ISTAMBUL, Turquia.Crescem os indícios de que o governo dos Estados Unidos aumentou a pressão nos últimos dias sobre os países árabes com a intenção de esvaziar politicamente a reunião de cúpula Países Árabes-América do Sul, que o governo brasileiro realiza no próximo mês em Brasília. Esse será o primeiro encontro de dirigentes de países árabes e está sendo considerado como um ponto importante da política externa brasileira, uma mudança de conteúdo que visa especialmente a ampliar as relações comerciais com os países árabes, mas tem um inegável caráter político.
A primeira mudança desse nível aconteceu ainda no governo Geisel, nos anos 70, provocada pela crise do petróleo. A política externa independente que estava sendo implantada pelo chanceler Azeredo da Silveira e mais o pragmatismo econômico de uma equipe que vinha em boa parte da Petrobras com Geisel levou a uma aproximação com os países árabes naquele momento, em detrimento da prioridade que a política externa brasileira tradicionalmente sempre deu a Israel.
Desta vez há um componente político mais acentuado na raiz do desejo de uma política externa menos alinhada automaticamente aos Estados Unidos. Mas os interesses econômicos sem dúvida têm peso preponderante. O Brasil quer ampliar seu comércio exterior com os árabes, que nunca foram os alvos principais de nosso interesse. Essa aproximação vem causando malentendidos há algum tempo, pois o presidente Lula ainda não visitou Israel e já foi a vários países árabes, alguns deles politicamente polêmicos como a Líbia.
Depois de tentarem participar do encontro pelo menos em caráter de observadores, o que for recusado pelo Itamaraty sob alegação de que será uma reunião meramente comercial entre dois grupos regionais, os Estados Unidos passaram os últimos dias a tentar convencer alguns governos árabes com quem têm boas relações, como a Arábia Saudita, a Jordânia e o Kuait, de que a reunião de Brasília pode atrapalhar as negociações de paz no Oriente Médio.
O governo de Israel está extremamente preocupado com o encontro, em especial porque o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, foi convidado, o que tiraria da reunião o aspecto puramente econômico para dar-lhe um toque político indesejável do ponto de vista israelense. Há porém alguns países árabes que não são tão suscetíveis às pressões americanas, como o Marrocos ou a Argélia, e a queda-de-braço vai ocorrer nos bastidores. A intenção dos EUA é a de reduzir a representação de alguns países para tirar o peso político da reunião, na impossibilidade de inviabilizá-la.
O príncipe da Jordânia, El Hassan bin Talal, por exemplo, ao comentar a reunião de cúpula de Brasília aqui em Istambul, durante o seminário sobre o Islã realizado pela Academia da Latinidade, reduziu-lhe a expressão afirmando que não vê muita importância política nela. Talvez a ênfase que o Itamaraty vem dando ao caráter puramente comercial da cúpula possa dar pretexto a que alguns países enviem ao Brasil uma delegação com autoridades puramente econômicas, reduzindo a presença de chefes de Estado.
Por coincidência, na mesma semana em que as pressões americanas se fizeram sentir mais fortemente surgiram os primeiros sinais de que o governo americano pode não se manter neutro diante da discussão sobre a mudança na estrutura da Organização das Nações Unidas, especialmente na composição de seu Conselho de Segurança, onde o Brasil aspira ter um assento permanente. Apresentada pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan, em fevereiro, a proposta de mudança do Conselho de Segurança tem dois modelos, sendo que a que interessa ao Brasil ampliar de cinco para 11 os membros permanentes.
O Brasil se juntou à Alemanha, ao Japão e à Índia e esses quatro países se apresentam como “candidatos solidários”, aguardando ainda a adesão da África, que já acertou a aceitação de duas vagas para o continente, uma delas para a África do Sul. A outra pode ser do Egito ou da Nigéria. Essa proposta aparentemente tem o apoio da grande maioria dos membros da ONU e, como a alteração deve ser aprovada pela maioria em plenário, o poder de veto dos EUA não poderia ser usado. A questão é que alguns países-chaves se incomodam com essa solução e a reação da China à entrada do Japão é um exemplo típico dos problemas políticos que ela envolve.
A situação política delicada que as grandes demonstrações populares na China contra o Japão estão provocando pode atingir, indiretamente, as pretensões brasileiras de estar associado aos japoneses nessas reivindicações. A outra opção, a chamada proposta B, apresenta uma solução intermediária criando uma categoria de membros semipermanentes, que seriam eleitos por um período de dois anos, podendo ser reeleitos.
Essa fórmula daria chances a que potências médias, como a Argentina, o México e a Turquia, todos incomodados com a presença cada vez mais forte do Brasil no cenário internacional, pudessem também ter acesso ao Conselho de Segurança num sistema de rodízio mais prolongado. Os EUA têm também a grande desculpa de se dizerem em dificuldade para apoiar a pretensão do Brasil de ser o representante da América Latina em detrimento do México. O embaixador americano na ONU, John Bolton, um dos falcões mais conservadores do Departamento de Estado, sempre se declarou contra mudanças no Conselho de Segurança. A única mudança que ele aceitaria, disse certa vez com ironia, seria alterar o poder de veto dando-o a apenas um país: os Estados Unidos.
O GLOBO
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