sábado, março 08, 2008

MILLÔR

Não esquecer, ETC., tão pequeno, é tudo o mais.

A BOSSA, AINDA NOVA?

Onde começou? Aqui ou ali? Ontem ou antes de ontem? Tem gente que sabe até o dia. E a hora. Mas eu já vivi um tempo em que se sabia o momento da formação do mundo: 13h45, dia 23 de março do ano de 5436. Antes de Cristo, naturalmente. E de Jeová. E de Maomé, não vamos esquecer, que, vivo fosse, teria apenas 1 300 anos.

Mas me perdi. Queria falar de Bossa Nova e acabei falando de bossa velha. Que, no meu caso, começou na noite em que assisti, numa boatezinha no diminuto "Beco das Garrafas", ao jovem cantor Simonal, com seu extraordinário gingado pessoal, acompanhado pela encantadora bailarina Marly Tavares.

Bem, o Rio era uma aldeia. Ali perto funcionava o primeiro bar fechado do Rio, onde se encontrava todo mundo e seu pai, como dizem os franceses. Quando, às 10 da noite, a gente procurava a turma, ainda não era a tiurma, que era toda a cidade nutrida e sofisticada, ela estava lá, no Maxim’s (hoje uma peixaria). Tenho fotografia em que estão, sentados ou em pé, ou no balcão, Ari Barroso, Antônio Maria, Di Cavalcanti, o crítico musical Lúcio Rangel, que, depois do quarto uísque, tocava um trombone imaginário, Fernando Lobo, já pai do Edu, Vinicius, Sérgio Porto, Dolores Duran – não, Dolores era no Vilarinho – e outros que a memória esqueceu e a fantasia não incluiu.

O Começo. Pois é, foi no Beco das Garrafas – um beco de uns 100 metros, onde jamais se jogou uma garrafa, a não ser a atirada por Sérgio Porto, numa crônica? Ou teria sido, como reza a lenda, na gravação de Chega de Saudade, com a já "Divina" Elizeth e um desconhecido João Gilberto? Desconhecido, mas já atrevido. Fui me encontrar, no Centro, com minha amiga DB, bela mulher e bela cantora, que tinha assistido à gravação e ria, falando de João, que interrompera a gravação com um toque "fora de tom" no violão, dizendo que estava tudo errado. Me lembra meu irmão Hélio, entrando na contramão do tráfego intenso da Rua do Riachuelo, gritando pros motoristas justamente indignados: "Contramão!".

Acho que João estava inventando sua batida imortal.

O termo bossa já era comum. Não me lembro se bossa nova já era. Lembro só que José Amádio, o gaúcho que dirigia a revista O Cruzeiro (a TV Globo da época), gostava muito de usar a expressão, e eu fiz um desenho – mais ou menos primário – em duas páginas da revista – um camelo com uma terceira corcova, sobre a qual escrevi Bossa Nova.

Hoje, com a perspectiva do tempo, entre os 135 lugares apontados para o Começo, acho, como Carlinhos Lyra, que o lugar mais quente era o apartamento do pianista Bené Nunes, na Rua João Borges, junto da Marquês de São Vicente. Bené, alegre dono do mundo, tinha casa (apartamento) aberta. Ali chegávamos todos, um às dez da noite, outro às doze, alguns às três da madrugada. Bené, e Dulce, esta com presença e voz incomparáveis, tinha um poder de congregação no meio musical que só vi igual no meio político, com José Aparecido. Nunca tendo aprendido a tocar, Bené era um intérprete excepcional – tocava qualquer música, popular ou erudita, enquanto conversava.

Ali eram constantes muitos dos que fariam a Bossa, como o já citado Lyra, Tom e naturalmente músicos de outras fontes e talentos, como Jacó do Bandolim e João do Vale, de quem fui amigo durante algum tempo. A partir do Maranhão, numa reunião em casa de Sarney, o tempora!

Mas esta nota é apenas pra falar da minha contribuição inegável ao movimento. Tínhamos uma turma de pôquer da pesada, que se reunia duas ou três vezes por semana, na "casa" de Nara. Participavam da roda, uns habituais, outros nem tanto: o orador que vos fala, o humorista Leon Eliachar, o respeitado analista político Newton Rodrigues, Antônio Maria, Paulo Francis (!), Ivan Lessa (!!), Danuza Leão, bota aí.

Quando chegava a hora do pôquer terminar, a "roda de fogo", a garotada ficava esperando, Nara, Menescal, Chico Fim de Noite, Ronaldo Bôscoli (já sedutor) e quem mais vocês quiserem colocar. No passado cabe sempre mais um.

Mas a "roda de fogo" sempre se prolongava, a rapaziada esperando, violão na mão, voz na garganta, para começar a História.

Um dia fiz as contas: devo ter atrasado uns seis meses o nascimento da Bossa Nova.

Aviso final: todos devem tomar cuidado com o que falam sobre a Bossa, depois que Ruy Castro a esmiuçou tão esmiuçadamente (valha o pleonasmo) em Chega de Saudade.

Muitos torcem o nariz pra essa obra, pois Ruy mal tinha nascido na época da Bossa. Além disso veio de Caratinga, e não assistiu a nada do que conta. É verdade.

Mas Heródoto também não esteve na Guerra do Peloponeso.

Refazendo a história

Ao contrário do que dizem os historiadores literários, Proust não escreveu toda a sua extraordinária comédia sacro-erótica, Em Busca do Tempo Perdido –, enfurnado em seu quarto. Ei-lo aqui, pintado por Elstir, no quarto de Van Gogh, em Arles, empenhado no gigantesco trabalho. Willem ficava lá fora, pintando girassóis.

Como, vocês não sabem quem era Elstir? Nunca leram Em Busca do Tempo Perdido!?

Sou capaz até de acreditar que só leram Joyce. Na tradução de Antônio Houaiss.

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