O nepotismo nasceu na Itália, representando a força de sobrinhos do Papa na administração do Vaticano. Não seriam apenas sobrinhos: talvez também primos, etc. Especular sobre o etc. poderia dar em excomunhão.
É apenas coincidência que, quando os olhos do mundo estão voltados para Roma, estejamos aqui discutindo o nepotismo nativo e civil. Não será por ser novidade: ele chegou com Cabral, misturado às miçangas, e se espraiou mato adentro (língua danada esta nossa, que deixa alguma coisa espraiar-se para longe do mar, não?).
Um velho amigo sempre o defendeu, como necessário e benemérito: os inteligentes e bem preparados sempre podem se dar bem no mercado de trabalho. Para os fracos das idéias e os tímidos, como sobreviver sem o padrinho que garanta um nicho permanente no setor público? É a tese do nepotismo como política social. Tenho a impressão que vingou e ninguém reparou.
Escrevi aqui um artigo — a propósito da nomeação de um filho do presidente da Câmara — sustentando que o nepotismo é uma forma de abuso de poder. Seu beneficiário, se não for incompetente de carteirinha, deveria considerar o presente uma humilhação.
Fui contestado, e tenho a obrigação de reproduzir argumentos enviados de boa-fé e merecedores de atenção. Por exemplo, diz José Carlos Cavalcanti:
“Penso um pouco diferente sobre suas assertivas com relação a nepotismo e cargo de confiança. Ou a gente nomeia alguém de confiança, aí incluídos parentes e amigos, ou nomeia um desconhecido pelo simples fato de conhecimento técnico... Que sejam, é claro, criadas normas ou exigências para o cargo, mas nunca contra vínculo de qualquer natureza. Vale lembrar aqui o caso dos ministérios. Seria qualificado um médico como ministro da Economia?”
E diz Luciana Maria Rodrigues:
“...não consigo entender tanta indignação com o comportamento de Severino Cavalcanti. Podem chamá-lo de qualquer coisa: radical, nepotista, mas de hipócrita, jamais... Severino tem agido clara e objetivamente, não se preocupando em querer passar a imagem de bonzinho para ninguém, muito menos para a temida Imprensa. Tem usado e abusado do poder que alcançou, ou melhor, a que foi alçado, como qualquer outro político usaria e abusaria em seu lugar. Ele é resultado dele mesmo e do tipo de político que esse Brasil fabrica... Portanto, não há que se escandalizar com os atos de Severino Cavalcanti, pois ele tem sido, com todas as letras, politicamente honesto.”
São opiniões honestas, meditadas. Vale a pena contrastá-las com a acrobática resposta do chefe da Casa Civil a uma série de acusações de nepotismo contra petistas (nada a ver com o caso Severino). Segundo José Dirceu, todas as mulheres de graduados petistas que ocupam altos cargos só lá estão por merecimento. Vai-se ver, é um vezo do partido: os militantes seriam desde cedo instruídos a só namorar moças preparadas para qualquer apelo do Estado pelos seus serviços.
O cardeal do Planalto vai adiante e resume mais singelamente a norma ideal: para cargo de confiança deve ser nomeado alguém em que se confia. Um varão de Plutarco como Waldomiro Diniz, lembram-se dele?
O Globo
Entrevista:O Estado inteligente
- Índice atual:www.indicedeartigosetc.blogspot.com.br/
- INDICE ANTERIOR a Setembro 28, 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Arquivo do blog
-
▼
2005
(4606)
-
▼
abril
(386)
- VEJA Entrevista: Condoleezza Rice
- Diogo Mainardi:Vamos soltar os bandidos
- Tales Alvarenga:Espelho, espelho meu
- André Petry:Os corruptos de fé?
- Roberto Pompeu de Toledo:A jóia da coroa
- Baby, want you please come here - Shirley Horn, vo...
- O mapa da indústria GESNER OLIVEIRA-
- JANIO DE FREITAS:A fala do trono
- FERNANDO RODRIGUES:220 vezes "eu"
- CLÓVIS ROSSI :Distante e morno
- PRIMEIRA COLETIVA
- Dora Kramer:Lula reincorpora o candidato
- AUGUSTO NUNES :Entrevista antecipa tática do candi...
- Merval Pereira:Mãos de tesoura
- Miriam Leitão:Quase monólogo
- O dia em que o jornalismo político morreu
- Eles, que deram um pé no traseiro da teoria política
- Lucia Hippolito: O desejo de controlar as informações
- Goin way blues - McCoy Tyner, piano
- O novo ataque ao Copom - LUIZ CARLOS MENDONÇA DE B...
- JANIO DE FREITAS :Mensageira da crise
- FHC concedeu coletiva formal ao menos oito vezes
- CLÓVIS ROSSI :Todos são frágeis
- ELIANE CANTANHÊDE :Pelo mundo afora
- NELSON MOTTA:Coisas da política ou burrice mesmo?
- Dora Kramer: PFL quer espaço para Cesar
- Miriam Leitão:Dificuldade à vista
- Luiz Garcia :Tiros sem misericórdia?
- Merval Pereira:Barrando o terror
- Villas-Bôas Corrêa: A conversão de Severino
- Lucia Hippolito: A hora das explicações
- Let’s call this - Bruce Barth, piano
- CÂMBIO VALORIZADO
- CLÓVIS ROSSI :Quem manda na economia?
- ELIANE CANTANHÊDE :"Milhões desse tipo"
- DEMÉTRIO MAGNOLI:Preto no branco
- LUÍS NASSIF :As prestações sem juros
- Dora Kramer:À sombra dos bumerangues
- Miriam Leitão:Erro de identidade
- Merval Pereira:Sentimentos ambíguos
- Guilherme Fiuza:A culpa é do traseiro
- Georgia on my mind - Dave Brubeck, piano.
- Lucia Hippolito: Ele não sabe o que diz
- PALPITE INFELIZ
- TUDO POR UMA VAGA
- CLÓVIS ROSSI:Presidente também é 'comodista'
- FERNANDO RODRIGUES:Os traseiros de cada um
- "Liderança não se proclama", afirma FHC
- O dogma de são Copom- PAULO RABELLO DE CASTRO
- LUÍS NASSIF:Consumo e cidadania- ainda o "levantar...
- Dora Kramer:Borbulhas internacionais
- Zuenir Ventura:Minha pátria, minha língua
- ELIO GASPARI:Furlan e Bill Gates x Zé Dirceu
- Miriam Leitão: Nada trivial
- Merval Pereira:Palavras ao léu
- REFLEXOS DO BESTEIROL
- Villas-Bôas Corrêa: A greve das nádegas
- AUGUSTO NUNES:O Aerolula pousa no mundo da Lua
- VEJA:Jorge Gerdau Johannpeter
- XICO GRAZIANO:Paulada no agricultor
- Por que ele não levanta o traseiro da cadeira e fa...
- Lucia Hippolito: Eterno enquanto dure
- Luiz Garcia:Sandices em pleno vôo
- Arnaldo Jabor:Festival de Besteira que Assola o País
- Miriam Leitão:Economia esfria
- Merval Pereira:Liberou geral
- GUERRA PETISTA
- Clóvis Rossi:Apenas band-aid
- ELIANE CANTANHÊDE:De Brasília para o mundo
- JANIO DE FREITAS:Os co-irmãos
- Dora Kramer: Sai reforma, entra ‘mudança pontual’
- AUGUSTO NUNES O pêndulo que oscila sobre nós
- Resgate em Quito (filme de segunda)
- Round midnight - Emil Virklicky, piano; Juraf Bart...
- Reforma política, já- Lucia Hippolito
- INCERTEZA NOS EUA
- VINICIUS TORRES FREIRE :Bento, Bush e blogs
- FERNANDO RODRIGUES: Revisão constitucional
- Os trabalhos e os dias- MARCO ANTONIO VILLA
- Zelão / O Morro Não Tem Vez - Cláudia Telles
- Fora de propósito
- JOÃO UBALDO RIBEIRO:Viva o povo brasileiro
- Merval Pereira: O desafio das metrópoles
- Miriam Leitão:Música e trégua
- DEMOCRACIA INACABADA
- GOLPE E ASILO POLÍTICO
- CLÓVIS ROSSI:A corrida pela esperança
- ELIANE CANTANHÊDE:Asilo já!
- ANTÔNIO ERMÍRIO DE MORAES: Reforma tributária e ga...
- ELIO GASPARI:A boca-livre deve ir para Quito
- JANIO DE FREITAS:Sonho de potência
- LUÍS NASSIF Racismo esportivo
- Quando as cidades dão certo - JOSÉ ALEXANDRE SCHEI...
- AUGUSTO NUNES: O encontro que Lula evita há dois anos
- O depoimento de uma brasileira no Equador
- Sabiá - Elis Regina]
- Diogo Mainardi:A revolução geriátrica
- Tales Alvarenga:Assume mas não leva
- André Petry: Isso é que é racismo
- Roberto Pompeu de Toledo:Fato extraordinário:um pa...
-
▼
abril
(386)
- Blog do Lampreia
- Caio Blinder
- Adriano Pires
- Democracia Politica e novo reformismo
- Blog do VILLA
- Augusto Nunes
- Reinaldo Azevedo
- Conteudo Livre
- Indice anterior a 4 dezembro de 2005
- Google News
- INDICE ATUALIZADO
- INDICE ATE4 DEZEMBRO 2005
- Blog Noblat
- e-agora
- CLIPPING DE NOTICIAS
- truthout
- BLOG JOSIAS DE SOUZA
Nenhum comentário:
Postar um comentário