Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, abril 19, 2005

Luiz Garcia:Só confiar em quem se confia

O nepotismo nasceu na Itália, representando a força de sobrinhos do Papa na administração do Vaticano. Não seriam apenas sobrinhos: talvez também primos, etc. Especular sobre o etc. poderia dar em excomunhão.


É apenas coincidência que, quando os olhos do mundo estão voltados para Roma, estejamos aqui discutindo o nepotismo nativo e civil. Não será por ser novidade: ele chegou com Cabral, misturado às miçangas, e se espraiou mato adentro (língua danada esta nossa, que deixa alguma coisa espraiar-se para longe do mar, não?).

Um velho amigo sempre o defendeu, como necessário e benemérito: os inteligentes e bem preparados sempre podem se dar bem no mercado de trabalho. Para os fracos das idéias e os tímidos, como sobreviver sem o padrinho que garanta um nicho permanente no setor público? É a tese do nepotismo como política social. Tenho a impressão que vingou e ninguém reparou.

Escrevi aqui um artigo — a propósito da nomeação de um filho do presidente da Câmara — sustentando que o nepotismo é uma forma de abuso de poder. Seu beneficiário, se não for incompetente de carteirinha, deveria considerar o presente uma humilhação.

Fui contestado, e tenho a obrigação de reproduzir argumentos enviados de boa-fé e merecedores de atenção. Por exemplo, diz José Carlos Cavalcanti:

“Penso um pouco diferente sobre suas assertivas com relação a nepotismo e cargo de confiança. Ou a gente nomeia alguém de confiança, aí incluídos parentes e amigos, ou nomeia um desconhecido pelo simples fato de conhecimento técnico... Que sejam, é claro, criadas normas ou exigências para o cargo, mas nunca contra vínculo de qualquer natureza. Vale lembrar aqui o caso dos ministérios. Seria qualificado um médico como ministro da Economia?”

E diz Luciana Maria Rodrigues:

“...não consigo entender tanta indignação com o comportamento de Severino Cavalcanti. Podem chamá-lo de qualquer coisa: radical, nepotista, mas de hipócrita, jamais... Severino tem agido clara e objetivamente, não se preocupando em querer passar a imagem de bonzinho para ninguém, muito menos para a temida Imprensa. Tem usado e abusado do poder que alcançou, ou melhor, a que foi alçado, como qualquer outro político usaria e abusaria em seu lugar. Ele é resultado dele mesmo e do tipo de político que esse Brasil fabrica... Portanto, não há que se escandalizar com os atos de Severino Cavalcanti, pois ele tem sido, com todas as letras, politicamente honesto.”

São opiniões honestas, meditadas. Vale a pena contrastá-las com a acrobática resposta do chefe da Casa Civil a uma série de acusações de nepotismo contra petistas (nada a ver com o caso Severino). Segundo José Dirceu, todas as mulheres de graduados petistas que ocupam altos cargos só lá estão por merecimento. Vai-se ver, é um vezo do partido: os militantes seriam desde cedo instruídos a só namorar moças preparadas para qualquer apelo do Estado pelos seus serviços.

O cardeal do Planalto vai adiante e resume mais singelamente a norma ideal: para cargo de confiança deve ser nomeado alguém em que se confia. Um varão de Plutarco como Waldomiro Diniz, lembram-se dele?



O Globo

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