sexta-feira, março 28, 2008

Luiz Garcia - Coisas municipais



O Globo
28/3/2008

Para quem não é do ramo, as idas e vindas da política municipal deveriam ser relativamente mais fáceis de entender do que acordos e desacordos federais.

Tem de fazer alguma diferença o fato de que tudo se passa mais perto da gente. Com certeza sentimos com rapidez, na carne e no bolso, as conseqüências de êxitos e acertos, trampas e tramóias dos nossos políticos.

E sempre é importante esmiuçar fatos novos inesperados. Como a mudança desta semana no quadro de candidatos a prefeito do Rio, com a detonação da candidatura de Eduardo Paes pelo governador Sérgio Cabral, seu padrinho político até outro dia.

Paes tem estrada. Começou como cria do prefeito Cesar Maia, andou pelo Partido Verde, foi vereador e deputado federal pelo PFL, passou para o PTB, voltou ao PFL, andou pelo PSDB e no ano passado aterrissou no PMDB. Em recompensa pelo apoio à eleição de Sérgio Cabral Filho foi nomeado secretário de Turismo e apontado como candidato do partido a prefeito do Rio.

Mas acabou caindo mais depressa do que subira: o governador fez outro dia um acordo com o PT, cujo candidato a prefeito apoiará, em troca da escolha de um peemedebista para candidato a vice-prefeito. O pobre do Paes nem entrou na disputa pela candidatura a vice.

O petista é o deputado Alessandro Molon, cuja biografia inclui pesada oposição ao governo de Rosinha Garotinho. Palmas para ele. O pessoal diz que é reduzida a possibilidade de problemas no PMDB, onde Garotinho e esposa ainda estão acampados. Parece que Sérgio Cabral tem competência política de sobra para neutralizar a dupla, que está em queda livre há muito tempo. Principalmente, depois da comicamente falsa greve de fome do cabeça do casal.

A troca de candidatos no PMDB coincide com o crepúsculo do grupo de Cesar Maia, berço político do detonado Eduardo Paes. E parece ser coincidência mesmo: o prefeito, por decisão inteiramente pessoal e sem nada a ver com a sucessão, há algum tempo desistiu de administrar a cidade, pelo menos de corpo presente. Os munícipes perderam o direito de ver o seu prefeito em ação: podem apenas tomar conhecimento de seus palpites - sobre tudo e qualquer coisa - no blog que ocupa quase todo o seu tempo.

Esta semana, Cesar mostrou que o distanciamento da realidade pode ter preço alto. Ele saiu em campo para negar, com peremptória indignação, que haja surto de dengue no Rio. Simplesmente ignorou as 31 mortes confirmadas no município, onde o total de doentes já passa de 28 mil.

Um administrador público dar as costas à realidade é problema grave. Por esse motivo, entre vários outros, há claros e tristes indícios de que o novo prefeito receberá uma casa bastante desarrumada para administrar.

O que aumenta bastante a nossa responsabilidade na hora do voto. E a dos partidos, na escolha dos candidatos.

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