domingo, março 30, 2008

Merval Pereira Manobra arriscada

A decisão do governador do Rio, Sérgio Cabral, de romper a coalizão que o PMDB havia lhe imposto com o Democratas, tem dois objetivos: tentar ganhar o controle da legenda no Rio e se colocar como uma alternativa para uma futura coligação nacional com o PT para a campanha de presidente da República em 2010. Mesmo que diga que a aliança representa “uma nova maneira de fazer política”, sem preocupação com quem fica na cabeça de chapa, não há dúvida de que aceitar dar o vice para a chapa de um partido mais fraco eleitoralmente no Estado significa uma subordinação aos interesses petistas, que está encontrando resistências dentro do PMDB.

Há quem veja na obsessão de Cabral em obter o apoio de Lula sinal de uma fraqueza política que pode lhe ser prejudicial mais adiante. A aliança seria desigual, com o governador aparecendo sempre em posição de satélite político.
Mas Cabral anuncia que a união terá também o apoio do PSB e do PP, e há informações de que pretende levar o PTB, que hoje apóia o bispo Crivella, para o seu lado.
Se der certo, a manobra do governador alinhará todo o comando estadual com o governo federal, o que é bom para o Estado. Ao mesmo tempo, derrotará duas das forças políticas mais retrógradas da região, o PMDB do ex-governador Garotinho e o PRB ligado à Igreja Universal.
Os problemas surgem quando se sabe que o governador Sérgio Cabral não controla o PMDB do Rio, e só tem esse controle se o deputado Jorge Piccianni concordar, como parece ter feito, em abandonar Garotinho e Cesar Maia e se aliar ao governador. Mas a presença de Piccianni será sempre uma dose de incoerência em uma coligação que se pretende inovadora e ética na política do Estado do Rio.
O PP tem o compromisso de apoiar o candidato do PMDB, e a tendência na capital é essa. Se esse candidato for Molon, porém, terá o apoio relutante de setores importantes do partido, como o representado pelo deputado Jair Bolsonaro. Além do mais, há problemas práticos difíceis de serem resolvidos, como as alianças pelo interior do estado, que já estavam armadas em torno do acordo entre PMDB e Democratas.
O PMDB terá que apoiar o PP em cerca de 32 municípios.
A propaganda eleitoral pela televisão da capital é a que entra pelos municípios vizinhos, e o que vai aparecer é o governador com o número 13. Ao mesmo tempo, o PMDB disputa com o PT em municípios importantes como Nova Iguaçu, Barra Mansa, Volta Redonda, Belford Roxo, São Gonçalo.
A questão da candidatura de Alessandro Molon, embora pacífica na cúpula, vai provocar uma disputa nas bases petistas, porque o prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias, está jogando contra, apoiando Vladimir Palmeira. No plano imediato, quer que Lula suba no seu palanque para a reeleição, e o PMDB está exigindo do presidente uma neutralidade onde houver candidatos dos dois partidos.
No plano mais de longo prazo, Lindberg não quer ninguém fazendo sombra a ele na disputa pela candidatura do partido ao governo do Estado em 2010, e se Alessandro Molon vencer a prefeitura do Rio, torna-se um candidato natural do PT.
O PMDB, que tinha duas posições antes desse acordo — coligação com os Democratas ou candidatura própria — passou a ter três, uma delas ainda o acordo já estabelecido e votado com os democratas, que o grupo do ex-governador Garotinho diz que vai manter.
É a posição que lhe restou, pois o antagonismo com o PT impede que ele aceite a coligação de Cabral. Ele alega que todas as alianças no Estado foram acertadas já com o Democratas e aprovadas no âmbito estadual.
O deputado federal Marcelo Itagiba não abre mão de sua pré-candidatura e já procurou o prefeito Cesar Maia para lhe oferecer a vice-presidência em uma chapa peemedebista encabeçada por ele.
Apenas um gesto político para eventuais acordos futuros.
A percepção dos dois é de que no fundo, no fundo, o movimento de Cabral beneficiaria o bispo Crivella mesmo, sendo que o presidente Lula ganharia com os dois, teria dois palanques poderosos no Rio.
Itagiba conseguiu que a convenção estadual do PMDB seja a instância final da escolha do partido. Pelos estatutos do partido, só quem pode decidir sobre coligações e candidaturas é a convenção estadual, a Executiva não tem essa prerrogativa.
A aliança com o PT, portanto, terá que ser votada na convenção estadual. Marcelo Itagiba está disposto a recorrer às instâncias superiores do partido se o governador Sérgio Cabral quiser impor a chapa Molon-Fichtner, e promete recorrer até à Justiça. E teve ratificado o apoio da bancada federal do PMDB.
Como se vê, muita água ainda vai rolar embaixo dessa ponte.

Quem estimula

Não se sustenta a tese de que a ministra Dilma Rousseff não sabia do dossiê montado em sua ante-sala quando telefonou para dona Ruth Cardoso para garantirlhe que ele não existia. Se na ocasião tivesse dito a ela o que diz agora, que existia apenas “um banco de dados inócuo”, seria possível acreditar nessa versão, que hoje beira o ridículo.
Mesmo que a ministra não soubesse de nada, no momento em que a revista “Veja” publicou a denúncia, Erenice Guerra teria lhe explicado que não se tratava de um dossiê com fins políticos, mas de um simples “banco de dados”.
Essa teria sido a primeira e única versão do governo, por ser a verdadeira. Mas procurou-se desde o primeiro momento atribuir ao levantamento diversas origens e objetivos, o que só mostra mais uma vez que a mentira tem pernas curtas.
A sistemática proteção que o presidente Lula dá aos que se envolvem em ações ilegais é a origem dessa usina de delinqüências, não apenas políticas, em que se transformou o seu governo.

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