teoricamente, o acúmulo de cargos por si só não constituiria irregularidade comparável a tudo o que se conhece de escândalos na administração pública brasileira.
Da teoria à prática, todavia, o atual ministro do Trabalho deu mostras de passar sem perda de tempo.
De 30 de novembro de 2007 a 10 de janeiro de 2008, o ministério firmou convênios com 30 entidades para treinamento de jovens trabalhadores. Desse total, 12 organizações ligadas ao partido do ministro receberam R$ 70 milhões, quase a metade da verba para essa finalidade.
Entre as entidades contempladas pelo programa, contam-se, por exemplo, o Grupo Mulher Maravilha, de Pernambuco (R$ 2,3 milhões) e a Associação São Vicente de Paulo, da cidade paulista de Catanduva (R$ 4,07 milhões). A primeira foi recomendada por um deputado federal pedetista; a segunda é dirigida por um militante do partido, provável candidato a vice-prefeito nas próximas eleições.
Enquanto isso, o ministério também defende acordo com a Confederação Nacional de Trabalhadores Metalúrgicos, para um plano de recolocação de mão-de-obra. A CNTM é filiada à Força Sindical, que tem como presidente um pedetista, o deputado Paulo Pereira da Silva.
Reportagem da Folha revelou que o ministério de Lupi pretendia destinar ao programa gastos quase 100% maiores do que os do governo estadual para realizar o mesmo serviço. Tão logo noticiado o caso, providenciou-se um abatimento de emergência no montante a ser transferido -o que só vem acentuar as suspeitas de superfaturamento.
Desde a polêmica em torno dos dois cargos de Lupi, o presidente Lula vinha na prática desautorizando as recomendações da Comissão de Ética. Diante dos últimos fatos, o silêncio de Lula se mostra ainda mais intrigante. Talvez cogite de novos eufemismos para qualificar o convenioduto. "Falha administrativa", com certeza, é um termo que já não cabe repetir.

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