Entrevista:O Estado inteligente

Mostrando postagens com marcador VEJA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador VEJA. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, julho 18, 2011

Os mistérios de Chalita

VEJA
O que está claro: ele é vaidoso, rico e escreve livros com a mesma velocidade com que muda de partido. Já a lista das incógnitas que cercam o pré-candidato do PMDB a prefeito de São Paulo é mais extensa

Esso, esso, esso, Gabriel Chalita é um sucesso. Na literatura, ele é tão prolífico que deixa na lanterna gigantes como Machado de Assis e Honoré de Balzac. Machado produziu 38 obras em 69 anos de vida e o novelista francês, 89 em 51 anos. Chalitaa já deixou os dois para trás: aos 42 anos, publicou 54 títulos, todos com um estilo marcado pelo forte apego às frases feitas e por um fraquinho pelos diminutivos. Como político, sua trajetória não tem sido menos espetaculosa: eleito vereador aos 19 anos por Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo, ele se tornou o terceiro deputado mais votado do Brasil no ano passado, logo atrás do palhaço Tiririca. Hoje, é pré-candidato a prefeito de São Paulo. De qualquer ângulo que se observe - por cima, por baixo, entre, como diria o filósofo Caetano Veloso -, Chalita é um portento. Mas o fato de ele escrever como faz política e de fazer política como escreve não é suficiente para lhe emprestar contornos mais, digamos, assumidos. A controvérsia e a incógnita marcam as duas faces do deputado e escritor.

Saber, por exemplo, quantos livros Chalita vendeu é uma tarefa árdua. Perguntado, o escritor responde sempre: "Pelos meus cálculos, foram uns 10 milhões". A marca o colocaria à frente de J.K. Rowling, autora da série Harry Potter (3,6 milhões de exemplares vendidos no Brasil), e próximo de Augusto Cury, fenômeno editorial da década (11 milhões de livros vendidos desde 2002). A pedido de Chalita, suas editoras também não divulgam os seus números de venda. Uma espiada nas planilhas da rede de livrarias Saraiva, no entanto, autoriza a suspeita de que o cálculo não é o forte de Chalita. Considerada um termômetro do mercado editorial, a Saraiva negociou apenas 70000 exemplares do autor nos últimos três anos.

Se não é bom com números, Chalita tampouco consegue ser preciso em suas citações. No ano passado, ao reeditar Carras entre Amigos - escrito em parceria com o padre Fábio de Melo, seu amigo do peito -, a editora Globo teve de extirpar da versão original duas passagens erroneamente atribuídas a Machado de Assis e Cora Coralina. Infelizmente, para os leitores do deputado, outras escaparam aos olhos dos revisores (veja o quadro na pág. 84). Usuário obsessivo do Twitter, Chalita escreve mensagenzinhas a cada quinze minutinhos, em mediazinha. São, em geral, frases de conteúdo "literário-filosófico", como ele gosta de classificá-las, algumas vezes retiradas de seus próprios livros ("Eu te amo". Se tiver dúvida, não diga. Se tiver certeza, não economize" ou "Matérias-primas de que somos feitos são duas, paradoxalmente duas: pó e amor! O pó nos iguala. O amor nos identifica"). Sem maldade, pessoal: o pó de Chalita é, no máximo, o de pirlimpimpim.

O deputado não bebe e não sai muito à noite. mas é festeiro à sua moda. Gosta de celebrar cada compra de um imóvel ou reforma de apartamento. Em 2004, então secretário de Educação de Geraldo Alckmin, seu padrinho político, ele convidou seis assessores para uma "inauguração-surpresa" em seu dúplex no bairro de Higienópolis. "Quando chegamos lá, soubemos que a inauguração era da nova banheira de hidromassagem dele", conta um dos convidados. Vestido com um robe de chambre, Chalita levou o grupo à sua suíte. onde a banheira estava instalada. Lá, anunciou que iria mostrar "como se banha um homem de estado". Em seguida, tirou o robe e, tchibum-tchibum, de sunga, deslizou para dentro d"água. Para sua decepção, um curto-circuito impediu o funcionamento da hidromassagem e pôs um fim abrupto à celebração.

Católico, Chalita conta que na juventude queria ser padre, mas, com a entrada na política, trocou a batina pelo terno (hoje, ele prefere os Armani). Vaidoso, orgulha-se da "barriga tanquinho", conquistada à base de muuuita malhação. Um assessor que ele considerou "fora de forma" já teve de acompanhá-lo em uma de suas habituais caminhadas aceleradas de 5 quilômetros em São Paulo - e nem o fato de estar trajando roupa e sapatos sociais o salvou da vigorosa experiência estética.

Na política, guardadas as devidas proporções, Chalita troca de partido quase com a mesma frequência com que lança um livro novo. Até agora, foram três mudanças de sigla. Começou no PDT, foi para o PSDB, passou pelo PSB e acaba de filiar-se ao PMDB. Trata-se de uma união de mútuas e significativas vantagens, em que o deputado já chega com status de pré-candidato a prefeito da maior cidade do país e na qual o PMDB poderá ganhar do PT e do governo federal algo que o interesse - e todo mundo sabe que algo é esse - em troca da desistência da candidatura Chalita. Mesmo sendo um nome emergente no cenário nacional, o deputado compartilha ao menos uma característica com veteranos de Brasília. Seus últimos onze anos de vida pública coincidem com uma notável evolução patrimonial. Os 741000 reais em bens que declarava possuir em 2000 transformaram-se em 7 milhões de reais em 2008 e hoje chegam a 15 milhões, uma variação de 1925%. Chalita atribui a prosperidade galopante às palestras que ministra pelo Brasil aos 10 milhões de livros que "estima" ter vendido e ao "salário impressionante" que recebeu como diretor de escolas e professor de faculdades particulares até o fim da década de 90 ("Uns 20000 dólares mensais, pelos meus cálculos"). O dúplex onde ele mora em São Paulo está avaliado em 6 milhões de reais. Tem 1000 metros quadrados, piscina coberta com teto retrátil, oito vagas na garagem e uma academia de ginástica, montada com a orientação de Fabio Sabá, seu ex-personal trainer alçado a secretário adjunto de Educação de São Paulo quando Chalita era titular da pasta. Há um mês, ele adquiriu um novo apartamento, também no bairro de Higienópolis. A compra do bem lhe custou 4,5 milhões de reais e foi paga à vista. Para fechar o negócio, nem precisou vender seus outros dois imóveis (além do dúplex, tem um apartamento no Rio de Janeiro, cujo preço é 1,5 milhão de reais). Como conseguiu a façanha? "Vendi um apartamento que eu tinha em Santos", explicou, com a tinta da melancolia no semblante. O flat negociado pelo deputado valia 200000 reais no ano passado. Como conseguiu multiplicar esse capital por vinte é só mais um dos mistérios de Chalita. Ele é a Capitu da política brasileira.




CHALITAPÉDIA

Cartas entre Amigos, best-seller de Gabriel Chalita, copia citações erradas da internet

Citação:"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares"

A quem Chalita atribui: Fernando Pessoa

A verdade: Fernando Pessoa nunca escreveu isso, como qualquer leitor seu sabe e atesta a Casa Fernando Pessoa

Citação: "A vida é bela e digna de ser vivida"

A quem Chalita atribui: Leon Trotsky

A verdade: o revolucionário russo escreveu: "A vida é bela, que as gerações futuras a limpem de todo o mal". A citação do livro de Chalita - assim como outros dois parágrafos que se seguem a ela - foi copiada de uma apresentação na internet do filme A Vida E Bela, de Roberto Benigni

Citação: "Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir. Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende"

A quem Chalita atribui: Machado de Assis

A verdade: "Esses versos não estão nas poesias editadas por Machado nem nas que foram coligidas postumamente", diz o professor da USP Alcides Villaça, especialista na obra do escritor

Citação: "Não sei... se a vida é curta ou longa demais para nós"

A quem Chalita atribui: Cora Coralina

A verdade: a editora de Cora e também sua filha, Vicência, afirmam que o poema não foi escrito por ela

sábado, junho 19, 2010

O criador dos prédios espetaculares


Ninguém passa incólume pelos edifícios do espanhol
Santiago Calatrava. Sua mais recente criação é um
museu no Rio de Janeiro


Marcelo Bortoloti e Silvia Rogar

Fotos Massimo Borchi/Corbis/Latin Stock e David Brabyn/Latin Stock
O arquiteto e sua obra
Calatrava (à dir.) e o complexo cultural que ergueu em Valência, sua cidade natal:
transformação da paisagem

Expoente da chamada arquitetura-espetáculo com seus prédios de vidro e aço que lembram verdadeiras esculturas gigantes, o espanhol Santiago Calatrava, 58 anos, isolou-se dois meses atrás num chalé encravado nos Alpes suíços para debruçar-se sobre seu mais novo e ambicioso projeto: o edifício que, em 2012, abrigará um museu dedicado à ciência e à tecnologia, no Rio de Janeiro. Depois de duas visitas à cidade, mais de 200 desenhos e um disciplinado estudo sobre o movimento das plantas, Calatrava chegou à forma estilizada de um caule recoberto por painéis de aço, que se abrem e fecham como pétalas. Pode-se dizer que o prédio – cujo projeto será apresentado pelo próprio arquiteto na próxima segunda-feira, no Rio (veja foto abaixo) – é uma boa síntese de sua obra. Ali, veem-se as grandes dimensões típicas de seus edifícios, os traços inspirados na natureza e a estrutura em movimento, um efeito produzido com base em cálculos milimétricos conduzidos pelo próprio Calatrava. No museu carioca, caberá a um sistema hidráulico, controlado por um sofisticado programa de computador, fazer com que tais placas se movimentem de modo que permaneçam mais tempo na direção do sol e em 90 graus. A ideia é que, assim, elas absorvam a maior quantidade possível de energia para mover a engrenagem. Também engenheiro de formação, Calatrava resume a VEJA: "Para mim, é justamente o rigor da engenharia que alça a arquitetura a um patamar mais elevado".

Os edifícios que levam a assinatura do arquiteto espanhol têm em comum o fato de jamais se integrarem harmonicamente à paisagem – ao contrário, eles sempre chocam. Sua obra está espalhada pela Europa, Estados Unidos, Canadá e Argentina, onde Calatrava ergueu uma das mais engenhosas de suas quarenta pontes. Debruçada sobre o Rio da Prata, em Buenos Aires, a estrutura foi projetada para girar em torno de um único eixo fincado sob as águas, de maneira a abrir passagem para navios de grande porte. Entre seus mais ousados trabalhos, figura o Museu de Arte de Milwaukee, nos Estados Unidos, que atrai atenção pelos tubos de aço formando a silhueta de um pássaro cujas asas atingem 66 metros de comprimento. Num discreto movimento, elas se posicionam ora para cima, ora para baixo. O mais impressionante conjunto de autoria de Calatrava, no entanto, fica em Valência, sua cidade natal. Ali, ele ergueu um planetário em formato de olho humano adornado com gigantescas pálpebras de aço em constante abre e fecha e ainda uma ópera que lembra a cabeça de uma serpente (nem todo mundo gosta, mas não há como não parar para ver). Diz-se na Espanha que Calatrava representa para Valência o mesmo que o catalão Antonio Gaudí significou para Barcelona, no princípio do século XX. Diz Paulo Fonseca, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo: "Ambos deixaram marcas que hoje são indissociáveis dessas cidades".

Obcecado pela arquitetura – a ponto de um de seus quatro filhos, Gabriel, um engenheiro de 27 anos com quem ele trabalha, dizer que "meu pai não tem outro hobby na vida" –, Calatrava é dono de um processo criativo singular. A começar pelo fato de seu ponto de partida não serem apenas desenhos, mas também aquarelas, que ele produz às centenas com verdadeira ambição artística, até chegar à forma final. Para se ter uma ideia, a cada projeto Calatrava chega a publicar um novo livro com seus esboços. Outra de suas particularidades diz respeito a um apreço fora do comum por maquetes – tanto que ele mantém uma fábrica na Suíça, onde um grupo de engenheiros especializados desenvolve modelos de até 2 metros de altura que simulam em miniatura todas as engrenagens concebidas para os edifícios. Ao referir-se ao próprio processo de criação, Calatrava gosta de citar o escultor francês Auguste Rodin (1840-1917): "Inspiração é algo que não existe". Vaidoso, ele guarda seus 100 000 desenhos (até os esboços mais rudimentares) e 500 maquetes em suas três residências – em Valência, Zurique e Nova York, onde passa mais tempo. Ali, ocupa com os filhos e a mulher, a advogada sueca Tina Marangoni, 57 anos, três casas geminadas na elegante Park Avenue. À frente de uma equipe de 100 funcionários, é Calatrava quem dá a palavra final sobre tudo. "Meu marido é um centralizador", define Tina.

A arquitetura-espetáculo representada por ele não compõe exatamente uma nova corrente – tais são as diferenças de estilo entre seus mais proeminentes nomes, como o americano Frank Gehry (autor do Museu de Bilbao) e o holandês Rem Koolhaas (do Museu Gug-genheim de Las Vegas). Suas obras, no entanto, guardam uma notável semelhança: amparadas por programas de computador e técnicas de construção que permitem edificar prédios em formatos tão ousados que parecem desafiar as leis da física, elas sempre provocam uma transformação radical no cenário. "Pela liberdade extrema dos traços, é uma arquitetura que se aproxima muito do design", diz Mônica Junqueira, doutora em história da arquitetura. Caso exemplar desse conceito é o edifício Turning Torso, na cidade sueca de Malmö, assinado por Calatrava. Trata-se de um espigão residencial de 54 andares que imita um tronco humano retorcido até 90 graus (ideia que surgiu a partir de uma escultura feita pelo arquiteto dez anos antes). Não raro, Calatrava é alvo de críticos que o acusam de repetir-se nas fórmulas – só de prédios com estruturas em formato de asa, criou três. Ele e seus colegas também são frequentemente atacados com argumentos como o do crítico americano Kenneth Frampton, professor da Universidade Colúmbia. Em seus artigos, Frampton afirma que o exagero gratuito nas formas por vezes compromete a funcionalidade, quando não o bom gosto.

Apreciem-se ou não, os prédios-esculturas têm se prestado à função de lançar luz sobre áreas decadentes e abandonadas – sendo às vezes decisivos na sua revitalização. Foi com o Museu Guggenheim, por exemplo, que a cinzenta e sem graça cidade de Bilbao, na Espanha, se tornou um fervilhante polo turístico. Em Lisboa, Calatrava deixou como legado a monumental Estação do Oriente, cuja cobertura está equilibrada sobre curiosas colunas que se assemelham a palmeiras. Quando surgiu, em 1998, a construção chamou atenção para uma área industrial até então degradada, ajudando a atrair para lá novos prédios residenciais e hotéis. Outro terminal concebido por Calatrava, este para a região onde ficava o World Trade Center, em Nova York, inclui um teto que tem a pretensão de imitar, por meio de enormes estruturas de aço, as mãos de uma criança segurando uma pomba – projeto que deve ser inaugurado em 2014 e que o espanhol apresentou tal como um show, fazendo vários rabiscos diante de uma plateia espantada. Seu museu para o Rio de Janeiro, uma parceria entre a prefeitura e a Fundação Roberto Marinho, surgiu como peça-chave de um ambicioso projeto de revitalização da empobrecida região do porto, prometida até a Olimpíada de 2016. A expectativa é que o gigantesco caule de vidro e aço debruçado sobre a Baía de Guanabara, de autoria de Calatrava, ajude a resgatar uma área que, antes próspera, é hoje um símbolo de decadência.

Fernando Alda/Corbis/Latin Stock
Edifício em movimento
O projeto do Museu do Amanhã (abaixo), que será erguido no Rio de Janeiro até 2012, é uma boa síntese da obra de Calatrava. Ali, veem-se as grandes dimensões típicas de seus prédios, estruturas em constante movimento e o desenho inspirado em formas da natureza – neste caso, o caule de uma planta, segundo ele. lá funcionará um museu dedicado à ciência e à tecnologia, orçado em 130 milhões de reais, em que o visitante terá experiências como um passeio virtual pelo universo e até pelas estruturas de uma célula.


Fotos Joseph Sohm/Corbis/Latin Stock e Divulgação
Gigantes de aço
O museu de Milwaukee, nos Estados Unidos (à esq.), e a ponte Alamillo,
em Sevilha (à dir.): junção da engenharia com a arquitetura.

sábado, janeiro 23, 2010

Carta ao Leitor

O pior e o melhor do homem

Crédito
Criança ferida em helicóptero no Haiti: o mundo correu em socorro
às vítimas do terremoto

Os relatos enviados à redação de VEJA por Diego Escosteguy, nosso repórter no Haiti, dão conta de uma população vivendo quase em "estado natural", condição que teria prevalecido na humanidade antes do estabelecimento das formas mais rudimentares de organização social. Gangues armadas saqueiam, roubam, estupram e matam. Grupos de haitianos desabrigados pelo terremoto se entrelaçam nas calçadas formando enormes tapetes humanos, de modo a passar a noite com um mínimo de segurança. É um quadro aterrador mesmo para um país que, antes de ser arrasado pelo terremoto, há duas semanas, já era um dos mais abalados pelo bandi-tismo e pela miséria. O inglês Thomas Hobbes (1588-1679) teria agora em Porto Príncipe a chance de ver a realidade apenas teorizada por ele de um mundo sem lei em que a vida humana é "solitária, miserável, sórdida, brutal e curta". A catástrofe natural fez emergir no Haiti o que há de pior na espécie humana.

Mas o terremoto no Haiti fez brotar também o que a espécie humana tem de melhor, a solidariedade. Horas depois do dimensionamento da magnitude da tragédia, partiram ofertas de ajuda de todas as partes do planeta, da vizinha República Dominicana à distante Turquia, da pobre Bolívia a potências econômicas como os Estados Unidos e a Alemanha. Logo se somariam aos 9 000 homens da força permanente da ONU no Haiti, comandada pelo Exército brasileiro, milhares de bombeiros e dezenas de equipes médicas de quase uma dezena de nacionalidades. As doações em dinheiro, alimentos e remédios superaram em volume e rapidez aquelas feitas em outros desastres naturais de larga escala. A Cruz Vermelha recebeu em uma semana o dobro das doações recolhidas durante todo o ano de 2009.

Seria extraordinário se a onda sem precedentes de solidariedade promovida pelo desastre haitiano fosse sucedida de um esforço internacional de igual intensidade com o objetivo de criar as bases de uma nação soberana e estável naquele tão sofrido espaço geográfico. Se para outros países vitimados por catástrofes naturais o objetivo imediato é voltar à normalidade, no Haiti o desafio é, pela primeira vez em sua história, saber o que é desfrutar uma vida normal.

Entrevista Peter Ward

A mãe natureza é cruel

O paleontólogo americano diz que é inútil e perigoso para
a humanidade, a esta altura da civilização, tentar se reconciliar
com a natureza retornando ao estilo primitivo de vida


Carlos Graieb

Na mitologia grega, Medeia é a rainha que mata os próprios filhos como forma de vingança contra o marido infiel, o herói Jasão. Segundo o paleontólogo americano Peter Ward, da Nasa e da Universidade de Washington, a natureza é dotada desse mesmo instinto assassino, condenando todos os seres vivos à extinção a longo prazo. A natureza conspira para tornar a Terra um planeta estéril. A tese central de Ward de que a vida é inimiga da própria vida colide frontalmente com algumas das ideias mais estabelecidas do movimento ambientalista. Em seu livro The Medea Hypothesis (A Hipótese Medeia), Ward desmonta a "hipótese Gaia", aventada pelo cientista inglês James Lovelock há cerca de quarenta anos, segundo a qual a natureza teria compromisso com a manutenção da vida sobre a Terra tendendo para a harmonia, situação que teria a ação humana como única ameaça séria de desequilíbrio. Diz Ward: "É falsa a ideia de que a natureza se salvará se nos conciliarmos com ela. A chance de manutenção da vida humana no planeta está no aprimoramento da ciência e da tecnologia".

De cientistas renomados ao filme Avatar, boa parte do discurso ambientalista insiste que o homem precisa "retornar à natureza". Essa ideia faz sentido?
Há muita coisa louvável no ambientalismo, da ênfase na economia de combustíveis e outros recursos à ideia de que é necessário preservar certas regiões do planeta. Mas a utopia do retorno a um mundo mais simples, mais primitivo, mais natural, aponta na direção errada, tanto por motivos práticos quanto por motivos teóricos. Se a população da Terra fosse de 1 bilhão de pessoas, vá lá. Mas, num mundo com 6 bilhões de habitantes, não poderemos abrir mão das conquistas de nossa civilização tecnológica se quisermos cuidar de doenças e produzir alimentos em larga escala, para ficar nas necessidades mais básicas. A civilização pré-industrial dos sonhos ambientalistas resultaria, muito rapidamente, em fome global. A fome acarretaria guerras e há poucas coisas feitas pelo homem mais devastadoras para o ambiente do que a guerra. Esse é um dos motivos por que os "verdes" deveriam deixar de lado sua aversão à tecnologia, e considerá-la uma aliada. Mas há outra razão para abandonarmos a tese do retorno ao primitivismo. A história do planeta mostra o contrário: a vida está sempre conspirando contra si própria, está sempre no caminho da autodestruição. Cabe a nós, humanos, refrear essa tendência, mais uma vez, por meio de nossa inteligência e da tecnologia. Estou falando na busca de soluções sem precedentes de "engenharia planetária", com efeito atenuador sobre a temperatura da Terra e regulador dos ciclos básicos da biosfera.

A natureza não é uma mãe bondosa?
Ao contrário do que propõe uma das teorias mais difundidas nos últimos quarenta anos, a famosa hipótese Gaia, a mãe natureza não cuidará de nós eternamente se apenas voltarmos ao seu seio. Gaia é uma referência à deusa Terra na mitologia grega, cujo nome também pode ser traduzido como "boa mãe". A hipótese tem duas versões. Uma diz que os seres vivos colaboram entre si para manter as condições ambientais dentro de parâmetros compatíveis com a manutenção da vida. A outra, mais radical, afirma que os organismos não apenas estão programados para manter os padrões de "habitabilidade" da Terra, como ainda conseguiriam melhorar a química da atmosfera e dos oceanos. Essas duas versões da hipótese Gaia estão totalmente erradas. Tomados em conjunto, os organismos existentes na Terra interagem com o ambiente de tal maneira que, a longo prazo, a vida tende a desaparecer. A natureza se comporta como Medeia, a mãe impiedosa que, na mitologia grega, mata os próprios filhos.

Por que a vida seria inimiga da vida?
Isso se deve a um efeito colateral do processo de evolução. As espécies evoluem, mas a biosfera não. A cada etapa evolutiva, as espécies, individualmente, vão aprimorando as características que permitem a cada uma triunfar no jogo da sobrevivência e, com frequência, isso significa desenvolver arma s letais para as outras espécies.

Quais são os furos na hipótese Gaia?
Se as teses de Gaia estivessem corretas, alguns fenômenos comprobatórios já teriam sido observados. O contínuo aumento da diversidade das formas de vida bem como da biomassa (o volume total de organismos vivos) seria um formidável indicador empírico da validade de Gaia. Seria um resultado consistente com a ideia de que, ao longo do tempo, as condições do planeta vão ficando mais acolhedoras para os seres vivos. Não é o que se observa. Os modelos mais recentes indicam que a biomassa atingiu seu ápice em algum ponto entre 1 bilhão e 300 milhões de anos atrás e vem se reduzindo desde então. Quanto à biodiversidade, no melhor dos casos, ela se manteve estável nos últimos 300 milhões de anos.

Em relação à "hipótese Medeia", quais são as evidências de que ela é correta?
Os episódios de extinção em massa registrados no passado geológico do planeta são uma dessas evidências. Quando falamos nesses episódios catastróficos, as pessoas logo pensam nos dinossauros e lembram que o seu desaparecimento está ligado ao choque de um grande asteroide. Isso dá a falsa impressão de que desastres com causas externas seriam o principal risco para a nossa biosfera. O caso dos dinossauros, no entanto, é uma exceção em meio a um grande número de episódios nos quais processos conduzidos pelos próprios seres vivos acarretaram reduções dramáticas na biomassa. Meu exemplo preferido é o da grande extinção no fim do período permiano, cerca de 250 milhões de anos atrás, quando pereceram 90% das espécies marinhas e 70% do total da biota. Por algum tempo acreditou-se que essa extinção também estava relacionada à queda de um asteroide. Essa tese hoje está quase abandonada. Outra teoria que emergiu com força aponta bactérias como as assassinas responsáveis por essa hecatombe.

Poderia explicar melhor?
Há um grupo de bactérias que produz, como resultado de seu metabolismo, uma substância altamente tóxica, o gás sulfídrico (H2S). Ele é mortífero para plantas e animais até mesmo em baixas concentrações. Estudos recentes mostram de maneira bastante robusta que, no permiano tardio, esse tipo de micróbio proliferou de maneira incomum, a tal ponto que o gás sulfídrico que ele produz não apenas envenenou os oceanos como ainda entrou na atmosfera. A consequência disso foi a aniquilação de seres vivos em todo o planeta. Conhecemos pelo menos outras oito ocasiões em que esse processo se repetiu no passado, ainda que em escala menor.

O que causou a proliferação anormal dos microrganismos assassinos?
No caso do permiano, foram os gigantescos volumes de magma lançados por vulcões nos mares e na terra ininterruptamente por milhares de anos. Esse processo potencializou o efeito estufa, aquecendo demais a superfície do planeta, e praticamente eliminou o oxigênio livre nas águas dos oceanos, favorecendo a multiplicação descontrolada das bactérias anaeróbicas assassinas.

Algo semelhante poderia voltar a acontecer no futuro?
Evidentemente, e dessa vez com ajuda humana. Efeito estufa é efeito estufa, pouco importa se causado por vulcões ou por fábricas e automóveis. Quando e se os níveis de CO2 na atmosfera superarem a taxa-limite de 1 000 ppm (partes por milhão), a série de eventos de longo curso que pode levar a uma extinção como a descrita se porá em movimento. A taxa atual é de 380 ppm, e ela está subindo. As estimativas mais pessimistas sugerem que em um século poderemos nos aproximar dos níveis críticos.

O senhor, então, não é um cético do aquecimento global?
É claro que não. Acabo de voltar de uma temporada no Ártico. É espantosa a maneira como a calota polar está retrocedendo. O fato de eu me contrapor a certas ideias do movimento ambientalista não significa que me posicione no lado contrário. De fato, há ocasiões em que eu gostaria de dar uma surra em céticos barulhentos como o dinamarquês Bjorn Lomborg. Esse ceticismo só é útil quando nos leva a refinar hipóteses científicas, mas não quando serve de desculpa para empresas e governos não agirem. Suponha que os céticos estejam certos e que as piores previsões sobre o aquecimento global não se realizem. Ainda assim, lidamos hoje com uma matriz energética que é muito poluente. Faremos mal em desenvolver novas fontes de energia? É claro que não. Uma economia diversificada desse ponto de vista será melhor em todos os sentidos. Digamos agora que a tese do aquecimento está correta. Nesse caso, as consequências serão desastrosas se não nos precavermos. A curtíssimo prazo, veremos nosso modo de vida ser profundamente afetado pelo aumento do nível dos oceanos. Esse seria apenas o primeiro dos desastres.

Na cúpula sobre o clima realizada em Copenhague, no fim do ano passado, o ceticismo ficou em segundo plano. Apesar dos resultados políticos pífios da cúpula, isso não foi um avanço?
Nesse caso, sou eu que me ponho na posição de incrédulo. Nos Estados Unidos é muito fácil retornarmos a uma posição oficial de ceticismo. Os republicanos linha-dura na questão climática, no estilo George W. Bush, não foram extintos. Eles podem voltar ao governo. Se uma administração que se diz atenta à questão do aquecimento global, como a de Obama, nada fez em Copenhague, quais são as causas para entusiasmo?

O senhor mencionou que feitos de "engenharia planetária" são necessários para manter a Terra habitável para o homem e outras espécies. De que estava falando?
A curto prazo, da busca engenhosa de novas fontes de energia. Mas, ainda que consigamos interromper a tendência atual de aquecimento do planeta ensejada pela atividade humana, a longo prazo temos de lidar com outro problema: nosso sol se tornará maior, e enviará mais energia para a Terra. Algumas alternativas já foram aventadas, como a construção de espelhos gigantescos que seriam postos em órbita para reduzir a incidência de luz solar sobre o planeta, ou a cobertura de grandes áreas de terra e mar com material refletivo. Parece ficção científica, mas, diante de um desafio dessa magnitude, não podemos abandonar a nossa imaginação.

O efeito estufa é o único fenômeno que pode disparar um desses eventos em que alguns seres vivos se tornam ameaça para a biosfera como um todo? Falamos muito sobre os perigos do aumento do CO2. Ironicamente, contudo, uma ameaça ainda maior para a vida na Terra pode ser a diminuição extrema dos níveis desse mesmo gás mais uma vez, causada pelos seres vivos. Corais e outros animais marinhos sequestram quantidades gigantescas de CO2 da atmosfera ao "fabricar" estruturas calcárias como as conchas. Suponha que o efeito estufa tenha sido abortado. Em algumas centenas de milhões de anos 500 milhões, digamos, o que não é muito tempo em termos geológicos , a quantidade de CO2 poderá baixar a um nível tal que as plantas se verão incapacitadas de realizar a fotossíntese. E com isso estaria rompida toda a cadeia de alimentação que permite à vida se reproduzir. Muito gás carbônico, pouco gás carbônico: as duas situações são potencialmente desastrosas. Entre todos os seres vivos, somos os únicos que dispõem de ciência para entender esses perigos e nos contrapor a eles. Teremos de guiar as mudanças no planeta e na biosfera se quisermos continuar aqui por milhões de anos.

Colonizar outros planetas seria uma opção para a espécie humana? Infelizmente, creio que não. Os planetas vizinhos são hostis demais à vida. É mais fácil colonizar a Antártica do que Marte. E, dadas as distâncias e a escala temporal envolvidas, não vejo como produzir naves capazes de nos levar a planetas distantes. A Terra é só o que temos.

Claudio de Moura Castro


Na Idade das Trevas

"A infindável batalha entre os formuladores
de políticas de desenvolvimento tecnológico
e a nossa impenetrável máquina burocrática"

Cruzando um corredor da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos, empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia), o impetuoso diretor é alvejado por uma pergunta à queima-roupa, formulada com ironia: "Há quanto tempo você trabalha aqui?". Isso porque ele tinha proposto que os pedidos de empréstimo fossem processados em um prazo máximo de um mês. Ousou arrostar a pachorrenta burocracia. Era mais um capítulo de uma infindável batalha entre os formuladores de políticas de desenvolvimento tecnológico e a nossa impenetrável máquina burocrática. As políticas para criar tecnologia brasileira sugerem a existência de vida inteligente nas agências de fomento. Em contraste, as regras para implementar tais políticas permanecem na Idade das Trevas.

Ilustração Atomica Studio


Nossos formuladores revelam argúcia. Há ideias inteligentes e um mínimo de continuidade na sua implementação. Nota-se também um saudável aprendizado, ao entender os equívocos e procurar corrigi-los. A Lei da Inovação criou engenhosas pontes entre universidades e empresas, tornando possível oferecer subsídios monetários aos empresários inovadores. Ademais, o governo agora pode virar parceiro, entrando com capital de risco. Houve um crescimento vertiginoso das publicações científicas. Hoje o Brasil é o 13º maior produtor de ciência em periódicos respeitáveis. Se publicações no exterior podem ser vistas como exportação de conhecimento, exportamos mais ciência (2% do total mundial de publicações) do que mercadorias (pouco mais de 1% do comércio internacional).

Somos um dos três únicos países a extrair do próprio subsolo e refinar urânio. A meteorologia está pronta para enfrentar os desafios do aquecimento global. Não há nenhuma empresa de petróleo no mundo com o mesmo domínio tecnológico da Petrobras. É respeitada a nossa aeronáutica. Somos os primeiros em alguns setores do agronegócio (por exemplo, no etanol). Quase todos os grandes produtos de exportação têm ampla dose de tecnologia tupiniquim. Ou seja, há vida inteligente no governo, pois algumas iniciativas privadas dependem de políticas públicas. Porém, as discussões de políticas tecnológicas são engolfadas pelos ruídos de gente que nada entende. Jorram palpites desencontrados.

Mais grave é o terrorismo dos sistemas de controle. São necessários, é certo. Contudo, Advocacia-Geral da União, Ministério Público, Receita Federal e tribunais de contas fazem coro para encontrar minudências técnicas que atrasam ou impedem o fluxo de pedidos de grande interesse para a nação. Em vez de entenderem e apoiarem quem merece, esses órgãos garimpam tecnicalidades impeditivas e presumem a desonestidade dos postulantes. Segundo advogados empresariais, usar a Lei da Inovação tornou-se um risco para todo e qualquer projeto. Melhor não usar o que promete a lei, para não se arriscar aos humores de algum fiscal iracundo.

Atolam pesquisas de importância estratégica, derrotadas na maratona surrealista de importar reagentes ou equipamentos para os laboratórios das universidades públicas. Não há correspondência entre fúria controladora e volume de recursos, pois tendem a ser quantias irrisórias. Foram abandonadas (exceto na Saúde) as políticas de compras públicas, responsáveis pelos sucessos passados da nossa indústria bélica e aeroespacial (por exemplo, a Embraer).

Os papéis engarrancham na burocracia, independentemente do talento do cientista ou da promessa do projeto. Licitações públicas escolhem propostas baratas mas frágeis, por medo das punições dos tribunais de contas (essa foi uma das razões da debacle do Enem). As regras do serviço público são incompatíveis com a agilidade exigida pela ciência e tecnologia. Daí a abundância de mecanismos - como as fundações - para oferecer a velocidade imprescindível. Mas, tão logo aparecem, os órgãos de controle fazem tudo para destruir esses atalhos administrativos. Na área ambiental, um parecer equivocado dá processo criminal. Ir para a cadeia por uma licença ambiental? Quem se arriscaria? Mas é o paraíso dos burocratas do "não" e dos crentes com visões simplórias.

A vida inteligente colide com órgãos de controle que permanecem na Idade das Trevas. Ou seja, temos boas políticas e as empresas estão aprendendo as artes da inovação (muito tarde, até). Mas, na hora de implementá-las, os entraves e os riscos se multiplicam. Bons quadros públicos se acovardam, com razão. As empresas não têm tempo, recursos nem competência para vencer as forças malignas da inércia. É até surpreendente que tenhamos conseguido alguns sucessos.

Claudio de Moura Castro é economista
claudiodemouracastro@positivo.com.br

Radar Lauro Jardim

Panorama

Radar


Lauro Jardim
ljardim@abril.com.br

Eleições

Ed Ferreira/AE
Lobão no páreo
De um jeito mineiro, o maranhense Edison Lobão trabalha para ser o companheiro de chapa de Dilma Rousseff. Se o candidato do PMDB não for Michel Temer e tiver de ser um nome do Nordeste, Lobão quer surgir como uma espécie de "solução natural".
De olho na vice
Lobão: aposta no vice nordestino


Se Lula deixar, Marta disputa

Antonio Milena/AE
Enquanto Lula trabalha para empurrar goela abaixo do PT paulista Ciro Gomes como candidato ao governo, Marta Suplicy voltou a trabalhar a possibilidade de sair candidata. Se Lula bater na mesa, o PT abaixa a cabeça e vai de Ciro. Mas, até lá, Marta virou o nome do partido para a disputa.
Alternativa
Marta: se não for Ciro, a ex-prefeita
sairá candidata ao governo paulista

Brasil

Enfim, deprimiu
Depois de quase dois meses de brutais revelações, José Roberto Arruda finalmente deu sinais de estar deprimido no meio da semana passada.

Economia

Um furo de 200 milhões de dólares
Depois de gastar 200 milhões de dólares para tentar achar petróleo no bloco BMS-4, localizado na Bacia de Santos, a Vale entregou os pontos. Não achou óleo que valesse a pena e acaba de devolver o bloco para a ANP. Para entrar de sócia do BMS-4, pertencente à italiana Eni, a Vale se comprometeu a bancar sozinha os 200 milhões de dólares para a exploração do bloco.

Clima de divórcio
Não é boa a relação entre a SulAmérica e o Banco do Brasil, sócios na seguradora Brasilsaúde. As negociações para que um compre a parte do outro na empresa começaram há três meses e estão emperradas.

Dentes afiados
A propósito, o Banco do Brasil prepara, via aquisição, sua entrada no setor de planos odontológicos.

Muita energia 1
A Camargo Corrêa está negociando a compra da parte de distribuição de energia da AES, ou seja, a AES Eletropaulo, a maior da América Latina, e a AES Sul. Coisa de gente grande: é um negócio avaliado em 4 bilhões de reais. A Camargo já tem o o.k. do governo para a transação.

Muita energia 2
O apetite da Camargo é grande: está de olho também no terceiro maior grupo privado do setor elétrico, a Neoenergia, empresa de geração, transmissão e distribuição de energia da Previ, do Banco do Brasil e da espanhola Iberdrola.

A novela do cimento
A compra da cimenteira portuguesa Cimpor passa por lances emocionantes nos bastidores. Depois das ofertas de compra por parte da CSN, Camargo Corrêa e Votorantim, o governo entrou no jogo – a suspeita é que a Camargo e a Votorantim tenham feito ofertas apenas para barrar a entrada de um novo concorrente, ou seja, a CSN. Na sexta-feira passada, a secretária de Direito Econômico, Mariana Tavares, que comanda investigações por prática de cartel no setor, notificou as interessadas na Cimpor para prestar esclarecimentos detalhados sobre as respectivas ofertas.

Futebol

Patrocínio de técnico
O Palmeiras descobriu um jeito inédito de faturar: lança nos próximos dias o patrocínio de treinador. Por 840 000 reais por ano, a Unimed terá o direito de estampar sua marca no uniforme de Muricy Ramalho. Chegou-se à conclusão de que, dada a quantidade de vezes que um técnico aparece dando entrevista ou é filmado durante os jogos e treinos, se estava deixando de ganhar dinheiro com um fabuloso outdoor ambulante.

Livros

Fernando Moraes

Papo de bibliófilo
Um diálogo apaixonado sobre livros (e o futuro deles) entre o italiano Umberto Eco e o escritor e roteirista francês Jean-Claude Carrière, publicado na França no fim de 2009, traz diversas menções elogiosas ao bibliófilo José Mindlin. Em Não Contem com o Fim dos Livros, que sai aqui em abril pela Record, Carrière se refere, admirado, a uma edição de Os Miseráveis traduzida para o português, impressa no Rio de Janeiro em 1862, que viu na biblioteca "do grande colecionador brasileiro". A razão do assombro: o livro de Mindlin foi impresso no mesmo ano da primeira edição francesa.

Pré-Kindle
Mindlin: uma biblioteca de tirar o fôlego

Com Paulo Celso Pereira Colaborou Felipe Patury

O Google enfrenta o governo chinês

A muralha prevaleceu

Depois de sofrer ataque a informações sigilosas no seu
sistema, o Google ameaça fechar as portas na China


Luís Guilherme Barrucho

Jason Lee/Reuters
PROTESTO SILENCIOSO
Oferendas deixadas diante da sede do Google em Pequim: e-mails devassados


No Livro dos Ritos, ou Li-ki, um dos cinco clássicos associados ao pensador chinês Confúcio (551 a.C.-479 a.C.), o cerimonial fúnebre ocupa lugar de destaque. O cortejo demonstra respeito à hierarquia e aos princípios morais da filosofia surgida na China antiga. A imagem retratada na foto acima é um exemplo de tal honraria. As flores depositadas diante da sede do Google em Pequim, além de manifestarem apreço à empresa americana, serviram de protesto silencioso de uma população que não tem voz sob o autoritarismo comunista. Foi por causa dessa repressão política que o Google decidiu rever seus planos para a China - e não descarta a possibilidade de fechar as portas no país. A ameaça veio depois de a empresa, cujo sistema de buscas é o mais popular do planeta, ter descoberto que duas contas de seu serviço de e-mail, o G-mail, haviam sido violadas. Elas pertencem a ativistas chineses que lutam pela democratização e pela liberdade de informação. A investigação confirmou que outros usuários, da Europa e dos Estados Unidos, que advogam pela mesma causa, também tiveram quebrado o sigilo de seus e-mails. A suspeita é que os ataques tenham partido de agentes do governo chinês.

O episódio evidencia as agruras que qualquer empresa internacional tem pela frente na China. Todo negócio é sujeito à camisa de força do Partido Comunista, principalmente no que diz respeito à livre circulação de notícias e ideias. "Os recentes ataques, assim como as tentativas anteriores de restringir a liberdade na internet, levaram-nos a reavaliar a viabilidade de nossas operações na China", afirmou, em nota, o vice-presidente corporativo do Google, David Drummond. Contudo, pesa contra qualquer decisão definitiva nesse sentido o amplo e crescente mercado chinês. Segundo relatório da consultoria americana McKinsey, os gastos com produtos de consumo devem aumentar 1,9 trilhão de dólares até 2025. A China já responde por um quinto do total de usuários de internet no mundo. Mas, para o Google, esse potencial ainda não rendeu lucros significativos. Pouco mais de 1% de seu faturamento global sai da nação asiática. A China é um dos únicos países do mundo onde o gigante americano não é líder (perde para o Baidu, seu concorrente local, que detém cerca de 60% do mercado). Esse fraco desempenho até chegou a ser apontado por alguns especialistas como a verdadeira razão pela qual a empresa ameaçou deixar o país.

Quando decidiu se instalar na China, há quatro anos, o Google concordou em se autocensurar e aquiescer às limitações de conteúdo ditadas pelos comunistas. Tolerar ainda mais restrições e quebras de sigilo, no entanto, poderia afetar não apenas as atividades da empresa na China, mas arranhar severamente sua imagem internacionalmente. Para sobreviver e crescer, o Google necessita, acima de tudo, da coo-peração e da confiança de seus clientes na credibilidade de seus sistemas. Por isso precisou se levantar veementemente contra o ataque cibernético. "Depois de ter aceitado tantas imposições do governo chinês, chegou-se a um patamar tão intolerável que poderia afetar o resto de seus negócios no mundo", afirmou a VEJA Evgeny Morozov, da Universidade Georgetown.

O incidente acabou incitando a troca de farpas entre os Estados Unidos e os chineses. O governo comunista usou os jornais oficiais para afirmar que os EUA se utilizam do Google como ferramenta ideológica para promover sua vontade e seus valores no exterior. A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, respondeu, sem dar nome aos bois: "Aqueles que obstruem o trânsito livre de informações representam uma ameaça à nossa sociedade. Países ou pessoas que executem ataques à internet deveriam ser condenados". Belas palavras, mas demasiado tímidas diante da muralha autoritária chinesa. Nessa disputa, os maiores derrotados são os chineses que depositavam no Google a esperança de ter mais liberdade de expressão.


Arquivo do blog