sábado, março 08, 2008

Quinze anos de Manhattan Connection

Conexão entre dois mundos

Como Lucas Mendes se converteu no mais
nova-iorquino dos jornalistas brasileiros


Marcelo Marthe

Fotos Alcir N. da Silva, Divulgação
Mendes hoje (à esq.) e no começo do Manhattan Connection, ainda com Francis (no centro), e Mainardi: já são quinze anos de existência

Segundo uma piada que circula entre seus amigos, o jornalista Lucas Mendes atua como correspondente internacional desde os tempos do assassinato daquele grande presidente americano. John F. Kennedy? Não, Abraham Lincoln – no longínquo ano de 1865. De fato, Mendes acumula uma experiência ímpar no exterior. Ele se mudou para Nova York em 1968 – e lá se vão quatro décadas de vida e trabalho (ou dois terços de seus 64 anos) em terra estrangeira. Entre 1975 e 1990, período em que rodou o mundo como repórter da Globo, seu rosto e seu texto elegante se fixaram como marca de qualidade do telejornalismo brasileiro. Sua imagem também ficou associada de forma incontornável à capital financeira e cultural do planeta. A expressão cabal disso é o programa Manhattan Connection. Exibida nas noites de domingo pelo canal GNT, a mesa-redonda em que os fatos da semana são debatidos com um tempero nova-iorquino foi criação dele. Nesta semana, o Manhattan comemorará quinze anos de existência – um feito para uma atração da TV paga que vive mais do prestígio que do ibope. O programa sobreviveu à morte de sua estrela original, o jornalista Paulo Francis (cuja função de polemista foi assumida mais tarde por Arnaldo Jabor e, desde 2003, por Diogo Mainardi, colunista de VEJA). Também se segurou como pôde nas crises econômicas do país. Uma façanha que se deve à perseverança de seu âncora e mentor.

Mineiro de Belo Horizonte, Mendes é sobrinho-neto de Murilo Mendes, um dos maiores nomes da poesia modernista brasileira. Outro parente, o tio José Guilherme, foi correspondente internacional do extinto jornal Última Hora. O sobrinho abraçou essa mesma carreira bem jovem. Aos 24 anos, foi a Nova York fazer um curso. Uma proposta de emprego lhe permitiu ficar por lá. Chegou à televisão pela Globo, alguns anos mais tarde. Histórias do período não faltam. Em 1979, viveu momentos de tensão num hotel sob vigilância de terroristas palestinos, enquanto aguardava por um encontro com o líder Yasser Arafat. Com a saída da Globo, circulou por vários empregos até o surgimento do Manhattan Connection. O GNT, então engatinhando, queria produzir um programa jornalístico, mas tinha verba curta. "Eu falei a eles: por que não colocamos quatro sujeitos numa mesa debatendo os temas da semana? Conversa mole custa barato", diz Mendes. Ele tinha uma inspiração em mente: The McLaughlin Group, mesa-redonda sobre política no ar há 26 anos na TV americana. No caso do Manhattan, o leque de assuntos acabou sendo mais amplo. A experiência não só deu certo como abriu um nicho na TV brasileira.

A morte de Paulo Francis representou um baque duplo para Mendes. Ele era íntimo do jornalista, a ponto de ter cuidado do traslado de seu corpo para o Brasil. E, de forma repentina, viu o programa se esvaziar. Com seu estilo único, Francis protagonizou rinhas antológicas, em que triturava o discurso politicamente correto do colega Caio Blinder. "Tenho de dar o braço a torcer: eu discordava quando Francis atacava o Bill e a Hillary Clinton, mas hoje acho que ele tinha toda a razão", diz Blinder. Na condição de âncora e responsável pelo programa, Mendes também era obrigado a administrar o ego de Francis. Quando achava que ele se excedia, dava-lhe cutucões por baixo da bancada. Depois de sua morte, Mendes chegou a anunciar o fim do Manhattan. Essa não foi a única situação crítica. Em 2002, com a disparada do dólar em decorrência da ascensão eleitoral de Lula, o Manhattan ficou outra vez ameaçado. Foi salvo pela mobilização dos espectadores, após dois meses sem exibição. Nos dois momentos de baixa, a entrada de novos polemistas – primeiro Jabor e depois Mainardi – revigorou a fórmula. A cada substituição, contudo, ficou mais evidente que a peça essencial ali é mesmo Mendes, com seu timing para mediar as discussões e a pauta bem sacada (que divide com Blinder). O Manhattan é um programa que cresce com os fatos. "Mais que da nossa capacidade de dar opiniões, dependemos da qualidade da notícia", diz Mainardi.

A gravação do especial de quinze anos, nesta quarta, reunirá pela primeira vez toda a bancada no Brasil. Será uma chance rara de Diogo Mainardi contracenar com os colegas Mendes, Blinder, Ricardo Amorim e Lúcia Guimarães. Normalmente, ele grava sua participação do Rio de Janeiro. A possibilidade de reuniões como essa ocorrerem com freqüência é nula. Mendes não se desloca para o Brasil mais que uma ou duas vezes por ano. Curiosamente, apesar de estar fora há tanto tempo, ele não se despluga da realidade nacional e mantém laços estreitos com a família em Minas. Casado pela segunda vez, com a americana Rose, pai de dois filhos e com uma enteada, ele hoje possui dupla cidadania. "Eu me sinto em casa em Nova York", diz. "Mas a alma é mineira."


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