terça-feira, março 25, 2008

Míriam Leitão - Barco à deriva



PANORAMA ECONÔMICO
O Globo
25/3/2008

Política econômica à deriva é aquela em que, na mesma semana, preparam-se medidas para conter o consumo dos pobres e um pacote de bondades para empresários. O Ministério da Fazenda elabora medidas para dar subsídios aos empresários e, ao mesmo tempo, quer reduzir o crédito, o que só afetará os consumidores de menor renda, que são os que precisam de prestações mais longas.

A mesma política econômica prepara medidas para diminuir o imposto pago por algumas empresas num momento em que ainda não ficou claro o efeito da falta da CPMF. A política industrial que está sendo desenhada é daquela à moda antiga, feita na base da escolha de setores a serem beneficiados com bônus tributários. Se há arrecadação excessiva, o que tem que ser feito é dar algum horizonte de queda de impostos para todos os contribuintes e todas as empresas.

Política econômica à deriva é aquela em que as autoridades se revezam dizendo que nada vai nos afetar porque "nunca antes na história" e, ao mesmo tempo, prepara medidas que supostamente evitariam que a crise chegue a nós. Preparar-se para a crise é necessário, mas com as medidas certas. O governo tem que cortar seus gastos, ser eficiente na gestão, ter projetos de reformas. Essa é a única forma de se preparar para a crise que certamente chegará.

Para cortar o crédito dos mais pobres, o governo terá que apagar as muitas declarações feitas pelo próprio presidente Lula, louvando-se por estar permitindo o crédito para os de baixa renda. A ampliação do crédito não foi uma concessão de um governo só, mas, sim, parte das conquistas que começaram com a queda da inflação. Em uma das declarações que fez sobre o assunto, Lula disse o seguinte, em junho de 2003.

- Democratizar o crédito é uma questão de cidadania. No Brasil, ele falta justamente para quem não dá calote. Para o pobre que compra e paga em dia. Que não desvia dinheiro. Não tem conta em paraíso fiscal. Honra sua dívida porque ter nome limpo na praça é o seu patrimônio mais valioso. Talvez o único.

E agora, justamente este único, que honra sua dívida e não tem conta em paraíso fiscal, é que pagará o pato com as medidas de contenção do crédito. Enquanto isso, por outra mão, o governo deverá repassar a certas empresas o benefício de pagar menos impostos, com a suposição de que isso virará mais emprego. Uma coisa é certa: a limitação do crédito chegará ao mais pobre; o benefício aos empresários não chegará à sociedade. Virará aumento da margem de lucro. Como sempre.

A política industrial está sendo preparada como se fosse um antídoto ao que está acontecendo na balança comercial. De fato, o saldo da balança despencou US$11 bilhões desde julho. Em 12 meses, chegara a US$47 bilhões e agora está em US$36 bi. A MB Associados divulgou ontem um estudo revendo o saldo para US$18,5 bilhões no fim do ano. A queda das exportações tem a ver com a redução do nível mundial de atividade, mesmo assim, as vendas brasileiras continuarão crescendo a 19,1% por estas projeções, e as importações crescerão 43,2%.

A questão é se estas medidas - benesses aos empresários e corte do crédito - vão trazer o que o governo quer. O presidente da Fenabrave, Sérgio Reze, afirma que, se o governo restringir o crédito para automóveis, ele pode acabar abortando investimentos e contratações.

- O mercado está abastecido, os automóveis não estão em falta, nem com ágio. Não é como na época do Plano Real. Este ano, a indústria tem capacidade de atender à demanda. E, para o ano que vem, eles já estão investindo. Não vejo motivo para atitudes como essa.

Atualmente, o tempo máximo de financiamento de um automóvel é de 84 meses, ou seja, 7 anos. Mas Sérgio Reze diz que, em média, o próprio consumidor opta pelo pagamento em 48 meses, de 4 anos. Há cerca de 2 anos, é que se aumentou o prazo para o pagamento. Desde então, as concessionárias vivem um excelente momento de vendas, tendo contratado 20 mil funcionários em todo o país.

Como disse o presidente Lula no Fórum de Microcrédito, em 2003.

- Em vez daquele dinheiro ficar em um cofre, é melhor colocar esse dinheiro circulando. Porque ele vai virar consumo, o consumo vai gerar emprego no comércio, que vai gerar emprego na indústria, que vai gerar mais consumo. Vamos fazer a roda da sociedade funcionar.

O setor do crédito acha que o governo não tem como proibir o financiamento num número específico de parcelas, mas pode inviabilizá-lo através de determinações aos bancos, como o aumento no compulsório. Isso reduz o dinheiro disponível e aumenta o custo do financiamento.

Houve, pelos dados da Serasa, um aumento da inadimplência de 7,5% neste primeiro bimestre comparado ao mesmo período de 2007. A dúvida é se medidas restritivas não levarão apenas a encarecimento do crédito e aumento da inadimplência.

Até quando se viu acuado, no discurso da época do mensalão (aquele em que disse que foi traído), o presidente Lula comemorou o crédito:

- Uma revolução está em marcha no mercado de consumo popular no nosso país. Expandimos o crédito com desconto em folha e muitos trabalhadores puderam pagar as suas dívidas e comprar uma geladeira, um fogão ou outro bem desejado por suas famílias.

Vai ter que esquecer o que disse tantas vezes!

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