domingo, março 30, 2008

Gaudêncio Torquato O fogo e a água


No Brasil os extremos se cruzam com facilidade em muitos espaços do território, mas é nas metrópoles que eles se dão as mãos. São Paulo bate o recorde de congestionamento no trânsito: 222 km de lentidão num dia chuvoso deste mês de março. O Estado do Rio de Janeiro rompe a barreira de 2007 e o mosquito da dengue ataca 42 mil pessoas, deixando mais de 50 mortos neste primeiro trimestre. O presidente Luiz Inácio corre o País exibindo seu Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), de R$ 503 bilhões, que a população de Niterói aponta como a principal ação do governo na região. Detalhe: naquela cidade não há nenhuma obra do programa. O Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) revela que apenas 4,3% dos alunos do terceiro ano do ensino médio conseguem saber quantos comprimidos um paciente deve ingerir por dia se a receita indica um a cada seis horas. O Banco Central anuncia que o volume de crédito fechará este ano com um recorde: 40% do PIB, R$ 1,1 trilhão, uma dinheirama para abrir as comportas do consumo. Sob essa moldura se escondem as duas faces do País. A visão de superfície é misto de riqueza e futuro. O olhar nas profundezas da Nação é o encontro da pobreza com o passado.

Estamos diante da fábula do fogo. Considerando-se elemento superior, o fogo se ofende porque a água, na panela, está acima dele. Despeitado, começa a erguer cada vez mais alto suas chamas até provocar a ebulição da água, que, transbordando da panela, o extingue. O Brasil é palco permanente da disputa entre o fogo e a água, o Yin e o Yang, o positivo e o negativo, o lado moderno e a banda retrógrada. Ao conforto de exuberante economia, que o atual governo faz questão de defender como trunfo de sua competência, se contrapõe o desconforto da maior epidemia de dengue da História brasileira, que se espraia sob os escombros da precária estrutura de saúde pública e da troca de acusações entre autoridades federais, estaduais e municipais, cada uma se eximindo da culpa pela proliferação de um mosquitinho que em 2007 povoou todas as regiões para cavar um cemitério de 158 mortos. O bichinho, portanto, dera o aviso de que voltaria. E voltou debaixo da chuva de desculpas das autoridades: “São as águas de março.”

É incrível, porém, verdadeiro. As duas maiores capitais do País, com orçamentos extraordinários e administrações que se vangloriam de êxitos, atravessam um dos mais angustiantes ciclos de sua vida. São Paulo, com 10 milhões de habitantes, é a perfeita imagem do caos. Corredores se entopem de carros em todos os horários. Ao lado dos 700 veículos novos e 240 motos que entram diariamente no trânsito (vindo a se somar aos 6 milhões que circulam na Grande São Paulo), uma comunidade de 150 mil habitantes - fruto de imigrantes e nascimentos - se incorpora anualmente ao apertado espaço. Não é de estranhar que a média de mortes por atropelamentos em São Paulo seja três vezes maior que a da Inglaterra, dos EUA e do Canadá. As equações para atenuar o congestionamento são tênues e até polêmicas, como esta última aventada pelo prefeito Gilberto Kassab, de ampliar o rodízio para quatro horas. O uso de um segundo carro invalida a medida. Esbarra-se sempre na questão: o casuísmo predomina e não se contemplam as várias frentes que interferem na cadeia de problemas, a partir de legislação adequada para uso do sistema viário e combate à especulação urbana.

Se o País não fosse tão imprevisível, com planejamento tão voltado para o imediatismo e administração tão inspirada no democratismo populista, poderíamos ter políticas sólidas. Bastaria, por exemplo, que candidatos a governante passassem no vestibular eleitoral expressando visões sobre as graves questões das municipalidades. É inaceitável que os alcaides das duas maiores metrópoles brasileiras não saibam o que e como fazer para aliviar o tormento das populações. No Rio de Janeiro, o prefeito César Maia dá flechadas no ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que chama de falastrão. O termo pejorativo não ajuda a matar um mosquito sequer. Em São Paulo, a administração municipal não sabe como diminuir a principal dor de cabeça de milhões de paulistanos estressados nas ruas.

As aflições seriam menores se o processo de escolha dos dirigentes adotasse o figurino racional: candidatos obrigados a apresentar nas campanhas um programa a ser executado pela prefeitura sob rígido controle das Câmaras Municipais e fiscalizado pela sociedade. Aclaremos a idéia: a verborragia de cada postulante daria lugar à exposição detalhada de ações para debelar os problemas. Entidades de respeito seriam convocadas para acompanhar as exposições e os debates seriam avaliados por especialistas que julgariam a eficiência e a viabilidade das propostas. A mídia daria ampla publicidade aos programas de cada um. Para aumentar a conscientização seriam selecionadas apenas as linhas de ação mais estratégicas e vitais para a população. Ao final de ampla discussão, parcela do eleitorado teria condições de comparar as visões, selecionando as melhores. Hoje não é assim. Os pontos de vista são fragmentados. E os debates televisivos obedecem a formatos que não contemplam equilibrada comparação entre perfis e programas.

A próxima campanha poderia dedicar-se ao Brasil profundo, ainda abatido por doenças do século 19, imerso no estresse das cidades e destroçado por precárias estruturas de serviços públicos. Não há explicação para ainda abrigarmos 8,2 milhões de pessoas que não sabem ler nem escrever ou 25 milhões de analfabetos funcionais, que não compreendem o que lêem.

Os homens públicos deveriam aprender a lição: suas fogueiras de vaidade não resistem à água em ebulição. Não adianta acender tochas para exaltar feitos. As chuvas de março, escancarando as comportas da dengue no Rio e tumultuando ainda mais o trânsito paulistano, apagam o fogo das glórias pessoais.

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