domingo, março 30, 2008

Daniel Piza

Anatomia da ficção

sinopse

Daniel Piza, e-mail: daniel.piza@grupoestado.com.br, site: www.danielpiza.com.br

O novo livro do ótimo crítico literário James Wood, How Fiction Works (Jonathan Cape), é um achado. Por incrível que pareça, há pouco debate sobre o fazer da ficção, embora haja muitas teorias e historiografias e outras chatices. Livros anteriores, como Aspectos do Romance, de E.M. Forster, e A Arte da Ficção, de Henry James (que traduzi 13 anos atrás), já tinham abordado o tema, mas não com a minúcia quase instrumental de Wood. O livro, curto, é tão cheio de idéias e sacadas, e Wood pesca frases e passagens tão bem em sua vastidão de leituras, que mal dá para resumir. Ainda há muito que explorar, mas ele navega tão longe dos lugares-comuns da crítica que abre horizontes.

Wood, que é inglês e atualmente resenhista da revista The New Yorker, discute, em destaque, o papel do discurso indireto livre na ficção moderna. Ele é uma fusão do discurso direto (o personagem fala com sua voz própria) e o discurso indireto (o narrador informa o que o personagem diz), de tal modo que aproxima narrador e personagem, criando uma ambivalência que enriquece os sentidos. Wood discorda dos que dizem que a narrativa moderna só pode ser em primeira pessoa, por estabelecer o narrador inconfiável. Uma narrativa em terceira pessoa pode ser ainda mais incerta, diz Wood. E dá como exemplo maior Flaubert, um dos pais da ficção moderna, que explorou ao máximo a tensão entre fato e versão, entre transparência e artifício.



Machado de Assis também é um mestre nisso. Em Quincas Borba, capítulo 99: 'Saiu o moleque; Rubião ficou passeando no jardim, com as mãos no bolso do chambre, e os olhos nas flores. Que tinha que mandasse algumas? Era um presente natural, e até de obrigação para pagar uma cortesia com outra. Fez mal; correu ao portão, mas já o moleque ia longe; Rubião advertiu que o luto excluía as lembranças alegres, e ficou tranqüilo.'

Note como na pergunta do segundo período passamos de vez para dentro da mente de Rubião, e como Machado recorre ao ponto-e-vírgula para transmitir as hesitações de seu personagem. O fato de ter escrito Quincas Borba (1891) em terceira pessoa é muito relevante. Depois de Brás Cubas (1881), em que usa a primeira pessoa (que não é o autor, como certa crítica ainda pensa, mas um narrador) até para liberar seu humor e ceticismo depois de quatro romances formatados na convenção moralista de seu tempo, voltar à terceira pessoa ajudou a construir o caminho que levaria a Dom Casmurro (1900), em que lapida à perfeição o jogo de sentidos entre o factual e o fabricado. Bentinho não é nem um manipulador completo nem a vítima que tenta se dizer.



Wood associa o discurso indireto livre à figura moderna do 'flâneur', do indivíduo urbano que perambula num cenário que se transforma continuamente, meditando sobre suas impressões. Sobre esse personagem é lançado um monte de detalhes, desconexos ou aleatórios, e o trabalho do narrador é ajustar o foco e escolher o que registrar. Wood analisa como Flaubert e seus herdeiros - de Henry James a Saul Bellow, de Virginia Woolf a John Updike - selecionam os detalhes, em contraste com o acúmulo onisciente que marcava o 'romanção' do século 19. Cita até uma cena de não-ficção, em Um Enforcamento, de George Orwell (que incluí em Dentro da Baleia e Outros Ensaios), que descreve o homem a caminho da forca se desviando caprichosamente de uma poça d'água.

Wood mostra, assim, como o conceito de realismo é restritivo. Realismo não é registrar mecanicamente a realidade, e boa parte da invenção de uma escrita está naquilo que deixa de fora. Toma Dostoiévski como exemplo, pois seus solilóquios se dirigem ao leitor como indivíduo, que lê em silêncio, não ao público em um templo ou platéia. Logo, podem estar mais próximos do verdadeiro discurso mental, menos eloqüente e mais coloquial do que no passado. O personagem não sabe explicar totalmente o motivo de seu comportamento. Isso faz sua linguagem mais realista, e não menos. Do detalhismo de Flaubert e do psiquismo de Dostoievski nasceu a ficção moderna; nasceu Proust, Joyce, Rosa, etc.



Wood menciona o escritor chileno Roberto Bolaño, em alta no mundo todo, e cujos contos de Putas Assassinas acabam de sair no Brasil. Wood se refere ao romance Os Detetives Selvagens, uma das obras pós-modernas que chamam atenção para o fato de que o personagem é ficcional e, 'num fino paradoxo', provocam no leitor o desejo de vê-lo como real. Mas não gosta de livros como os de Robbe-Grillet (fundador do 'nouveau roman', morto neste ano) ou B.S. Johnson (autor de The Unfortunates, livro de páginas soltas que cabe ao leitor ordenar) em que terminamos sem ter convivido com os personagens.

Do extraordinário conto de Bolaño, Gómes Palacio: 'A estrada tinha deixado de ser uma linha reta. Pelo retrovisor vi um muro enorme se erguendo além da cidade que deixávamos para trás. Demorei para reconhecer que era a noite. No toca-fitas a cantora começou a gorjear outra canção. Falava de um povoado perdido no norte do México, onde todo mundo era feliz, menos ela. Pareceu-me que a diretora estava chorando. Um pranto silencioso e digno, mas incontível.' Bolaño não precisa dar o nome da diretora da faculdade, nem descrevê-la com algo mais do que duas linhas ('uma mulher de olhos esbugalhados, gorducha, de meia-idade, que usava um imenso vestido estampado com quase todas as flores do Estado'), para nos dar a impressão de que conhecemos a personagem, de que a percebemos ao mesmo tempo patética e empática.



Outra discussão importante que Wood comenta é a do conceito-chavão de 'personagem consistente', como se houvesse apenas um modo de construí-lo. 'Acho que os romances tendem a fracassar não quando seus personagens não são vívidos ou profundos o bastante, mas quando o romance em questão fracassou em nos ensinar como nos adaptar a suas convenções, fracassou em manejar uma fome específica por seus próprios personagens, por seu próprio nível de realidade.' Nota, em seguida, como Saul Bellow não criou personagens com os quais nos identificamos (não saímos nos perguntando 'o que Augie March ou Charlie Citrine fariam?'), mas pelo interesse estético e filosófico do autor neles (o que faz de Moses Herzog um símbolo, um catalisador de percepções).

Vejo, por sinal, Jorge Amado - cuja obra começa a ser relançada com estardalhaço pela Companhia das Letras - sendo saudado como 'criador de personagens', numa espécie de tentativa de lhe conferir um gabarito que a crítica teima em lhe negar, apesar do sucesso comercial. Amado não tinha grande texto e desconhecia todos esses procedimentos sutis da ficção moderna, mas, como Erico Verissimo, era um contador de histórias nato, capaz de captar figuras de uma região. Num país em que escritores 'não sabem bater escanteio', como disse um que sabia, José Lins do Rego (que, como Amado, criou sua obra a partir da leitura do Brasil por Gilberto Freyre), não é qualidade desprezível. O que ele não faz é investir seus tipos de inquietações mentais.

Em A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água, porém, Amado fez uma versão dionisíaca, tropical, do Velho e o Mar de Hemingway: 'Ninguém sabe como Quincas se pôs de pé, encostado à vela menor. Quitéria não tirava os olhos apaixonados da figura do velho marinheiro, sorridente para as ondas a lavar o saveiro, para os raios a iluminar o negrume. (...) Pedaços de mar lavavam o barco, o vento tentava romper as velas. Só a luz do cachimbo de mestre Manuel persistia, e a figura de Quincas, de pé, cercado pela tempestade, impassível e majestoso, o velho marinheiro.'

Estamos diante não de uma pessoa, mas de um herói, romanticamente mitificado, em meio ao machismo e ao 'socialismo moreno' do autor. E, no entanto, a rapidez da descrição e a força dos detalhes, inclusive a repetição da expressão 'velho marinheiro' - tudo dá fecho a uma história que nos cativa, tornando o protagonista um sujeito 'larger than life', até porque entendemos como ama a vida tanto quanto a morte e, se o sonho de apagar tal fronteira lhe reservou tal destino, ele ao menos sobrevive na lembrança dos outros, entre os quais estamos nós, leitores. Talvez porque premido pela pressa de entregar o texto à revista Senhor (e esta é uma das questões que faltam no livro de Wood: o tamanho que cada história deve ter), Amado foi como nunca direto ao ponto. Ali onde a ficção mostra a riqueza da realidade.

POR QUE NÃO ME UFANO

Falei há duas semanas sobre as pressões obscurantistas na sociedade brasileira. Faltou uma destacada: a do MST. Quando eles invadem plantações de pesquisa tecnológica, nada mais fazem do que se alinhar com o modelo feudal, pré-capitalista, que gerou tantos males - inclusive a absurda concentração de terra nas mãos de extrativistas de baixa produtividade, os quais geram poucos e maus empregos, deixando tantos alijados do sistema agropecuário.


Aforismos sem juízo
Política é a obtenção do gozo pela manipulação do medo.

'Talvez porque premido pela pressa de entregar o texto à Senhor, Amado foi direto ao ponto'

'Do detalhismo de Flaubert e do psiquismo de Dostoievski nasceu a ficção moderna'

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