domingo, março 09, 2008

Pedro S. Malan Heranças

Recorrer a um “discurso incompreensível” é um dos 38 estratagemas discutidos por Schopenhauer em seu fascinante Como vencer um debate sem precisar ter razão. O antepenúltimo estratagema, com o título acima, consistiria em “desconcertar, aturdir o adversário com um caudal de palavras sem sentido”. O estratagema está baseado em uma observação de Goethe: “Muitos, ao escutar apenas palavras, acreditam que também deve haver nelas algo para pensar.” Exemplos de uso intensivo desse estratagema não faltam “en latinoamerica” - e em nosso próprio país.


Por exemplo, do ponto de vista da retórica, entendida como arte da persuasão, parece haver uma estrutura básica, uma matriz, digamos assim, preconceitual, que permite a nosso bravo presidente, e a muitos de seu governo, abordar qualquer tema com ardente eloqüência e, aparentemente, total e absoluta convicção.

Simplificando ao extremo, e correndo o risco de não fazer justiça às sutilezas do pensamento presidencial, esta estrutura básica poderia, talvez, ser assim enunciada: “Problemas de hoje - quaisquer que estes sejam - são facilmente explicáveis porque no passado não foram resolvidos como deveriam.” Entenda-se por passado qualquer subperíodo anterior ao início de 2003, de 1500 ao final de 2002. Portanto, o atual governo, que está no poder há apenas 5 anos, 2 meses e 1 semana, não pode ser responsabilizado por “coisas”, que outros (governos, elites, direitas) não puderam, não quiseram ou não tiveram a competência para resolver, como estaria - e só agora - resolvendo o atual governo.

Para a opinião pública minimamente informada, este discurso do nunca antes jamais e da herança maldita definida genericamente como qualquer coisa pré-2003 que possa ser encaixada no improviso do momento, virou parte do nosso folclore, para não dizer do nosso anedotário político. E sua infindável repetição, milhares de vezes (à Goebbels) assegura que muitos acreditem (à Goethe) que deva haver ali algo de verdade ou pelo menos algo para pensar.

Não quero, no que se segue, desconhecer os acertos do atual governo, que certamente existem. Apenas chamar a atenção para a necessidade de um mínimo de senso de perspectiva e de noção de que na vida de qualquer país há processos que se desdobram no tempo, complexas interações entre continuidade, mudança e consolidação de avanços. O Brasil não é exceção a essa regra.

Para ficar apenas no mundo da economia e no período de tempo que Ivan Lessa imortalizou com seu chiste “a cada quinze anos o Brasil esquece tudo o que aconteceu nos últimos quinze anos”, pense o leitor se não há algum significado no seguinte: quatorze anos de inflação civilizada, nove anos de regime de metas de inflação, nove anos de regime de câmbio flutuante, oito anos de Lei de Responsabilidade Fiscal. Quinze anos de maior abertura comercial. Quinze anos do início dos processos de privatização. Quinze anos desde a renegociação da dívida externa do setor público. Quase quinze anos de maior integração financeira com o resto do mundo e desenvolvimento no mercado de capitais no Brasil. Uma década pós-saneamento do sistema bancário.

Ao longo dos últimos cinco anos, esta herança - que nada tem de maldita - juntamente com uma política macroeconômica responsável, permitiram que o Brasil pudesse aproveitar-se do extraordinário favorável contexto internacional que prevaleceu no qüinqüênio 2003-07 para aumentar não apenas o seu crescimento potencial, mas também a capacidade de nossa economia enfrentar crises externas - como a atual - com seus inevitáveis custos, riscos, incertezas e volatilidades, procurando assegurar a continuidade do processo - em curso há pelo menos uma década e meia - de gradual conversão do Brasil num país mais “normal”, vale dizer, um pouco mais previsível e confiável.

Mas deve ser notado que há resistências de peso a este processo. Em dois artigos recentes na Folha de S.Paulo, o ex-ministro José Dirceu repete inúmeras vezes a cantilena da herança maldita (afirmando, como Sartre definindo o inferno, que os adeptos de Goebbels “são os outros”) e se dirige a uma militância do tipo bolivariana “nossos sonhos estão mais vivos do que nunca... mantemos nossos compromissos históricos, nossa moral socialista e nossa missão no combate do povo brasileiro por sua libertação”.

Mas os dois artigos são importantes porque explicitam o que o núcleo duro do petismo, tão bem representado pelo autor, considera o cerne da “herança maldita”. Escreve o ex-ministro: “O governo Lula, repito, recebeu uma herança maldita. Faz parte desse inventário macabro a abertura descontrolada de nossa economia e do sistema de telecomunicações ao capital internacional... este crime de lesa-pátria... vender empresas estatais na bacia das almas é o mais hediondo de todos, porque atenta contra os direitos do povo e ameaça a soberania nacional.” E o tom triunfante leva o ex-ministro, mesmo reconhecendo não estar em pauta a recuperação do controle estatal sobre companhias privatizadas, à sua conclusão taxativa: “Mas é obrigação do governo intervir para bloquear e reverter a desnacionalização de setores fundamentais da economia.”

Aprendi, com Montaigne, que não há argumento que não tenha um contrário, que não há nada certo exceto a incerteza, nada mais mísero e vaidoso que o homem e que ninguém está isento de dizer e escrever tolices - o mal está em fazê-lo com pompa, levando-se por demais a sério.

Por isso creio que precisamos de um pouco menos de arrogância, um pouco mais de humor, um pouco menos de palanque e um pouco mais de racionalidade no debate público ao longo dos próximos dois anos e meio, quando, na prática, este governo terá concluído sua herança. E espero que a esta se lhe faça justiça, algo que este governo não consegue fazer com a herança que recebeu, e sem a qual (e a situação internacional favorável) não chegaria onde chegou.

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