Entrevista:O Estado inteligente

domingo, abril 17, 2005

CLÓVIS ROSSI:Só faltam as cartomantes



ROMA - A Itália está metida em uma baita confusão. A razão de fundo é a derrota do governo Silvio Berlusconi nas eleições regionais de 15 dias atrás (dos 13 governos regionais em jogo, a oposição fez 11).
Mas há um complicador de fundo econômico: o governo não fez o que, no Brasil, costuma ser chamado eufemisticamente de "lição de casa". Pela primeira vez em sete anos, o déficit público ultrapassará a marca fatal de 3% do PIB, o limite determinado pelo Tratado de Maastricht para impor rigor fiscal aos países-membros da zona do euro.
Já houve ameaça da Comissão Européia de impor as sanções previstas no tratado, já houve críticas do Fundo Monetário Internacional, mas é tudo. O fato de a Itália não estar fazendo a "lição de casa" não provocou nenhuma tempestade, nenhuma tentativa de desestabilização.
Já sei que os "cabeças de planilha" de plantão correrão para dizer: ah, mas a Itália é outra coisa, é uma economia desenvolvida, tem formas de financiamento do déficit de forma não-inflacionária, enfim o bê-á-bá que é tudo o que sabem.
É verdade, mas é igualmente verdade que, para chegar ao estágio em que está a Itália, o Brasil, mais cedo que tarde, terá que se livrar da tutela da "lição de casa" sob pena de palmatória, ajoelhar no milho ou coisas bem piores, como já se viu em passado recente.
Ou vai conquistando autonomia para fazer a política econômica de acordo com as necessidades do país -e não para agradar os credores- ou vai ficar até o final dos tempos na patética situação que o próprio ministro Palocci descreveu na sexta-feira em Washington: "A gente reza para que esses ajustes [no mundo rico] sejam feitos de forma ordenada".
Rezar não é exatamente o que se entende por política econômica. O próximo passo é consultar cartomante, jogar búzios...

Folha de S.Paulo

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