sábado, fevereiro 23, 2008

RUY CASTRO

Nascida em 10 de julho
RIO DE JANEIRO - A obsessão continua. Não se passa um dia, incluindo domingos e feriados, em que alguém não me escreva, telefone ou, expectante, aborde na rua querendo saber quando, como e com quem começou a bossa nova. É a grande interrogação nacional. Nada parece importar tanto.
É o único gênero musical de que se exigem dia e hora marcados para ter nascido. Não adianta explicar que essas coisas não costumam ter começo e que, assim como o Sol, a burrice humana ou o efeito estufa, a bossa nova é o resultado de um processo que envolveu muito tempo, muita gente e muita agitação -no caso, musical- antes dela.
O problema é que tal resposta estraga a efeméride que todo mundo quer comemorar: os 50 anos da bossa nova. Porque, se ela é um processo, este poderia ser o seu 65º aniversário, ou o 78º, o que seriam datas sem graça. Donde vamos ficar mesmo com 1958. Mas quando, como e com quem em 1958?
"Canção do Amor Demais", o lindo LP de Elizeth Cardoso gravado em fevereiro daquele ano, ainda não era, de fato, um disco "de bossa nova". Ali já estavam as canções de Tom e Vinicius, a batida especial do violão de João Gilberto em duas faixas, uma delas "Chega de Saudade", e um clima geral de "modernidade". Mas Elizeth, na sua grandeza, era uma cantora tradicional, chegada ao vibrato e que usava a voz inteira.
Cinco meses depois, a 10 de julho, o próprio João Gilberto gravou um single (em 78 e em 33 rpm) com "Chega de Saudade" e, no lado B, seu samba-baião "Bim Bom". Desta vez, um único disco reunia as canções, a batida do violão e o jeito diferente de enunciar do cantor. Tudo "bossa nova". O que viria depois, como a gravação de "Desafinado" em outubro e a das demais faixas de seu famoso primeiro LP, em 1959, seria apenas conseqüência do que ele acabara de dizer.

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