sábado, março 22, 2008

Miriam Leitão Dilema do consumo

O crédito a pessoas físicas cresceu 33% em janeiro de 2008 contra janeiro de 2007 e representou 38,6% do aumento total. Isso, segundo a economista Mônica Baumgarten de Bolle, é mais preocupante que o aumento de 26% no crédito imobiliário, porque este representou apenas 4,7% do aumento total dos empréstimos. As empresas estão animadas com o ritmo das vendas, o governo preocupado com o aumento do crédito e do exterior vem a ameaça de crise.

No ano passado, segundo dados do PIB, o consumo das famílias foi de R$ 1,5 trilhão; a massa de salários cresceu 3,6% e o crédito à pessoa física, 28,8%. Os dados de Mônica de Bolle para janeiro de 2008 mostram que o crédito à pessoa física continua crescendo forte. Isso tem feito a alegria de muitas famílias e das empresas, numa economia que sempre teve baixo volume de crédito. O problema é a velocidade do crescimento.

O Ministério da Fazenda vai adotar medidas de controle do crédito, segundo informou Merval Pereira, no GLOBO de ontem.

Por enquanto, o otimismo nas empresas está em alta. Marcas como Cônsul, Brastemp, Coca-Cola, Havaianas ou Aiko, que ouvimos, contam que o bom ritmo de 2007 continua em 2008. As vendas são puxadas pelo consumo das classes C, D e, até mesmo, E.

Sérgio Leme, diretor de vendas da Whirlpool, fabricante das marcas Cônsul e Brastemp, com 40% do segmento de linha branca, conta que a empresa usou estratégias distintas. Investiu pesado em produtos para a classe C, como fogões da marca Cônsul a preço mais baixo e uma nova versão, recém-lançada, do “tanquinho”, aquela máquina de lavar mais simples. O microondas ficou mais barato pela queda do dólar, já que parte dos seus componentes é importada.

Tudo isso impulsionou as vendas. A empresa investiu também em produtos para a classe A, como as geladeiras com duas portas verticais, cuja venda vem crescendo bastante.

Os números da Nielsen para os eletrodomésticos, em 2007, são de que a venda de microondas aumentou 37%; a de geladeira, 23%; a de máquina de lavar roupa, 20%; e a de fogão, 10%.

— O ano passado no setor foi de um crescimento excelente em volume, entre 18% e 19%. Foram vendidos 5 milhões de geladeiras. Este ano, acreditávamos que não ia ser tão positivo, mas vem sendo.

A alta do setor vai ser de dois dígitos — diz Sérgio.

As vendas crescem no Brasil todo, mas principalmente no Nordeste.

— O crescimento no Nordeste é, no mínimo, o dobro do do Sul e do Sudeste — afirma ele.

Uma empresa de cosméticos admite que o Nordeste não era mercado antigamente; agora já é o terceiro maior do país. Sem separar por região, a Nielsen dá alguns exemplos eloqüentes de aumento do consumo.

No ano passado, mais de um milhão de lares passaram a comprar coloração para cabelo, o mesmo aconteceu com iogurte e amaciante.

Continuam subindo bastante as vendas de fraldas descartáveis, sorvetes, sucos prontos e refrigerantes, num movimento muito parecido com o que houve logo depois do Real.

Fátima Merlin, gerente de atendimento ao varejo da LatinPanel, conta que antes havia muita suscetibilidade para alguns produtos, como iogurte, cremes, leite à base de soja. Eles entravam na cesta de compras e, logo depois, saíam. Nos últimos 3, 4 anos, isso mudou.

A Coca-Cola cresceu 16% no ano passado e pode crescer perto disso novamente.

Este ano seu investimento será de R$ 1,5 bilhão, 50% superior ao de 2007.

— Norte e Nordeste estão crescendo mais rápido. E são as classes C e D que continuam fazendo a diferença — comenta Marco Simões, diretor de comunicação da Coca-Cola.

O Brasil ainda é o terceiro mercado em volume do grupo, maior até que a China. A Coca Zero, lançada em abril de 2007, já é hoje líder no seu segmento e, este ano, as vendas brasileiras podem ultrapassar as americanas.

Tanto a LatinPanel quanto a Nielsen notaram aumento da presença de marcas de preço intermediário, mas, segundo dados da Nielsen, as de preço mais baixo ainda são 46% das vendas.

Empresas abertas não podem dar números. A Alpargatas diz apenas que está tendo um forte crescimento neste primeiro trimestre.

As vendas das havaianas crescem pela distribuição da renda; nos tênis, o crédito tem ajudado.

— Quando um consumidor melhora um pouco a renda, nossa estratégia, se ele não quer mais a havaiana clássica, é levá-lo a consumir uma havaiana mais sofisticada, ou então um tênis — diz Márcio Utsch, presidente da Alpargatas.

A Aiko, que produz computadores, agora se concentra nos notebooks.

— Estamos muito satisfeitos com os resultados.

Hoje o produto, que pode custar R$ 1.500, é vendido em lojas como o Extra, em várias parcelas. Certamente já atingiu a classe C — diz o diretor de novos projetos da Aiko, Jorge Tschorny.

A BRMalls, maior grupo de shoppings do Brasil, registrou aumento de 9% nas vendas em 2007. No Via Parque, um dos grandes shoppings do Rio, este ano, o fluxo de veículos tem crescido de 6% a 10%, enquanto a venda cresce 25%.

O Brasil vive este dilema: o consumo em alta pode mitigar o impacto da crise externa, mas o aumento do crédito assusta.

— A velocidade acelerada do crédito a pessoas físicas é um claro indício de demanda excessivamente aquecida. A aceleração persistente do crédito imobiliário pode causar exageros e desdobramentos desagradáveis, mas a participação do crédito imobiliário no crédito total ainda é muito modesta (cerca de 5%) — afirma Mônica de Bolle.

A contenção do crédito que a Fazenda quer adotar tem de mirar o ponto onde o problema é preocupante.

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