quarta-feira, março 26, 2008

Clóvis Rossi - Memórias e vergonhas




Folha de S. Paulo
26/3/2008

Quando a revista "Veja" publicou a famosa entrevista com Pedro Collor de Mello, que acabaria por levar o irmão-presidente ao impeachment, eu era correspondente desta Folha em Madri. No domingo em que a revista começou a circular, Alon Feuerwerker, então no comando da Sucursal da Folha em Brasília, me ligou com uma ordem: "Quero você em Brasília amanhã de manhã".
Peguei o primeiro vôo Madri/ Lisboa, para fazer em Portugal a conexão para o Rio. Mal me ajeitei no assento, notei os folhetos alertando os passageiros sobre os riscos da febre amarela, o surto da vez no Brasil. Pouco depois, o serviço de som reforçou o alerta.
Senti o que os espanhóis chamam de "vergüenza ajena", vergonha pelos outros. No caso, na verdade, pelos meus patrícios, por em pleno final do século 20 ainda sermos vítimas de pragas com ecos medievais, na saúde, e da praga eterna da corrupção, na política.
Dezesseis anos, três presidentes e cinco mandatos depois, nem preciso entrar num avião para de novo sentir vergonha. Basta ver o "Jornal Nacional", na segunda, com todas as cenas explícitas do primitivismo tropical que ele exibiu.
Ou ler o artigo de Cecilia Gianetti, nesta Folha, em que ela, com duas dengues no currículo, reclama: "Gostaria que estivéssemos num tempo em que alguém pudesse me acusar de alarmista. Antes fosse exagero meu, e não abandono. Abandono é novamente a palavra que define esta velha-nova estação (...e) a lentidão das autoridades a lidar com a epidemia que já fez neste ano mais de 23 mil doentes só na capital".
Lembro que um dos textos meus que a censura cortou falava de um surto de meningite em São Paulo, há quase 40 anos. Não são, pois, 16 anos, 3 presidentes, 5 mandatos. É mais tempo, é ditadura, é democracia. É abandono, é lentidão.

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