domingo, março 16, 2008

VEJA Carta ao leitor


"Dêem-me os seus pobres..."

Apu Gomes/Folha Imagem, Cotidiano
Brasileiros deportados pela Espanha


Uma reportagem da presente edição de VEJA sobre a deportação de brasileiros pela Espanha e a retaliação igualmente ríspida das autoridades do Brasil mostra que as escaramuças na imigração, infelizmente, tendem a piorar. É cruel permitir que uma pessoa passe longas horas em um avião apenas para descobrir que terá de voltar para casa imediatamente ao apresentar seu passaporte no aeroporto do país visitado. No entanto, em um clássico momento de insensatez, os países, independentemente da ideologia dos seus governantes, estão estreitando as portas de entrada – e, o que é pior, com amplo apoio popular. Quando se fala em dificultar a entrada de estrangeiros, Espanha, Inglaterra, Estados Unidos, Rússia, Brasil ou Japão reagem com a mesma veemência.

É uma pena que, em muitos casos, seja assim e tenha de ser assim, pois os fluxos migratórios podem ser altamente desestabilizadores para os países que os recebem. A experiência mostra, no entanto, que nada cria mais riqueza do que o livre trânsito de pessoas. Nada gera mais idéias originais do que o encontro de correntes de pensamento diferentes em um mesmo ambiente geográfico, sob um regime democrático e economicamente livre. Quem mais acreditou nessa idéia no passado foram os Estados Unidos. Na base da Estátua da Liberdade estão gravadas as frases famosas do poema de Emma Lazarus: "Dêem-me os seus pobres e exaustos / Suas multidões oprimidas...". Os Estados Unidos são considerados hoje um país bem mais fechado – embora em doze dias recebam o mesmo número de imigrantes que o Brasil em um ano. Ainda assim, quase metade dos Ph.Ds. e um terço de todos os físicos americanos agraciados com o Prêmio Nobel nos últimos sete anos são imigrantes.

Variam de estudo para estudo os graus de benefícios sociais e econômicos que seriam produzidos caso o trânsito de pessoas no mundo se tornasse totalmente livre da noite para o dia. As simulações mostram que essa situação utópica e idealista, se adotada universalmente ao mesmo tempo por todos os países, acabaria gerando mais equilíbrio e riqueza global. Mas está-se muito longe disso em um mundo onde o "inferno são os outros" e as diferenças são tiradas, com uma pitada de vingança, nas cabines de imigração dos aeroportos.

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