sábado, março 29, 2008

Merval Pereira Aliança ética no Rio

O governador Sérgio Cabral recusa qualquer tipo de insinuação de que, ao lançar a chapa PT-PMDB para a prefeitura do Rio, rompendo um acordo com o Democratas, tenha a intenção de facilitar o caminho do bispo Marcelo Crivella do PR, de quem recebeu apoio na eleição de 2006, em troca de apoiá-lo agora na corrida para a prefeitura. A desconfiança sobre essa manobra indireta, registrada aqui na coluna, logo no dia em que o acordo com o governo federal foi anunciado, continua na cabeça de muita gente boa da política do Rio, embora o próprio Crivella venha revelando irritação com a mudança do presidente Lula, de quem esperava o apoio ainda no primeiro turno, porque o PT teria uma candidatura “não competitiva”.

O fato de o mesmo deputado estadual Alessandro Molon transformar-se, da noite para o dia, de candidato descartável a um dos favoritos da disputa, graças a essa mudança de ventos, não convence algumas lideranças políticas cariocas, que vêem na disposição do PMDB de dar apenas o vice da chapa uma indicação de que a manobra não seria para valer.
O governador Sérgio Cabral refuta essa análise: “Estamos construindo no Rio uma nova forma de fazer política, de conceber as alianças visando o bem público.
Com desprendimento na preocupação de quem ocupa a cabeça de chapa”. Segundo o governador, Alessandro Molon e Regis Fitchner são dois nomes “indiscutíveis do ponto de vista moral e ético, mas também na capacidade de fazer e interagir”.
Cabral se diz entusiasmado com essa chapa “que reproduz o grande momento que o estado vive”. Uma aliança eleitoral entre ele e o presidente Lula que é “traduzida nestes quinze meses em um volume de investimentos públicos, inacreditáveis até pouco tempo atrás. A cidade merece, e o meu entusiasmo é total”, comemora.
Na análise do governador Sérgio Cabral, ele tinha no secretário de Esportes, Eduardo Paes, “um excelente candidato a prefeito, um dos políticos mais qualificados da nova geração no Brasil”.
Alega, porém, que “as circunstâncias” não permitiram materializar o seu desejo.
Mas diz que a solução, “como deveria ser, até em homenagem ao próprio Eduardo, foi de enorme grandeza política”.
O governador declara que ama o Rio, que chama de “a minha cidade” e se sente, “como agente político”, na obrigação de “resgatála de um processo de isolacionismo que tem feito muito mal a ela”.
A caracterização da chapa Molon-Fitchner como representante de uma corrente ética na política tem razão de ser, embora não esteja explicado ainda o papel que desempenha nessa manobra o deputado estadual Jorge Piccianni, adversário político até recentemente do deputado Alessandro Molon.
Se nenhum dos dois mudou de procedimentos políticos, não há razão para que Molon sinta-se confortável em ter o apoio de Piccianni.
Se alguém mudou a ponto de permitir essa estranha união, será preciso saber quem mudou, para ter certeza de que a chancela ética prevaleceu nas negociações.
Para corroborar a tese do governador do Rio, o economista da UFRJ Mauro Osório, especialista em planejamento urbano, estudioso, sobretudo, do Estado do Rio, diz que “podemos ter um olhar diferente das razões do apoio do Sérgio Cabral ao Molon”.
Conhecendo bem o nível de clientelismo do PMDB fluminense, Mauro Osório acredita que essa aliança “aponte o compromisso do Sérgio Cabral, e seu entendimento da necessidade, até para sua sobrevivência política, de uma ruptura com a trajetória do Estado do Rio de Janeiro, do ponto de vista político e econômico, a partir dos anos 60”.
Mauro Osório diz que com a perda da capital e as cassações “que na região tiveram a particularidade de atingir não apenas a esquerda, mas também a UDN, a partir do rompimento de Lacerda com o regime militar e sua aliança com Juscelino e Jango na Frente Ampla” geraram um marco de poder particularmente clientelista na região.
Ele lembra a declaração da ex-governadora Rosinha, em 2003, perguntando por que no Rio de Janeiro, após o chaguismo e o brizolismo, não poderia haver “o garotismo”.
Como estudioso, diz que não se surpreende com o fato de que “nesse quadro de clientela, desestruturação da máquina pública estadual e particular fragilidade da rede de saúde na periferia da cidade do Rio de Janeiro, esteja o nosso estado nas piores posições em termos de indicadores de dengue, na companhia de regiões que têm as piores rendas per capita do país, como o Piauí e o Maranhão”.
Ele ressalta que “a particular precariedade da periferia do Rio revela-se, por exemplo, quando fazemos uma comparação dos indicadores da periferia da Região Metropolitana do Rio de Janeiro com a periferia da Região Metropolitana de Belo Horizonte e da de São Paulo”.
Segundo ele, um ranking dos resultados das cidades com mais de 50 mil habitantes nessas três regiões metropolitanas, em 2005, indica, por exemplo, que na educação fundamental, “os doze piores resultados estão na periferia da Região Metropolitana do Rio”.
Também entre os municípios que mais dependem da receita pública municipal para a contabilização do seu PIB, pela falta de dinamismo do setor privado, “sete dos dez piores resultados estão na periferia da Região Metropolitana do Rio em 2005”.
Por mais que represente uma mudança, e conte com o apoio do presidente Lula, a união do PT com o PMDB no Rio ainda terá que passar por uma série de obstáculos, desde uma disputa interna no PMDB, até a consolidação de alianças pelos diversos municípios do Estado do Rio em que os interesses das duas legendas são conflitantes.

(Continua amanhã).

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