Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, março 26, 2008

Míriam Leitão - O saldo que cai


PANORAMA ECONÔMICO
O Globo
26/3/2008

Despenca o saldo comercial e a conta de transações correntes está negativa. Mas nada é tão assustador quanto parece. O especialista em comércio exterior Joseph Tutundjian prevê um saldo de US$25 bilhões para este ano. "E é saldo pra burro", diz. É, mas significa uma queda de US$15 bilhões em relação ao fechamento do ano passado. E, na época, já havia caído outros US$7 bilhões.

Em meados de 2007, a recuperação da balança comercial, que havia se iniciado após a flutuação do câmbio em 1999, atingiu o pico: em julho, o saldo comercial em 12 meses era de US$47 bilhões. Uma conta ainda mais impactante: se a MB Associados, do economista José Roberto Mendonça de Barros, estiver certa, e o saldo de 2008 for de apenas US$18 bilhões, o superávit terá caído US$29 bilhões em um ano e meio.

Tutundjian diz que parte da queda do saldo é aumento das importações num ritmo muito maior que o das exportações, mas que os setores que sempre garantiram saldo positivo para o Brasil continuarão garantindo:

- Em grande parte dos setores, como máquinas e equipamentos, fertilizantes, o país não tem superávit. O saldo positivo vem do agronegócio principalmente, e da venda de minério de ferro. No setor agropecuário, o Brasil continuará tendo exportação forte tanto no complexo soja, quanto no de açúcar e álcool e no de carne.

No caso da soja, se os preços caírem 10%, isso significaria uma redução do saldo em US$2 bilhões; impacto semelhante teria o complexo açúcar. A carne deve continuar exportando bem e com altos preços.

- Não é a Europa que compra carne do Brasil, o cliente importante é a Rússia, que continuará comprando. A recessão americana não nos afeta nessa área pois os EUA não importam soja de nós, pelo contrário, são nossos concorrentes; barram a entrada do açúcar e do álcool brasileiro. A crise deles não nos afeta por esse lado - afirma Tutundjian.

Enquanto ele prevê um saldo de US$25 bilhões, o Boletim Focus prevê um pouco mais, US$28 bilhões. Mas a MB Associados calcula US$18 bilhões em 2008.

Em unidades, as exportações de automóveis vêm caindo desde 2006. Caíram 7% no ano passado e, neste primeiro bimestre, 3,3%. No entanto, em valores, o movimento é de alta: de 8,2% em 2007 e de 18% no acumulado de janeiro e fevereiro. Uma boa parte da explicação está nas variações do mix vendido para o exterior. Este ano, a exportação de carros (em unidades) caiu acima dos 4%, enquanto isso, caminhão cresceu 11,7%; chassis de ônibus, 31,6%; e tratores e colheitadeiras, 47%. Estão saindo mais itens de maior valor agregado. Para a América do Sul, vão 46,8% das exportações de automóveis e a demanda na região tem aumentado. Assim, o Brasil vem compensando a queda na exportação de carros.

De qualquer maneira, é um espanto que o setor tenha conseguido continuar as vendas apesar da queda do dólar. Uma das razões é o forte componente de produtos importados embutido no produto final.

Os dados da Funcex mostram que o que tem carregado o crescimento das exportações, no geral, é o aumento dos preços e não do volume. No acumulado de 12 meses até janeiro, os preços subiram 11,3%, enquanto o quantum, ou seja, o volume cresceu só 5%. Os produtos básicos foram bem, com alta de 10,6% no volume, mas manufaturados cresceram de forma tímida, 3,3%, e os semimanufaturados caíram 0,3%. Na comparação janeiro contra janeiro, a alta no volume exportado foi de apenas 0,2%. Na importação, a história é outra: em 12 meses, o volume cresce 22% e o preço, 9%, com tendência de alta.

Estes são tempos de mudança no comércio exterior, e não só aqui. A China vem passando por uma redução grande do superávit e do ritmo das exportações. São fenômenos diferentes, mas o país, que fechou 2007 com o maior saldo comercial do mundo, superando a Alemanha, registrou queda nas exportações para os Estados Unidos no fim do ano. Até 1994, os EUA representavam 36% das exportações chinesas; hoje equivalem a 24%. De qualquer forma, ainda respondem por 1/4 das exportações da China.

Em fevereiro, houve uma queda de 63% no saldo chinês, na comparação com fevereiro de 2007. O superávit, que havia sido de US$23 bilhões, caiu para US$8 bi. Também lá, as exportações continuam crescendo bem menos que as importações. Em fevereiro, as importações aumentaram 35%, enquanto as exportações tiveram alta de 6,5%. A expectativa é de que o saldo este ano chegue a US$240 bilhões, menor que os US$265 bi do ano passado.

- Há vários fatores que explicam este número de fevereiro: a retirada do benefício que era dado à exportação de alguns itens como grãos ou aço; a forte nevasca que paralisou boa parte da produção chinesa e também a crise americana - explicou Rodrigo Maciel, do Conselho Empresarial Brasil-China.

Se a mudança tem mais a ver com a desaceleração da economia americana, o resultado pode ser bem diferente.

Quanto à balança brasileira, Tutundjian diz que o saldo menor pode ter como efeito uma desvalorização do real, o que pode ser bom para os exportadores:

- Não vejo nenhuma tempestade no horizonte por causa da mudança no comércio exterior - afirma.

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